Funai aciona Exército após ataque a tiros contra base no Amazonas

Foi ato de terrorismo, diz comandante da PM; liderança diz que Bolsonaro incentiva invasões de terras indígenas

Fabiano Maisonnave
São Paulo

Em ação descrita como terrorista pela PM, homens armados atacaram uma base da Funai de proteção a índios isolados na Terra Indígena Vale do Javari, no oeste do Amazonas. Em resposta, o órgão indigenista solicitou reforço do Exército.

O ataque, revelado pelo site Amazônia Real, aconteceu por volta das 3h deste sábado (22) na base Ituí-Itacoaí, que funciona sobre uma balsa e está a cerca de 40 km de Atalaia do Norte. 

Na descrição dos quatro PMs que faziam a segurança do local, os invasores estavam em dois barcos e chegaram atirando. A base funciona 24h por dia e é estratégica para impedir a entrada de invasores a regiões onde moram índios isolados.

Índios da etnia matsé na aldeia San Meireles, na fronteira do Brasil com o Peru, na terra indígena Vale do Javari, no Estado do Amazonas - Rubens Valente/Folhapress

“A intenção era matar todo mundo”, diz o comandante do 8º Batalhão de PM do Amazonas, major Huoney Herlon Gomes. “Foi um ato de terrorismo, para acabar com a fiscalização.”

Para proteger a embarcação, onde também dormiam servidores da Funai e colaboradores indígenas, os PMs dispararam 86 tiros. Os barcos foram achados mais tarde, com rastros de sangue. As marcas das balas indicam disparos de calibre 16 (espingarda) e de calibre 380 (pistola). 

Em nota, a Funai informou que solicitou reforços do Exército e da Polícia Militar, que enviou mais seis homens para a região. A reportagem procurou o Comando Militar da Amazônia (CMA),  que orientou a contatar o Centro de Comunicação Social do Exército, mas ninguém foi localizado para comentar o assunto.

O comandante da PM criticou a falta de estrutura da base da Funai por parte do governo federal. “Não há armamento adequado nem pagamento completo das diárias.”

Na semana passada, a Justiça Federal acatou pedido do Ministério Público Federal e determinou que a Funai apresente, em até 90 dias, um plano de reestruturação das Frentes de Proteção Etnoambiental no Amazonas, incluindo a do Vale do Javari.

Segundo o MPF, a própria Funai afirma que precisa de 96 servidores nas seis frentes, mas dispõe de apenas 42. Procurada pela reportagem da Folha, a Presidência da Funai não comentou a decisão judicial.

A TI Vale do Javari concentra a maior população de índios isolados do país, como os flecheiros, além de etnias de recente contato, incluindo os korubos e os matis. 

No ano passado, garimpeiros teriam massacrado um grupo de isolados na região, mas a investigação sobre o suposto ataque segue inconclusiva.

Quinto ataque ​

Beto Marubo, da organização Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), afirma que este já foi o quinto incidente com tiros neste ano envolvendo invasores e indígenas na região, cobiçada principalmente por pescadores.

Em três ocasiões anteriores, pescadores teriam atirado na direção de colaboradores, servidores da Funai e PMs alocados para proteger as equipes. No quarto caso, índios da etnia korubo que pescavam em um lago foram obrigados a deixar o local, em área indígena, após disparos.

Para Marubo, declarações do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), contra a Funai têm gerado a expectativa em Atalaia do Norte (1.140 km em linha reta de Manaus) de que o órgão deixará de existir, abrindo o Vale do Javari para não indígenas.

Bolsonaro já disse que quer revisar demarcações, como a Raposa Serra do Sol (RR), e comparou indígenas vivendo em suas próprias terras a “animais em zoológico”. 

“Isso tem motivado esses invasores a aumentar o ímpeto”, diz Marubo, que trabalhou por 20 anos como servidor da Funai no Javari. “O que se ouve em Atalaia do Norte é: ‘Agora, a gente tem autorização para fazer o que quiser’."

“Isso acontece contra o Ibama também. São equipes do Estado que vêm sendo caçadas por pessoas que se sentem motivadas e no direito de fazer porque o presidente da República meio que oficializou isso”, afirma a liderança.

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