Demitidos por Bolsonaro veem radicais em alta e questões práticas de lado

Fritados pelo presidente, Bebianno, Santos Cruz e Ricardo Galvão criticam extremismo no Planalto

Brasília

Gustavo Bebianno conta que viu um plano para hospitais ser engavetado porque Jair Bolsonaro só pensa em questões ideológicas. Santos Cruz diz que o presidente ignora riscos e continua cercado de extremistas. Ricardo Galvão afirma que o governo tentava desvirtuar dados do desmatamento desde janeiro de 2019.

Os dois ex-ministros e o ex-diretor do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) protagonizaram algumas das demissões mais rumorosas do primeiro ano de mandato de Bolsonaro. Foram submetidos a processos de fritura política e deixaram seus cargos com críticas públicas ao governo.

Eles descrevem uma administração que deixa problemas práticos de lado em nome de discursos doutrinários. Relatam ainda o aumento da influência de grupos considerados radicais.

Demitido da Secretaria-Geral da Presidência em fevereiro, em meio à crise provocada pela revelação do esquema de candidaturas laranjas do PSL, Bebianno afirma que a capacidade de ação do governo se deteriorou rapidamente.

“É um governo que se interessa por besteira, mas não está nem aí para tratar de assuntos que são graves, públicos e notórios”, resume.

O ex-ministro iniciou um estudo sobre parcerias com entidades privadas para aperfeiçoar o sistema de compra de insumos em hospitais federais do Rio. Ele diz que poderia economizar R$ 200 milhões com o programa, que não foi adiante.

“Eu não tive nenhum respaldo nesse trabalho, porque o presidente se dedicava exclusivamente a questões ideológicas, olhando as eleições de 2022”, afirma Bebianno, que se filiou ao PSDB no fim do ano.

O ex-ministro foi o primeiro grande alvo do método de fritura que passou a ser empregado com frequência pelo presidente, com o objetivo de enfraquecer ou forçar a demissão de auxiliares.

Homem forte do PSL em 2018, ele entrou em conflito com Carlos Bolsonaro, um dos filhos do presidente, depois que a Folha noticiou que candidatas haviam sido usadas como laranjas pela sigla em Minas e Pernambuco.

Carlos acusou publicamente Bebianno de mentir quando disse ao jornal O Globo que havia falado três vezes com o presidente sobre o tema. Para se defender, o então ministro divulgou gravações de conversas com Bolsonaro.

“O tempo passou e mostrou que eu não tinha nada a ver com o assunto”, afirma.

Ele atribui sua demissão a Carlos e Eduardo Bolsonaro, a quem chama de “meninos mimados, infantiloides”.

“Por eles, eu nem teria sido nomeado. Enquanto eu estava trabalhando para enfrentar problemas reais, os dois ficavam alimentando fofocas. O que eu fiz pelo Jair, os filhos juntos nunca fizeram nem 1%.”

O general Carlos Alberto dos Santos Cruz também deixou o governo após sofrer ataques nas redes sociais de um grupo ligado a Carlos Bolsonaro e ao escritor Olavo de Carvalho.

“O que chama atenção é a falta de ética. Para dispensar um ministro, basta chamá-lo e pronto. Ele deixa de ser ministro. Essa fritura é o máximo da ralé política. Um comportamento de gente covarde, a escória da política”, diz.

Santos Cruz foi ministro da Secretaria de Governo até junho. Além de cuidar da articulação política, estava sob seu guarda-chuva a estrutura de comunicação oficial do Palácio do Planalto —área que até hoje sofre críticas da ala ideológica do bolsonarismo.

O general da reserva afirma que nunca recebeu uma explicação formal sobre sua demissão. Ele diz desconhecer informações, que circularam à época, de que blogueiros daquele grupo estariam contrariados com a falta de acesso a verbas do governo.

“Se eu estava atrapalhando isso, não sei”, declara.

O ex-ministro da Secretaria de Governo diz que o comportamento radical de alguns auxiliares de Bolsonaro continua sendo um risco para o governo. Ele afirma ter alertado o presidente sobre o assunto, mas nada mudou.

“Ele sempre escutou. O assessor tem que alertar sobre as coisas, mas também ter disciplina para aceitar a decisão da autoridade. Não pode querer que a autoridade decida exatamente como você quer.”

Além de Santos Cruz, outros militares que atuavam com Bolsonaro também deixaram seus cargos ao longo do primeiro ano. Ele diz, no entanto, que a corporação não se confunde com o governo.

“Nunca existiu um grupo militar organizado. Se algo der errado, a responsabilidade é pessoal do presidente, não das Forças Armadas.”

Tanto Santos Cruz quanto Bebianno apontam para a influência excessiva de assessores que compõem o que passou a se chamar de “gabinete da raiva” —um grupo de jovens da ala ideológica lotados no Palácio do Planalto.

“Ele se cercou de um bando de garotos de fraldas que não têm experiência nenhuma e se dedicam a alimentar teorias da conspiração em tempo integral”, diz Bebianno.

Ele chama o grupo de “gabinete da candinha”, termo usado pejorativamente para descrever uma pessoa fofoqueira. O ex-ministro diz que a atuação do grupo prejudica o país.

“Essas teorias da conspiração atrapalham, porque o presidente não tem experiência executiva, não sabe onde é o pé ou a cabeça. Ele precisa ouvir quem sabe”, afirma.

Santos Cruz diz que a radicalização do governo dá origem a um “comportamento de seita”. Bebianno segue uma linha semelhante ao descrever a atuação do presidente.

“Ele está numa megalomania, confunde o Brasil com a pessoa física dele. Se você critica o Jair Bolsonaro, ele acha que você é inimigo do Brasil. Ele precisa se conscientizar de que é só um brasileiro”, afirma.

A agenda ideológica do governo também alimentou o conflito que levou à demissão do físico Ricardo Galvão do cargo de diretor do Inpe.

O cientista relata que os problemas começaram em janeiro, quando o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) disse à Folha que havia imprecisões nos dados do instituto sobre o desmatamento da Amazônia.

Galvão diz ter enviado naquele mês uma nota técnica sobre o assunto ao Ministério da Ciência e Tecnologia, ao qual o Inpe está vinculado. Ele conta ter alertado a pasta outras três vezes sobre uma tentativa do governo de desacreditar o instituto, mas não obteve resposta.

“Desde a época da campanha, o presidente já tinha deixado bastante claro que era contrário a políticas anteriores em relação ao monitoramento do desmatamento da Amazônia”, afirma.

Galvão diz que auxiliares do presidente descartavam as observações da comunidade científica porque o grupo seria “aparelhado pela esquerda”. “Isso me deixou realmente horrorizado”, declara.

Em julho, Bolsonaro disse que os números do desmatamento eram mentirosos e que Galvão parecia estar “a serviço de alguma ONG”.

“Esperei 12 horas após a declaração do presidente para me manifestar. Imaginei que o ministro [Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia] fosse me telefonar e explicar, mas não telefonou”, afirma.

Dias depois, o diretor do Inpe deu uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo em que dizia que a atitude do presidente era “pusilânime e covarde”. Então, passou também por um período de fritura até ser exonerado, em agosto.

Galvão foi chamado por Pontes para um encontro. “Ele disse claramente que não haveria forma de eu continuar lá porque o presidente estava muito indignado comigo.”

Contestados pelo governo, dados preliminares divulgados pelo Inpe em julho apontavam para uma disparada no desmatamento. Em novembro, Salles anunciou um aumento de 29,5% da área devastada, com base em informações do próprio instituto.

“Não teria como esconder os dados”, diz Galvão.

Ele afirma que sua resposta a Bolsonaro foi “necessária e teve efeito positivo”, pois chamou atenção para o comportamento do governo na área. Em dezembro, Galvão encabeçou a lista anual da tradicional revista Nature dos dez indivíduos que tiveram grande impacto na ciência no ano.

O ex-diretor do Inpe afirma que o ministro Marcos Pontes conseguiu preservar o trabalho do instituto, mas se diz “muito preocupado” com o futuro da Amazônia.

“Os discursos [do presidente] são praticamente um sinal verde para a ocupação predatória da região. Um apoio claro aos madeireiros e mineradores”, declara.

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