Tenho vivido dias extremamente difíceis, diz Aécio em despedida do Senado

Em último discurso como senador, tucano alertou colegas para caminho de se absolver culpados e condenar inocentes

Daniel Carvalho
Brasília

Mais um na romaria de senadores que não conseguiram renovar seus mandatos, Aécio Neves (PSDB-MG) foi à tribuna do Senado nesta quarta-feira (12) para, em seu último discurso, dizer que está vivendo dias duros.

Fustigado pela delação de Joesley Batista, da JBS, e visto como radioativo em seu partido desde que foi gravado pedindo dinheiro ao empresário, percebeu que teria dificuldades para se reeleger e disputou, com sucesso abaixo do esperado por seus aliados, uma vaga na Câmara dos Deputados.

"Eu tenho vivido dias extremamente difíceis, vocês podem imaginar, mas eu não perco a minha fé, presidente", afirmou em um discurso de 20 minutos.

O senador Aécio Neves (PSDB-MG), que será deputado federal na próxima legislatura
O senador Aécio Neves (PSDB-MG), que será deputado federal na próxima legislatura - Eraldo Peres - 4.jul.2017/AP

Aécio também fez um mea culpa ao comentar a gravação de conversa entre ele Joesley em que o senador pede R$ 2 milhões sob o pretexto de pagar advogados.

"Cometi um erro na minha vida pelo qual me penitencio todos os dias, de ter, já numa história armada por esse cidadão, para se ver livre dos inúmeros crimes que havia cometido, aceitei, por sugestão dele, participar de uma conversa em contrapartida à oferta de um apartamento da minha família que havia sido feita e —ele reconhece isso em seus depoimentos— ele se oferece para me ajudar a pagar os meus advogados da forma que ele achou mais adequada", disse o senador.

Desde então, Aécio mudou seu jeito de agir. Ficou mais discreto e começou uma campanha eleitoral quase que secreta. Não divulgava agendas e preferia eventos fechados, longe da imprensa.

Nesta terça (11), Aécio voltou aos holofotes ao se tornar alvo alvo da Operação Ross, que  investiga suposta propina de R$ 128 milhões paga pela JBS para o tucano e seu grupo de 2014 a 2017. A Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em imóveis ligados ao senador e a Andréa Neves, irmã dele.

Nesta tarde, fez um desabafo em tom de alerta aos colegas.

"Quero reiterar a cada companheiro que aqui está que fiquem atentos porque o que se busca, na verdade, dando voz e credibilidade ao que diz o senhor Joesley, repito, cuja delação foi questionada pela PGR [Procuradoria-Geral da República] pelas suas mentiras e pelas suas omissões, nós estamos seguindo um caminho para absolver o culpado e condenar o inocente. E sei que este não é o papel da Justiça brasileira", afirmou Aécio.

Aécio disse estar presenciando "um verdadeiro teatro do absurdo" e que não poderia se despedir do Senado sem apresentar "uma manifestação clara, vigorosa, de indignação em relação a esses últimos acontecimentos" que o têm como protagonista.

Aécio disse que as doações que recebeu foram todas legais e que não é possível que se queira criminalizar o que era legal. Até 2014, havia permissão para doações empresariais.

"Lutarei pela minha honra, pela honra da minha família, porque eu me conheço, conheço a minha história e não vou deixar que aqueles que se beneficiaram, que ocuparam o Estado nacional em busca de seus benefícios próprios, de seu próprio enriquecimento pessoal, vençam essa batalha", disse o senador.

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