Ex-coroinhas acusam de assédio padre afastado no interior de SP

Sacerdote é investigado pelo Ministério Público e também por representante do Vaticano

Anna Virginia Balloussier
São Paulo

Ao menos quatro ex-coroinhas da Igreja Católica denunciaram o reitor da Basílica de Santo Antônio, padre Pedro Leandro Ricardo, 50, por suposto assédio sexual quando eles eram menores de idade e o auxiliavam na missa.

O padre foi afastado da função eclesiástica em janeiro, após reportagem da Folha revelar que ele está sob investigação do Ministério Público por suposto envolvimento com meninos que lhe tinham como guia na basílica de Americana (interior de SP).

O padre Pedro Leandro Ricardo, de Americana (SP), suspenso de suas funções na Diocese de Limeira por tempo indeterminado
O padre Pedro Leandro Ricardo, de Americana (SP), suspenso de suas funções na Diocese de Limeira por tempo indeterminado - Reprodução

Os novos acusadores são de Araras, outra cidade interiorana de São Paulo, onde o clérigo atuou nos anos 2000.

As denúncias contra o padre e também contra dom Vilson Dias de Oliveira, bispo da Diocese de Limeira (que tem a basílica sob sua jurisdição), motivaram a abertura de uma investigação canônica, esta sob crivo da Igreja Católica.

O Vaticano enviou um representante, outro bispo brasileiro, para apurar as acusações que atingem os dois líderes católicos. Dom Vilson é suspeito de tentar extorquir dinheiro de membros do clero sob seu comando e aumentar seu patrimônio com recurso desviado da igreja, além de acobertar ações do padre Leandro.

Coube ao bispo de Lorena (SP), dom João Inácio Muller, ir até Limeira checar in loco as suspeitas sobre a dupla. A assessoria de imprensa da diocese limeirense confirmou que dom João está na cidade até esta quarta (20), a pedido do núncio apostólico do Brasil (uma espécie de diplomata do Vaticano), o arcebispo dom Giovanni d'Aniello.

A Justiça secular está na fase de colher depoimentos com potencial de incriminar o padre e o bispo, que negam qualquer malfeito. A advogada Talitha Camargo da Fonseca representa os quatro homens que disseram ter sido assediados por padre Leandro na adolescência. As vítimas, segundo ela, já foram ouvidas numa delegacia de Araras.

"Elas foram corrompidas na dignidade sexual e na fé delas. Muitas se afastaram da Igreja", Fonseca afirma à Folha. As vítimas teriam "tomado coragem de ir até delegacia após a denúncia vir à tona", diz.

O caso corre sob sigilo judicial. O que a Folha descobriu: os ex-coroinhas contaram que tinham entre 11 e 17 anos quando o suposto assédio aconteceu. Narram que o contato sexual com o padre foi o primeiro de suas vidas —os relatos variam de "escorregadas de mão" a "felação".

O advogado do padre, Paulo Henrique de Moraes Sarmento, diz que ele e o cliente não tiveram acesso aos depoimentos e apenas se pronunciaram "sobre tais fatos após o conhecimento dos mesmos".

Sarmento já havia dito, em janeiro, que o clérigo repudia veementemente" acusações de ser assediador, "posto que são falsas e têm o único intuito de denegrir sua honra".

Já dom Vilson está agora sob os holofotes após outro padre, Ângelo Francisco Rossi, 67, dizer que o bispo lhe pediu R$ 50 mil para colocar armários numa das casas em seu nome que possui, em Guaíra (SP). Seria um dos dez imóveis registrados em seu nome até pelo menos meados de 2018.

Ângelo era o clérigo responsável pela paróquia de Santo Antonio entre 2009 e 2013, posto que cederia a Leandro.

Em depoimento na Delegacia Seccional de Americana no dia 14 de fevereiro, o padre —aposentado por motivos de saúde— afirmou ter negado a solicitação de seu superior.

Inconformado, dom Vilson teria, segundo Ângelo, pedido então R$ 150 mil —dessa vez, alegando que usaria o dinheiro para uma obra na diocese. De novo ouviu "não", disse o clérigo. A contrariedade do bispo, de acordo com o depoente, foi registrada em ata datada de 21 de agosto. Uma cópia foi entregue na delegacia.

Padre Ângelo disse que, ao transferir a administração da paróquia (que só viraria basílica em 2014), havia mais de R$ 1 milhão (investimentos inclusos) na conta da instituição. Ele disse que desconhece algo que "desabone" seu sucessor na igreja de Americana.

Dossiê ao qual a Folha teve acesso e que mobilizou promotores de Limeira, Araras e Americana a investigarem o caso sugere desvio de verbas.

A Diocese de Limeira diz que, por ora, não se manifestará sobre as denúncias.

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