Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Onyx diz que Bolsonaro não recebeu papel em branco e pede pacto com oposição

Novo chefe da Casa Civil adotou discurso conciliador após fala agressiva do presidente na véspera

Brasília

O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, tomou posse nesta quarta (2) com um discurso conciliador e apelando à oposição por um pacto para que ajude a gestão Jair Bolsonaro (PSL) a governar o país. Na frente do chefe, afirmou que ele não “recebeu um papel em branco” ​da população ao ser eleito no segundo turno contra Fernando Haddad (PT).

Na véspera, o presidente havia citado a necessidade de apoio parlamentar em discurso no Congresso, mas sua fala pública na praça dos Três Poderes retomou a retórica agressiva da campanha eleitoral, dizendo que havia começado a libertar o país do “socialismo” associado ao PT —que deixou o poder há mais de dois anos. 

O presidente da república Jair Bolsonaro (PSL) e Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil, durante cerimônia de transmissão do cargo - Eduardo Anizelli/Folhapress

A modulação do discurso parece indicar uma nova dinâmica no Planalto sob nova gestão, em que declarações incendiárias para galvanizar a base de apoio de Bolsonaro são intercaladas por falas apaziguadoras destinadas aos atores políticos.

"Eu conversei com o presidente hoje pela manhã e nos cabia fazer o primeiro gesto”, disse depois o chefe da Casa Civil sobre seu discurso. "A gente tem clareza e estará muito firme no que acreditamos. Mas isso não quer dizer que não sejamos capazes com humildade estender a mão e pedir um entendimento porque tem um valor maior que é o nosso país."

Bolsonaro deu posse, no Palácio do Planalto, a Onyx e ao secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebianno (PSL-RJ). Os dois generais de quatro estrelas da reserva que integram o novo núcleo duro palaciano, Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Carlos Alberto dos Santos Cruz (Secretaria de Governo), também assumiram. O presidente não discursou ou deu declarações, saindo do evento para receber o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo.

Onyx, usualmente um crítico ácido do PT e da esquerda, afirmou que “o governo vai surpreender” por sua capacidade de diálogo. “Não podemos errar, e uma das formas [para isso] é ter bons ouvidos para aqueles que se opõem ao nosso governo”, afirmou.

“Não é possível que a oposição não possa compreender, assim como o governo, que vamos ter que olhar primeiro para o Brasil, para as famílias brasileiras, presente das pessoas e garantir o futuro”, completou. O novo ministro disse ainda que as disputas políticas “podem e devem ser travadas”, mas que “o diálogo será necessário”. 

“Nós não recebemos um papel em branco ao vencermos as eleições sob a liderança do presidente. Sabemos que temos a responsabilidade de conduzir o Brasil. Nominalmente, na Câmara a oposição à esquerda de Bolsonaro deverá ter cerca de 70 dos 513 deputados, mas é previsível resistência de grupos centristas às medidas econômicas a serem apresentadas pelo novo governo.

Onyx era deputado do DEM-RS quando aderiu, há quase dois anos, ao projeto presidencial de Bolsonaro. Lembrou o preceito bíblico de que “muitos são chamados, poucos são escolhidos”, e disse que o presidente foi “chamado por Deus”. Citou o atentado a faca que ele sofreu em 6 de setembro, em Juiz de Fora. “Disse que estaríamos juntos para matar ou morrer”, afirmou, completando que não imaginava que seria algo literal.

Ambos, ministro e presidente, demonstraram estar bastante emocionados durante o discurso. Elogiou a todos os presentes, em especial o general Heleno, conselheiro principal de Bolsonaro nos últimos dois anos. O chamou de “nosso guru” em mais de uma ocasião. O antecessor de Onyx, Eliseu Padilha, defendeu o legado de Michel Temer (MDB) e disse que o novo governo terá de mostrar serviço. "Desejo que tenha tanta ou mais sorte do que tivemos. E que consiga fazer mais, porque a expectativa do Brasil é muito grande e temos de corresponder, temos de ter ações para corresponder", afirmou.

Na mão inversa da fala de Onyx, Bebianno empunhou a bandeira retórica do bolsonarismo em seu discurso. Homem-forte da campanha, mas enfraquecido durante a transição, ele disse que "o amor à nossa Pátria seja resgatado, amplificado da mentalidade bolivariana que insiste em ameaçar democracias na América do Sul". Depois da fala, reafirmou suas críticas ao PT.

"Nós sabemos que dificilmente o PT virá para um diálogo honesto e franco. Honesto do ponto de vista intelectual. É um partido que se coloca acima da nação brasileira. Mas, da nossa parte, o diálogo é sempre aberto”, afirmou Bebianno. ​

Além disso, assim como o chefe no discurso da posse da terça (1º), remeteu à facada e disse que houve “suor, lágrimas e literalmente sangue, sangue derramado no covarde atentado”. Afirmou esperar que o “liberalismo econômico seja implantado em favor de nós” e acenou aos ministros militares, com quem teve diversas divergências na campanha e na transição.

Já o general e “guru” Heleno foi econômico na fala, mas criticou duramente a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) por ter desmontado o sistema de inteligência do governo. Ao tomar posse, elogiou a gestão Michel Temer (MDB) por ter recomposto o GSI e o sistema brasileiro de inteligência. "Ele foi derretido pela senhora Rousseff, que não acreditava em inteligência", afirmou, em meio a risadas e aplausos da plateia. Dilma, ex-integrante de um grupo da luta armada contra a ditadura de 1964, havia extinguido o GSI em seu governo.

Ele é um dos mais duros críticos dos governos do PT, e foi colocado num cargo burocrático em 2009, após quase ser comandante do Exército sob o governo Lula, por ter criticado a política indigenista do petista. Ainda elogiou o antecessor, o também general Sérgio Etchgoyen, pela segurança rígida na posse de Bolsonaro. Agradeceu o apoio da mulher, Sônia, pelo apoio. 

Etchegoyen, em sua despedida, afirmou que Temer optou por ter como mote a coragem, e não a crise, a despeito dos turbulentos dois anos de seu mandato após o impeachment de Dilma em 2016. Elogiou Bolsonaro, dizendo que ele foi eleito porque “acredita em valores, ética e honestidade”.

Em sua fala, o general Santos Cruz seguiu na linha conciliadora de Onyx. Ele disse que o governo estará aberto a todos os movimentos sociais, independentemente de quaisquer restrição ou dúvida. Bolsonaro já classificou o MST (Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), por exemplo, de grupo terrorista por suas ações de invasão de propriedade no campo. Outras entidades são genericamente classificadas como a serviço de alguma ideologia de esquerda.

O general afirmou que a secretaria continuará sendo "ponto de entrada e de relacionamento" da Presidência da República. "Estaremos sempre de portas abertas a todos os prefeitos, governadores, instituições e movimentos sociais, independentemente de qualquer consideração", afirmou. "Esse é o nosso espirito, independentemente  de qualquer consideração que imponha qualquer restrição ou dúvida”, disse ele, que já afirmara que iria receber integrantes do PT, maior rival de Bolsonaro à esquerda.

Em discurso de despedida da mesma pasta, Carlos Marun, disse que sua mulher fez uma homenagem ao novo governo na cerimônia de transmissão de cargo. "Ela veio de roupa verde-oliva hoje", brincou, em referência à cor do uniforme do Exército —há generais ocupando diversos cargos de alto escalão.

A cerimônia ocorreu com um atraso mínimo para padrões brasilienses, sete minutos. Bolsonaro ainda não adotou uma logomarca própria, como fez, por exemplo, Temer ao assumir. O palco tinha um fundo verde e o brasão da República, sem as tradicionais frases alusivas ao evento. Os discursos foram todos curtos, com exceção do obscuro Ronaldo Fonseca, deputado licenciado e pastor da Assembleia de Deus que ocupava a secretaria-geral. Ele fez diversos elogios à nova gestão e ao sucessor, Bebianno. “Ouvi muitas críticas, que o senhor é advogado, lutador [de jiu-jítsu], mas que de política [não entende]”, disse Fonseca. 

Em seguida, afirmou que rebate os comentários dizendo que Bebianno ajudou Bolsonaro a vencer a eleição presidencial. “Imagina se não entendesse”, afirmou, ressaltando que o presidente foi “ungido por Deus".

Igor Gielow, Marina Dias , Talita Fernandes e Gustavo Uribe
Erramos: o texto foi alterado

O nome do deputado Ronaldo Fonseca, ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência, foi grafado incorretamente em versão anterior deste texto. 

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