Descrição de chapéu Fórum Econômico Mundial

Falta à esquerda capacidade de dialogar, diz Luciano Huck, em Davos

Apresentador de TV, que chegou a ser cotado como presidenciável, participou de debate na Suíça

Luciana Coelho
Davos

O apresentador Luciano Huck, que chegou a cogitar a candidatura à Presidência em 2018, acha que a esquerda brasileira não mostra hoje capacidade e disposição a dialogar.

Já o governo de Jair Bolsonaro, cujas propostas econômicas ele elogia, concentra pessoas com mais de 60 anos, em um momento em que a política precisa de renovação e modernização.

Diálogo e renovação são as ferramentas que Huck, alguém que afirma querer participar mais da política mas evita citar candidatura, sugere para tentar cicatrizar as feridas abertas na última eleição. 

Em Davos para participar da reunião anual do Fórum Econômico Mundial —ele interrompeu as férias para debater em um painel sobre reconstrução da confiança da sociedade—, ele falou à Folha nesta sexta (25), último dia do evento.

O apresentador Luciano Huck, durante debate em Davos nesta sexta (25)
O apresentador Luciano Huck, durante debate em Davos nesta sexta (25) - Reprodução Youtube

 

O que falta para reconstruir a confiança da sociedade na política?
Temos que fazer uma construção de novas lideranças, o maior investimento que a gente pode fazer nos anos que estão aí é tentar construir um projeto de país que priorize as pautas que eu acho que de fato são transformadoras, sobretudo educação, redução de desigualdade no Brasil. E para implementar essas pautas você precisa de lideranças novas.

Fiquei aqui no Fórum três, quatro dias e você vê quão sexy está o resto dos assuntos, investimento de impacto, tentando lapidar um capitalismo 4.0 que se adeque aos novos tempos. E quando você vai falar de política você ouve os discursos e vê como ainda são antigos, com assuntos antigos. A gente tem que tentar um esforço grande para fazer as discussões políticas, de governo, institucionais de um jeito sexy, mais moderno, e em paralelo formar novas lideranças que possam colocar essas coisas em prática.

No atual governo e nos últimos falta despertar para essa modernização?
Não é uma crítica, é uma constatação. Se você olhar o gabinete formado nesse novo governo, sem julgamento de mérito da capacidade ou das ideias, a grande maioria tem mais de 60 anos.

​A gente tem que formar novos líderes, pessoas com uma cabeça mais moderna. O que a gente mais precisa no Brasil neste momento é diálogo. E acho que esse fórum é um território muito fértil para o diálogo, com gente de opiniões diferentes discutindo ideias e tentando concluir alguma coisa sobre como a gente pode fazer um mundo mais justo e mais eficiente.

Como você pretende participar desse processo?
Já estou. Já entendi, e meu papel na televisão nos últimos 20 anos foi importante, mas eu quero fazer mais coisa. Como é que eu poderia efetivamente, posso participar e tentar ajudar com princípios novos e virtuosos para as próximas décadas. Eu acho que esta eleição, essa renovação que a gente conseguiu no Legislativo principalmente, é um dos primeiros passos que a gente tem que dar de uma jornada longa. Não é um projeto pessoal, pontual, é um chamamento geracional.

E como sociedade, o que falta nesse momento, que estamos tão polarizados? Onde a gente se perdeu?
As feridas estão abertas. E quando se está com a ferida aberta qualquer agente externo arde, temos que contribuir para cicatrizar, e isso se dá por meio do debate, do diálogo principalmente. É isso que precisamos fazer, apoiar as agendas positivas, criticar as que você não concorda, dialogar.

Falta ao atual governo e à esquerda essa disposição?
À esquerda falta, nesse momento, a capacidade e a boa vontade de dialogar. Graças a Deus o último governo do PT tinha péssima capacidade de execução, porque tinham péssimas ideias, e se tivessem capacidade de execução seria pior ainda, e agora, este novo governo, do ponto de vista econômico tem boas ideias, claras, e agora vamos ver qual a capacidade de execução daqui para frente. E nas pautas nas quais a gente não concorda, que não são poucas, a gente vai ter que ficar vigilante e ter a capacidade de dialogar, criticar e apontar caminhos.

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