Estudo aponta tendência de apoio consistente de deputados a Bolsonaro

Levantamento do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar projeta adesão de 255 deputados ao presidente

Gabriela Sá Pessoa
São Paulo

Apesar de uma base, por ora, instável na Câmara do Deputados, o governo Jair Bolsonaro (PSL) não deve ter dificuldade em conseguir maioria para aprovar pautas de seu interesse, sobretudo as econômicas.

Uma projeção do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) aponta que o governo largará com apoio consistente de 255 deputados e uma oposição de 141 parlamentares --menor apenas das que enfrentaram Fernando Collor e Lula em seu primeiro governo.

O Diap tradicionalmente traça esse retrato de apoio a cada início de legislatura, baseando-se na posição ideológica dos partidos. O estudo considera como parte da base siglas de orientação mais conservadora e próximos da agenda liberal --embora, até agora, apenas o PR tenha formalmente declarado sua adesão ao governo.

O PTB, de tradição governista, anunciou apoio ao presidente no segundo turno da eleição e o PRB já afirmou que converge com o eleito, mas não integrará a base.

"Esse sentimento de composição é dos que podem estar mais alinhados a Bolsonaro nessa reta inicial, mas pode mudar ao longo da legislatura, principalmente depois da eleição para a presidência da Câmara. O apoio vai ser condicionado não ao governo, mas à temática [discutida]", afirma Neuriberg Dias, analista político e assessor do Diap.

Na última quarta-feira (2), o PSL anunciou que irá apoiar a reeleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) para a presidência da Câmara. O acordo, para Dias, facilita a votação da agenda econômica de Bolsonaro, com um chefe de Legislativo e o Executivo alinhados para agilizar a tramitação de reformas econômicas, como a da Previdência, a tributária e privatizações de estatais.

"Essa composição daria mais celeridade à pauta econômica do que outro presidente [da Câmara] alinhado à pauta dos costumes ou um moderado", afirma.

Para aprovar medidas como a reforma da Previdência, por exemplo, o governo precisa de, no mínimo, 308 votos. O ex-presidente Michel Temer (MDB) tinha a maior base parlamentar, segundo o Diap: 358 deputados.

Apesar de aprovar pautas importantes de sua agenda, como a reforma trabalhista, o emedebista não teve capital político para votar alterações na Previdência.

As eleições de 2018 resultaram em renovação recorde para a Câmara e na ascensão de parlamentares de direita, que chegarão a 302, levando em conta também as agremiações de centro-direita. Entre os reeleitos, há também um ambiente propício à concordância com o novo presidente.

O projeto Curió Dados --que reúne cientistas políticos e de dados de instituições como FGV, Unicamp e Uerj-- analisou as votações da Câmara no último mandato e identificou que 60% dos parlamentares reconduzidos a seus gabinetes (130 congressistas) votaram como Bolsonaro em 65% das vezes. Isso sugere, diz o estudo, que esses congressistas "apresentam algum grau de afinidade política com o presidente eleito".

Os votos da bancada reeleita do PSDB (15 deputados) apresentaram a maior taxa média (82%) de correlação com o presidente, que foi deputado federal de 1991 a 2018. O percentual é o mesmo do Patriota, com apenas um reeleito.

Considerando os grandes partidos, as maiores correlações apareceram nas bancadas do MDB, PSDB e DEM.

As afinidades entre os deputados reeleitos e Bolsonaro indicam também a preferência do eleitorado por candidatos com ideias parecidas com as do presidente, diz o cientista político Fábio Vasconcelos, membro do Curió Dados e professor da Uerj e da ESPM no Rio.

"Isso é explicado, em parte, pela onda Bolsonaro e em parte pela perda de força política do PSDB e MDB. Quase sempre, a eleição majoritária tende a influenciar a votação proporcional, especialmente quando o eleitor identifica deputados mais próximos da linha ideológica do presidente", afirma o cientista político.

Nilson Leitão (PSDB-MT), líder do PSDB na Câmara, diz que a bancada não vai aderir à base de Bolsonaro, mas apoiará o governo nas reformas econômicas, também defendidas pelos tucanos.

"Óbvio que essas pautas vão coincidir com o apoio do PSDB, ainda mais com o Rogério Marinho [deputado federal pelo PSDB-RN] assumindo a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho. Não tenho dúvidas de que, nessas reformas, o governo terá todo o apoio", afirma Leitão.

Ainda na largada, é preciso observar como o governo Bolsonaro irá articular apoios na Câmara.

"Bolsonaro deu pouca atenção aos partidos na composição de seu ministério", pondera Vasconcelos.

Ele afirma que é preciso considerar que a posição já defendida pelo presidente de não negociar com partidos, mas com frentes parlamentares, pode ser arriscada. "Os partidos organizam as votações no Legislativo e é por meio deles que a Câmara funciona. As frentes estão juntas em determinados temas, em outros há grande chance de problemas", diz.

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