Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

'Não é o mercado que vai resolver a desigualdade social', diz governador do ES

Renato Casagrande ocupa o cargo pela segunda vez e diz ter boa relação com o presidente Bolsonaro

Lucas Vettorazzo
Rio de Janeiro

Apesar de integrar partido que faz parte do bloco de oposição ao presidente Jair Bolsonaro (PSL), o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB), enxerga virtudes nesse início de governo federal.

Ele, que ocupa pela segunda vez o governo capixaba, disse ter uma “relação extraordinária” do ponto de vista institucional com o governo do capitão da reserva.

Renato Casagrande (PSB), governador do Espírito Santo, durante solenidade de posse na Assembleia Legislativa
Renato Casagrande (PSB), governador do Espírito Santo, durante solenidade de posse na Assembleia Legislativa - Hélio Filho - 1.jan.2019/Secom

Casagrande, contudo, defende atuação firme da oposição, que, em sua visão, poderá levar equilíbrio ao governo, garantindo distribuição de renda e direitos sociais em ambiente de economia com inclinação liberal.

“Temos que compreender que não é o mercado que vai resolver a desigualdade social brasileira”, disse.

Passadas as eleições, a população está menos interessada em ideologias e mais em resultados e políticas públicas, afirma. Sobre as primeiros atos do governo, como a flexibilização da posse de arma de fogo para o cidadão comum, Casagrande disse discordar da medida, mas afirmou que Bolsonaro tem cumprido promessas de campanha, algo que ele elogiou, afirmando que “não tem frustração com o eleitor”.

Um ponto de convergência de pensamento por enquanto é a proposta de reforma da Previdência sugerida pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, que prevê adoção do regime de capitalização, apesar de Casagrande reconhecer a dificuldade de “trocar o pneu do carro em movimento”.

Outra semelhança com Bolsonaro é o aceno às tropas das forças de segurança. Casagrande concedeu anistia aos policiais militares punidos por causa da greve no Espírito Santo em 2017.

Leia os principais trechos da entrevista de Casagrande à Folha.

 

O senhor concedeu anistia aos policiais envolvidos na paralisação da categoria no Espírito Santo em 2017. Seu antecessor, Paulo Hartung, criticou a medida, assim como a OAB local. Por que o senhor tomou essa atitude? Nós agimos por causa da incapacidade do governo passado em lidar com a crise, sem dialogar com o servidor, com comportamento arrogante. A polícia estava totalmente desmotivada. Nós temos cerca de 8 mil policiais no estado. Desse total, 2.522 estavam com algum problema de saúde e pelo 500 estavam afastados. Desde 2017, por causa dos expurgos depois da greve, oito policiais se mataram e outros 40 atentaram contra a própria vida. O governo anterior foi vingativo com a polícia. Isso me obrigou a tomar essa decisão para fechar uma ferida. Agora a polícia está mais motivada para lidar com a criminalidade.

Em 2017 o STF (Supremo Tribunal Federal) considerou inconstitucionais greves de policiais e bombeiros. Sim, o movimento é inconstitucional, disso não temos dúvida, mas a concessão de anistia está prevista na Constituição. 

Críticos disseram que a anistia poderia ser um incentivo à impunidade. Houve erro dos manifestantes e do governo, que não soube dialogar com os insatisfeitos. Não seremos complacentes com erros, mas entendemos que seria importante a anistia para fechar essa ferida e começarmos algo novo com a corporação motivada.

O déficit da previdência do ES foi de R$ 1,96 bilhão no ano passado e a previsão é de R$ 2 bilhões neste ano. Como sanar esse déficit? Em 2004, o estado criou um regime de previdência complementar para os novos servidores, com benefícios limitados ao teto do INSS. Quem quisesse se aposentar com salário acima do teto teria que contribuir mais também. Nós temos, portanto, dois regimes no Espírito Santo, o clássico e o complementar. 

Este ano teremos que aportar R$ 2,2 bilhões na previdência para pagar aposentados. Esse valor, que é crescente nos próximos anos, está dentro do nosso orçamento. Precisamos desses pagamentos para manter o equilíbrio fiscal.

O que o senhor acha do modelo da reforma da previdência sugerida pelo Paulo Guedes? Não acho ruim, não. O único problema da capitalização é o que fazer com o regime atual. Ainda não apresentaram uma solução. Se fosse para começar do zero, a capitalização seria o melhor regime.

O que o senhor acha do regime de repartição? É o regime que funciona hoje, mas tem que mudar, tem que mudar idade mínima, mexer em privilégios do funcionalismo, enfim, precisa mudar muita coisa. A ideia de ter os dois modelos é boa, mas para colocar em prática não é fácil. É como trocar o pneu com o carro andando. Tem que haver um equilíbrio para as duas propostas caminharem paralelamente. O desafio é fazer o regime de capitalização e manter o regime geral, que é deficitário.

O senhor é de um partido que integra bloco de oposição ao Bolsonaro. Como vai ser a sua relação com o governo federal? A relação institucionalmente falando é extraordinária. Já estive em Brasília e me reuni com cinco ministros do governo. Eu não posso impedir que o partido continue com sua coerência histórica, de defesa de valores progressistas, direitos humanos, direitos das minorias, meio ambiente. A oposição pode impedir erros e é preciso diferenciar a atuação do governo estadual com a da bancada parlamentar.

O senhor pretende, então, atuar em parceria com o governo federal? Da minha parte não negarei parceria com o governo, mas daquilo que eu concordar, naturalmente.

O senhor venceu no primeiro turno, mas Bolsonaro foi o candidato a presidente com mais votos no ES. Como tocar pautas do seu governo sem desagradar o eleitor do Bolsonaro? Eu tenho certeza que o resultado, a eficiência e a responsabilidade são as coisas que a população deseja, independente da questão ideológica. Se o cidadão é mais conservador ou progressista, isso não importa. Os dois querem resultados concretos, políticas públicas. E isso é o que estamos dispostos a fazer pelo Espírito Santo.

O que o senhor tem achado dos primeiros atos da administração do Bolsonaro? Tenho achado bons, com coerência com o que se propôs na campanha. Eu, particularmente, não concordo com porte ou posse de arma de fogo para o cidadão comum. Mas ele está fazendo do mesmo jeito que eu fiz aqui com a anistia aos PMs, que eu tenho convicção da medida e que debati na campanha. Não tem, portanto, nenhuma frustração com o eleitor.

Qual o impacto no ES do decreto que flexibiliza o acesso a arma de fogo? Eu não concordo em facilitar a posse nem o porte. Quanto mais armas em circulação, mas facilmente os bandidos vão alcançar essas armas. Acho até que as mudanças que o Bolsonaro implementou com o decreto não são tão radicais. Não mudou tanto quanto eu imaginaria. Como conceito eu sou contra, mas tenho que reconhecer que ele foi cuidadoso no que se propôs a fazer.

O que o senhor achou da equipe de ministros? Achei boa. Os ministros militares são equilibrados e têm visão muito técnica de suas áreas. Uma visão extremamente liberal, é verdade, mas com capacidade técnica para tocar os projetos. É preciso ver se o governo tem capacidade política para dialogar com a oposição e os diversos setores da sociedade.

O senhor acha que o governo irá conseguir manter esse diálogo? Um governo precisa ter qualidades administrativas e políticas. Se uma falhar, não adianta que a outra tenha êxito. Essa é ainda uma incógnita: como o governo irá lidar com o debate político. Não precisamos fazer esse confronto de ideias permanente para reconhecer a qualidade do outro lado. Sou de um partido progressista. Vamos promover uma luta permanente pelos direitos humanos, o meio ambiente, os direitos sociais para, entre outros objetivos, buscar um equilíbrio para o governo Bolsonaro. Se ele conseguir um bom desempenho político junto ao Congresso Nacional, por exemplo, poderá ser responsável por crescer a economia. Estaremos lá para lembrar que é preciso distribuir a riqueza do Brasil e preservar os direitos conquistados na área social. Quero que meu partido defenda também a reforma da previdência com vistas a colocar as contas públicas em dia.

O senhor é favorável à inclinação liberal na economia? Eu acho que tem algumas atividades que o governo tem que estar sozinho controlando, enquanto outras pode conceder à iniciativa privada sem prejuízos, como ferrovias, aeroportos e portos. O que temos que compreender, contudo, que não é o mercado que vai resolver a desigualdade social brasileira. Tem que ter governo que possa intervir na economia para que a gente transfira recursos aos mais pobres. Eu não tenho problema nenhum com as privatizações de alguns setores, mas sou contra privatizar a Eletrobras, os bancos públicos e a Petrobras. O Brasil pode preservar empresas públicas desde que sejam eficientes. Se os setores elétrico, de petróleo e bancário derem resultado positivo, são ativos importantes para a administração pública. Eu defendo empresas públicas saudáveis, não monopólios.

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