Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Com Esplanada fechada e grades, Brasília recebe turistas para a posse

Apoiadores de Bolsonaro aproveitam para visitar prédios históricos

Angela Boldrini
Brasília

"Pessoal, ó o chaveiro e o imã do Bolsonaro, hein? Ó a lembrança de Brasília e ainda grava o seu nome", anuncia o ambulante Glauco Santos, 40, aos turistas que perambulam nas imediações da Catedral Metropolitana. 

No coração da capital federal, turistas, forças de segurança e vendedores se preparam neste sábado (29) para a posse do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), marcada para o dia 1º de janeiro.

Apoiadores de Jair Bolsonaro tiram fotos em frente ao Palácio do Planalto
Apoiadores de Jair Bolsonaro tiram fotos em frente ao Palácio do Planalto - Pedro Ladeira/ Folhapress

A Esplanada dos Ministérios, fechada para carros, recebe fluxo de turistas de camisetas verde e amarela que aproveitam para visitar os prédios históricos projetados por Oscar Niemeyer às vésperas da cerimônia. 

"Votei e fiz campanha", diz o comerciante José Alberto Frota, 54, que veio de Fortaleza só para assistir Bolsonaro descer a avenida no Rolls Royce presidencial e receber a faixa das mãos de Michel Temer (MDB). 

Acompanhado de dois amigos que moram na capital, ele conta que acaba de desembarcar na cidade e já se sente habituado ("a gente vê tanto na TV que parece que conhece, né?"). 

A viagem, contudo, foi motivo de discórdia no Natal —metade de sua família votou em Fernando Haddad (PT) em outubro. "Rapaz, minha irmã chegou e falou: 'não quero conversa de viagem, de posse'", diz, rindo. 

Um pouco mais abaixo, o casal de curitibanos Nélio e Sandra Solla caminha em direção ao Congresso Nacional, onde o atual deputado federal e futuro presidente será empossado por parlamentares na próxima terça. 

"É um momento histórico, uma verdadeira mudança no país", diz ele, para então apontar os cartazes que recobrem os ministérios comemorando os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, comemorados em 10 de dezembro. "Estava até comentando com a minha mulher: olha isso aqui, essa propaganda subliminar da esquerda por todo lugar. Só falam de direitos, mas ninguém quer saber de deveres, do que fazer para mudar o país", afirma. 

Os dois, que moraram em Brasília "faz uns 30 anos" passeiam na Esplanada para rever os monumentos, mas também para saber o que fazer no dia da posse. Nélio reclama, por exemplo, que não há placas de indicação sobre como proceder. 

Ele diz acreditar, porém, que não haverá tumulto no dia da posse. "Claro que tem que ter cuidado, mas essa turma que vem apoiar é a turma do bem, não tem essa agressividade." 

Ao saber que a reportagem é da Folha, comenta: "Então estou falando com a pessoa errada, a Folha é a mais esquerdista." 

Com a chegada dos turistas verde e amarelos, os vendedores ambulantes que costumam ficar em frente à Catedral adaptaram suas mercadorias. O carrinho de Francisca Dantas, 57, por exemplo, só traz camisetas com os dizeres "Bolsonaro presidente" e bandeiras do Brasil. 

Na sexta (28), ela diz ter vendido 20 unidades. Eleitora convicta do futuro presidente, afirma que também virá à posse, mesmo que não possa trabalhar —a segurança deverá ser reforçada na próxima semana, e o acesso à Esplanada não poderá ser feito com objetos como o carrinho que ela leva agora. "Eu acho ele excelente, porque é uma promessa de novidade, né?", diz. 

Cidade administrativa, Brasília se esvazia aos finais de semana e períodos de recesso parlamentar —como dezembro em janeiro. Na virada de 2018 para 2019, porém, a coisa mudou de figura: a expectativa da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal é que o evento atraia de 250 mil a 500 mil pessoas. 

A posse de Dilma Rousseff, em 2015, recebeu 40 mil pessoas na Esplanada, segundo a Polícia Militar. À de Lula, em 2003, compareceram cerca de 200 mil. 
 
Segundo dados do Ministério do Turismo, a ocupação hoteleira na capital federal é estimada em 85% do total de vagas. 

"Os piores meses são dezembro, janeiro e o começo de fevereiro", diz o motorista de Uber Sergio Souza, 41. "Mas neste ano a gente não está sentindo tanto." 

Com uma camiseta da seleção brasileira, ele conta que já foi petista, mas neste ano votou em Bolsonaro nos dois turnos. "Eu acho que ele não era a melhor opção, mas é o pesticida que a gente está precisando para colocar o adubo depois", afirma. 

Nem toda a Esplanada é unânime no apoio ao presidente eleito, porém. Com uma tatuagem do símbolo feminista na parte de trás do braço, uma jovem caminha com a família em direção à Rodoviária. Ao ser questionada pela Folha sobre se viria assistir à posse, faz um tímido "não" com a cabeça e diz que prefere não comentar o assunto. 

SEGURANÇA

Apesar do clima de festa dos apoiadores, é possível sentir certa tensão no trajeto. Grades foram colocadas no centro da Esplanada, e policiais de moto fazem uma ronda periódica pela avenida. 

Com sirenes ligadas, carros oficiais volta e meia disparam pela rua, chamando a atenção dos transeuntes. 

Na manhã deste sábado, um policial militar acionou o esquadrão de bombas após avistar uma mochila deixada nas imediações do prédio do Ministério do Planejamento. As forças de segurança montaram uma operação, mas não passou de um alarme falso: a mala tinha apenas roupas e objetos de um morador de rua.

A preocupação com a segurança de Bolsonaro, que sofreu um atentado durante a eleição, fez com que fossem proibidos no dia 1º artigos como carrinhos de bebê, mochilas, guarda-chuvas e até garrafas d'água. 

Ainda não se sabe também se o presidente desfilará em carro aberto. A decisão será tomada por ele, no próprio dia da cerimônia de transmissão da faixa.

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