Divergências entre partidos de esquerda fragilizam oposição a Maia

PC do B diz não aceitar proposta de PSB para lançar candidaturas pulverizadas contra deputado do DEM

Daniel Carvalho Angela Boldrini
Brasília

Divergências entre os três partidos de esquerda que formaram um bloco de oposição do governo podem fragilizar a estratégia de enfrentar a candidatura de Rodrigo Maia (DEM-RJ) à reeleição como presidente da Câmara.

PSB (32 deputados), PDT (28) e PC do B (9) têm reunião marcada para esta quarta-feira (16) para definir como o grupo que construíram para se opor ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) vai se posicionar na disputa no Legislativo.

Rodrigo Maia (DEM-RS) e Jair Bolsonaro (PSL) em cerimônia da Procuradoria-Geral da República
Rodrigo Maia (DEM-RS) e Jair Bolsonaro (PSL) em cerimônia da Procuradoria-Geral da República - Pedro Ladeira/Folhapress

Acontece que cada um deles tem apontado para soluções diferentes e incompatíveis. Inicialmente, as três siglas caminhariam junto com Maia, que tenta comandar a Câmara dos Deputados pela terceira vez consecutiva.

No entanto, com o ingresso do PSL (52) na chapa de Maia, no início do ano, as legendas começaram a rediscutir seus posicionamentos.

Na semana passada, o presidente do PSB, Carlos Siqueira, disse que a adesão do partido de Bolsonaro inviabilizou “completamente” o apoio a Maia.

A solução apontada pela sigla foi juntar os outros dois partidos do bloquinho de oposição a PP (37), MDB (34), PT (56) e PTB (10) e lançar várias candidaturas para forçar que a disputa caminhe para o segundo turno.

Destas siglas já estão lançados os nomes de JHC (PSB-AL), Arthur Lira (PP-AL), Ricardo Barros (PP-PR), Fábio Ramalho (MDB-MG) e Alceu Moreira (MDB-RS).

Mas o abalo ao favoritismo de Maia começou a dar sinais de reversão menos de 48 horas depois. Em reunião realizada no fim de semana, o PDT indicou apoio ao deputado do DEM.

O PC do B se reúne na manhã desta terça-feira (15), em Brasília, para definir que rumo seguirá. O líder da legenda na Câmara, Orlando Silva (SP), amigo de Maia, já descarta a ideia do PSB de lançar múltiplas candidaturas.

“Esta ideia é natimorta. Quem tem muitas candidaturas não tem nenhuma. Tem que construir outro caminho. Não existe corpo sem cabeça, é uma equação que não tem ponto de chegada”, afirmou Silva à Folha.

O PT, que foi excluído do bloquinho de oposição, mas pode integrar o bloco aumentado, ainda não chegou a uma decisão final. O partido se reuniu nesta segunda em Brasília.

Segundo lideranças da bancada, o martelo só deve ser batido no dia 31 de janeiro, véspera do pleito. 
“Com o PSL nós não iremos”, afirmou a presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann (PR), eleita em outubro deputada federal. 

“Nós hoje reafirmamos a mesma estratégia que vem sendo o norte da ação da nossa bancada, nossa prioridade continua sendo a construção de um bloco com os partidos de um campo democrático popular”, disse o líder do PT na Casa, Paulo Pimenta (RS). 

Segundo ele, os diálogos avançam bem com PSB e PSOL, que teriam se mostrado irredutíveis na posição de não apoiar um bloco composto pelo PSL. O PT também tem expectativa de composição com PDT e PC do B.

“Esperamos que o PDT e o PC do B não fiquem com o PSL, nós achamos que é muito importante sinalizar para a sociedade brasileira que existe aqui na Casa um bloco que é a favor da democracia, da nossa soberania, e que o lugar do PDT e do PC do B é junto conosco”, afirmou.

Pimenta não descartou apoio a nenhum dos outros candidatos, deixando a porta aberta para um possível acordo com candidaturas fora do campo da esquerda, como um do PP ou do MDB.

O PT tem dificuldade em chegar a um consenso. Enquanto o grupo mais ideológico quer manter o discurso de oposição e é refratário à possibilidade de uma composição com Maia, a ala mais pragmática do partido defende aliança com quem tiver mais chances de vencer.

Este segundo grupo teme repetir o que aconteceu em 2015, quando o partido lançou Arlindo Chinaglia (PT-SP) à presidência da Câmara e ele perdeu para Eduardo Cunha (MDB-RJ), que fustigou o governo de Dilma Rousseff até chegar ao impeachment da então presidente.

Agora que o PT não é governo, o receio é ficar sem posições de destaque na Câmara e acabar apagado como oposição.

O MDB também tem empurrado o máximo possível a decisão sobre quem apoiará na disputa pelo comando da Casa para ter um retrato mais realista da viabilidade das candidaturas. 

Além de DEM (29) e PSL, Maia conta com apoio de PSD (34), PR (33), PRB (30), PSDB (29), SD (13), PODE (11), PSC (8), PPS (8), PROS (8) e Avante (7).

Por enquanto, também há na bolsa de apostas as candidaturas de Kim Kataguiri (DEM-SP), Capitão Augusto (PR-SP) e Marcelo Freixo (PSOL-RJ).

Do outro lado do Congresso, no Senado, a disputa acontece mais silenciosamente.

Renan Calheiros (MDB-AL) segue como favorito na eleição para presidente da Casa, cargo que já ocupou outras quatro vezes. Senadores disseram que o alagoano já os procurou por telefone.

Ele também tenta sinalizar positivamente à equipe econômica do governo Bolsonaro. Renan chegou a jantar com o ministro Paulo Guedes (Economia) no fim do ano passado.

Até o momento, as candidaturas em discussão são também as de Major Olímpio (PSL-SP), Simone Tebet (MDB-MS), Tasso Jeiressati (PSDB-CE), Davi Alcolumbre (DEM-AP), Angelo Coronel (PSD-BA), Esperidião Amin (PP-SC) e Alvaro Dias (PODE-PR).

Há quem acredite que o senador Fernando Collor de Mello (PTC-AL) também pode disputar, mas sua assessoria diz não ter informações sobre o assunto. O nome dele começou a circular na noite de sexta-feira (11), quando Bolsonaro passou para Maia um bilhete onde se lia “Collor é candidato?”.

Nesta segunda-feira, Alvaro Dias também passou a se movimentar mais ativamente.

“Um legislativo independente na esteira da interdependência dos poderes. Rejeição a qualquer tentativa de invasão de competência da parte do Judiciário. Antecipação aos fatos com agilidade no ato de legislar. Devolução de medidas provisorias inconstitucionais e cumprimento rigoroso do calendário de votações”, escreveu em mensagem de WhatsApp.

O texto, que cita outras propostas, encerra dizendo que “todas [as] sugestões serão bem recebidas. São algumas das ideias que, modestamente, creio, devam presidir o novo Senado que emergiu das urnas. Estaremos juntos, certamente, nesta empreitada”. 

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