Padre é suspenso de basílica no interior de SP após suspeita de assédio sexual

Decisão vem na esteira de investigação do Ministério Público; religioso nega acusações

Anna Virginia Balloussier
São Paulo

O reitor da Basílica de Santo Antônio, em Americana (interior de SP), padre Pedro Leandro Ricardo, 50, foi suspenso por tempo indeterminado de suas funções eclesiásticas sob suspeita de ter assediado por anos rapazes menores de idade.

O decreto foi publicado neste domingo (27) por dom Vilson Dias de Oliveira, bispo da Diocese de Limeira. O afastamento vem na esteira de uma investigação do Ministério Público de São Paulo que mira não só o padre Leandro Ricardo, mas o próprio bispo.

O padre Pedro Leandro Ricardo, de Americana (SP), suspenso de suas funções na Diocese de Limeira por tempo indeterminado
O padre Pedro Leandro Ricardo, de Americana (SP), suspenso de suas funções na Diocese de Limeira por tempo indeterminado - Reprodução

​A pedido da Promotoria, a Polícia Civil de Americana abriu um inquérito para investigar acusações contra os sacerdotes católicos.

É o padre Leandro que tem maior protagonismo na denúncia feita de forma anônima e que embasou a abertura de investigação sob sigilo judicial —a Folha conversou com quatro pessoas citadas no documento, entre supostas vítimas e seus parentes.

Elas citam cinco garotos que teriam sido alvo de Leandro em paróquias por que passou —entre avanços que não prosperaram e casos consentidos.

O clérigo só foi afastado do cargo após a Folha questionar a diocese sobre o inquérito em andamento. Antes da suspensão, o padre já havia pedido para sair alegando “momentos de estresse muito grande” que afetaram “suas plenas capacidades”.

Contra dom Vilson pairam suspeitas de acobertamento da ação do clérigo e questionamentos sobre seu patrimônio —a denúncia cita dez imóveis. Procurados, os dois negam qualquer malfeito.

O caso envolve promotores de Americana, Limeira e Araras. Começou a partir de uma carta anônima que chegou ao gabinete da deputada estadual Leci Brandão (PC do B) e foi encaminhada para o procurador-geral paulista —e de lá para as cidades.

As quatro pessoas com quem a Folha conversou preferem o anonimato por se dizerem temerosas com o poder do padre —os nomes dos menores citados nesta reportagem foram trocados para preservar suas identidades.

O pai de Alexandre, hoje com 17 anos, fala pelo filho. Segundo ele, a rotina do padre com o menor de idade, iniciada em torno de 2015, incluía abraços apertados e carícias indevidas. Alexandre era um dos meninos que ajudavam o clérigo na missa, chamados de coroinhas e acólitos.

O pai afirma que, traumatizado, o rapaz criou aversão àquela paróquia e sua depressão foi tamanha que a família se preocupou que ele pudesse se matar —chegaram a trancar um aposento onde armazenavam produtos para o orquidário da casa, como agrotóxicos, com medo que o garoto pudesse tomá-los.

Rodolfo, 34, disse à Folha que seu caso foi mais antigo, no começo dos anos 2000 —era então adolescente.

O comportamento de Leandro extrapolava e muito o campo do afeto inocente, afirmou o ex-acólito. “Passava a mão, fazia piadinha.”

Às vezes acontecia de ele e outros rapazes viajarem com o padre, diz. Uma vez, de Kombi, foram todos para um convento de freiras, por exemplo.

As investidas podiam começar no carro, afirma. “Isso de apalpar, deslizava a mão ‘sem querer’ na troca da marcha.”

Rodolfo diz que já sabia sua orientação sexual desde então, mas não achava correto o que o padre tentava fazer. Afirma que o clérigo hoje “tem a maior birra” com ele após suas recusas.

Em 2013, uma moradora de Araras acusou a relação de Leandro com meninos da paróquia local numa carta com firma reconhecida em cartório.

Disse que foi procurada cinco anos antes pela mãe de um jovem que havia saído de casa em 2002 para “morar e ser namorado do padre Leandro”. Teria, ao menos no começo da relação, cerca de 14 anos.

Dom Vilson, disse ela, ficou a par da situação, mas nada fez.

A Promotoria chegou a investigar o alegado relacionamento de padre Leandro com este e outro menor de idade, mas o inquérito não foi para frente por falta de provas.

A denúncia que motivou a nova investigação contra o líder católico retoma o caso e argumenta que as famílias dos então menores acabaram consentindo com a relação após ajudas financeiras.

O padre também processou quatro pessoas que responsabilizou pelo vazamento de imagens de uma conversa no WhatsApp —que ele afirma terem sido falsificadas.

Dom Vilson, na carta enviada por denunciantes à Cúria Romana, é acusado de ser complacente com Leandro e remover padres que não estiverem dispostos a compactuar com seus pedidos de dinheiro para causas próprias.

São três casos narrados —um deles, em 2012, teria resultado em troca na paróquia, com a entrada de Leandro.

Uma carta aberta de fiéis insatisfeitos com o rumo da diocese circulou nos últimos dias dizendo que “vossa senhoria [Vilson] permitiu a entrada [de novos presbíteros] que já foram dispensados de outros seminários por problemas de comportamento moral”.

Acusações são falsas, diz advogado

Após as denúncias, padre Leandro foi suspenso “para dar continuidade ao processo de investigação”, segundo o advogado da Diocese de Limeira, Virgílio Ribeiro.

O processo está sob sigilo e corre “há algum tempo” internamente, afirma. “O bispo de Limeira jamais pactuou ou pactuaria com qualquer ato que confronta as leis que regem a Igreja”, afirma.

Ribeiro destaca que a diocese possui hoje “mais de 110 padres e que, num rol de tantos padres, há descontentamentos, mas uma suposição temerária de um padre que afirma ter sofrido extorsão não merece guarida”.

Questionado pela Folha sobre os bens de dom Vilson, o advogado se limitou a dizer que estão declarados no Imposto de Renda —sem responder se ele realmente tem dez imóveis. “Uma simples matemática”, diz, “mostraria que seu patrimônio é fruto do seu trabalho junto à Igreja”

Bispo há mais de uma década, ele não tem gastos com alimentação e moradia —e já possuía imóveis anteriormente, afirma seu defensor.

Virgílio Ribeiro procurou a Folha para desautorizar um primeiro advogado, Paulo Henrique de Moraes Sarmento, que dias antes havia sido destacado para responder tanto por dom Vilson quanto pelo padre Leandro.

Sarmento, que ainda responde pelo padre, disse que seu cliente “repudia veementemente tais acusações, posto que são falsas e têm o único intuito de denegrir sua honra”.

Antes, havia afirmado que dom Vilson “tem ciência de tais denúncias apócrifas e repudia as mesmas”.

Sarmento depois informou à reportagem que não respondia mais pelo bispo.

A Folha esteve na missa do dia 20, um domingo em que se celebrou com parabéns e bolo o aniversário de 50 anos do padre Leandro, e o abordou. Ele não quis falar sobre as acusações. Disse que os “encaminhamentos” já haviam sido tomados.

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