Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Primeiro mês de Bolsonaro tem crise ética, bate-cabeça e bandeira de campanha

Suspeita sobre filho e disputas pressionam; 'um desencontro ou outro' não é falta de harmonia, diz Cruz

Talita Fernandes Gustavo Uribe
Brasília

O governo de Jair Bolsonaro terminará seu primeiro mês marcado por divergências entre integrantes de sua equipe, recuos de medidas importantes, um decreto de grande repercussão, uma crise envolvendo um filho e incertezas sobre a agenda econômica.

Ele terá ainda de lidar agora com os desdobramentos políticos provocados pelo desastre em Brumadinho (MG), após o rompimento de uma barragem de rejeitos da mineradora Vale, que levou a mortos e desaparecidos.

O presidente Jair Bolsonaro, que está sob pressão com suspeitas sobre seu filho Flávio
O presidente Jair Bolsonaro, que está sob pressão com suspeitas sobre seu filho Flávio - Pedro Ladeira/ Folhapress

O presidente realiza uma cirurgia nesta segunda (28), em São Paulo, para retirada da bolsa de colostomia que carrega desde a facada que tomou durante a campanha eleitoral, em setembro passado.

Por isso, Bolsonaro estará em recuperação médica na posse do novo Congresso, na próxima sexta 1º, quando também serão eleitos os presidentes da Câmara e do Senado.

O presidente tem dito que não trabalha por nenhum dos candidatos que disputam os comandos das duas Casas, mas sabe que o início da nova Legislatura é fundamental para o futuro político do governo.

É a partir de fevereiro que ele começará a negociar para valer com os congressistas a reforma da Previdência, considerada crucial para o sucesso de sua gestão.

Bolsonaro já enfrenta, por exemplo, um forte lobby dos militares, que estão em diversos cargos estratégicos de seu governo e no comando de ministérios. Os integrantes das Forças Armadas negociam uma forma de serem incluídos apenas numa segunda etapa das mudanças nas regras da aposentadoria.

Na semana passada, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, deixou a reforma da Previdência de fora de uma lista com 35 medidas que o governo pretende entregar nos primeiros cem dias de gestão.

Ele faz um balanço positivo do começo de governo. "O primeiro mês foi dentro do que estava programado. Ainda lá no mês de dezembro, na transição, nós apresentamos a agenda de governo, dos primeiros cem dias e a de governança", disse o ministro à Folha.

Da lista apresentada na semana passada, apenas duas foram feitas. A assinatura de uma medida provisória que fará um pente-fino no INSS e o decreto assinado por Bolsonaro que flexibiliza a posse de armas no Brasil, uma de suas promessas de campanha.

"Escolhemos 35 metas prioritárias, mas isso não quer dizer que sejam as mais importantes. São as entregas que nós pretendemos fazer até o dia 11 de abril, quando nós fechamos os cem dias de governo", afirmou Onyx.

Uma queda de braço no primeiro mês envolveu o ministro da Casa Civil, Bolsonaro e a equipe econômica do ministro Paulo Guedes em torno de uma discussão, revelada pela Folha, para aumentar a alíquota do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras).

O ministro Carlos Santos Cruz (Secretaria de Governo) minimiza esse e outros episódios. "Um desencontro ou outro não quer dizer que não tem harmonia ou integração", afirmou à Folha.

Para ele, o novo governo tem uma "imensa responsabilidade de não poder errar". "Todo mundo está consciente de que a gente não pode cometer erros e nem tem espaço para erro", disse.

Onyx ainda protagonizou um mal-estar no Planalto ao anunciar como uma de suas primeiras medidas a demissão de 320 servidores comissionados da Casa Civil.

Sob a justificativa de que iria "despetizar" a pasta, o ministro promoveu exonerações em massa, o que provocou paralisia do corpo técnico do governo.

Mas nada acima pressionou mais Bolsonaro neste mês do que as suspeitas envolvendo a vida financeira de seu filho Flávio, mergulhado numa crise após o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) apontar movimentação atípica por Fabrício Queiroz, seu ex-assessor na Assembleia Legislativa do Rio.

O próprio Flávio, ainda deputado estadual, virou alvo do Coaf, que revelou a existência de 48 depósitos de R$ 2.000 cada em 2017 em intervalos pequenos.

O presidente tem dado sinais trocados sobre o caso. Uma hora defende o filho, em outra busca indicar que não o defenderá caso surjam novas suspeitas.

Enquanto isso, nos bastidores do Planalto, sobretudo entre os militares, cresce o desconforto em torno do assunto, sobretudo porque a crise tem ofuscado os primeiros passos de um governo que assumiu cheio de expectativas. 

A nomeação do porta-voz, general Otávio Rêgo Barros, no dia 14 de janeiro, tem sido vista como um movimento que pode diminuir a exposição e o desgaste de Bolsonaro.

Diante da pressão sobre seu filho, ele tem evitado entrevistas coletivas e priorizado algumas emissoras de televisão, como TV Record e SBT.

O presidente se permitiu ser questionado publicamente pela imprensa apenas duas vezes desde que assumiu o cargo. Na primeira, falou em evento da troca de Comando da Aeronáutica e deu uma informação, sobre o aumento do IOF, desmentida horas depois por um subordinado.

Na semana que passou, Bolsonaro cancelou de última hora uma entrevista coletiva, a jornalistas brasileiros e internacionais, convocada em Davos (Suíça), onde participava do Fórum Econômico Mundial.

Três versões foram apresentadas para a desistência: a de que ele estava cansado fisicamente, o comportamento da própria imprensa e uma terceira, dada pelo próprio Bolsonaro à TV Record, de que não tinha novidades para apresentar aos repórteres.

Davos, aliás, marcou a primeira viagem no cargo de presidente. Sua visita ao território suíço frustrou quem esperava um discurso longo e robusto aos presentes no tradicional encontro.

Em seis minutos, Bolsonaro não apresentou uma agenda clara no campo econômico, tampouco tranquilizou os que viam com desconfiança suas declarações durante a campanha relacionadas a direitos humanos, democracia e preservação ambiental.

Isso depois de ele protagonizar, no Brasil, um bate-cabeça no campo internacional ao divulgar a intenção de instalar uma base militar americana no país.

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