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Governo Bolsonaro

Governo Bolsonaro instala guichê no Congresso, mas precisa construir maioria

Vitória de Davi Alcolumbre no Senado desobstrui canal para avanço da pauta do Planalto

Bruno Boghossian
Brasília

​​A vitória de um aliado de Jair Bolsonaro na disputa pelo comando do Senado instala um guichê preferencial para o governo no Congresso. O Planalto conseguiu desobstruir um canal importante no Legislativo. Agora, precisará aplacar incertezas sobre o avanço de sua agenda.

Davi Alcolumbre (DEM-AP) foi uma invenção dos ministros de Bolsonaro. Auxiliares do presidente atuaram em peso a favor de sua candidatura para desbancar Renan Calheiros (MDB-AL) e evitar que o governo se tornasse refém de um senador habilidoso em emparedar presidentes.

Em protesto contra voto secreto, Davi Alcolumbre (DEM-AP) mostra a cédula com voto na eleição para presidente do Senado
Em protesto contra voto secreto, Davi Alcolumbre (DEM-AP) mostra a cédula com voto na eleição para presidente do Senado - Pedro Ladeira/Folhapress

Alcolumbre se escorou no sentimento anti-Renan e venceu no primeiro turno, com os votos de 42 dos 81 senadores. Apesar de seu DNA governista, aliados de Bolsonaro admitem que o placar ainda não reflete uma maioria consolidada a favor do Planalto.

O ano legislativo será aberto com o governo em estágio probatório. Como Bolsonaro se recusou a ceder cargos aos partidos no primeiro escalão, auxiliares do presidente preveem que as votações no Congresso serão instrumentos de pressão nos próximos meses.

Embora a eleição de Davi seja encarada como uma vitória pessoal de Onyx Lorenzoni (Casa Civil), responsável pela articulação política, sua relação com o Congresso ainda é vista com desconfiança.

O ministro tem uma relação notoriamente desgastada com Rodrigo Maia (DEM-RJ), que se elegeu presidente da Câmara com 334 votos —quase dois terços do plenário.

Depois de vencer a disputa, Maia indicou que haverá turbulências. Confrontado com indícios de que Onyx trabalhou contra sua candidatura, o deputado fluminense reagiu com ironia: “Se atuou, atuou mal, porque não me derrotou”.

Maia fez declarações de apoio à agenda econômica do governo e recebeu votos até do PSL, mas indicou que não facilitará sempre a vida de Bolsonaro e sua equipe.

Assim como fez com Michel Temer nos últimos dois anos, o deputado do DEM demonstra estar em busca de protagonismo. Embora reconheça a importância da reforma da Previdência, ele indicou que não acatará o desejo do governo de adotar um rito acelerado para aprovar o projeto.

As pontes deverão ser mais diretas com o Senado, embora os votos depositados para o candidato governista não se traduzam necessariamente em adesão à pauta oficial.

A onda de rejeição a Renan pode não estar presente em todas as votações de interesse do Planalto. Caberá ao governo tirar proveito desse sentimento na hora do voto.

O protagonismo dos senadores novatos e do discurso afinado com o eleitorado sugere que o plenário do Senado deve atuar, ao menos, em consonância com a pauta de combate à corrupção. A resistência que Renan e seus aliados ameaçavam impor aos projetos de Sergio Moro (Justiça) deve ser derrubada.

Na economia, no entanto, talvez o governo não consiga surfar essa onda. O caráter demagógico que tomou conta do plenário da Casa pode fazer com que pautas amargas de ajuste fiscal sejam travadas pelas pressões das ruas.

As próximas semanas mostrarão ainda se os conturbados dias de votação no Senado produziram sequelas que dificultarão a vida do Planalto.

Aliados de Bolsonaro reconhecem que o embate duro com o grupo de Renan acirrou os ânimos de senadores experientes, que trabalharão a partir de agora para frustrar os planos do governo.

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