Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

'O que pode colocar o governo federal em risco é ele mesmo', diz socióloga

Angela Alonso esteve em evento da Folha nesta quinta (14) sobre o livro 'Democracia em Risco?'

Camila Gambirasio
São Paulo

Atritos entre grupos ligados ao presidente Jair Bolsonaro (PSL), principalmente seu núcleo familiar, a ala militar e a equipe econômica, já se apresentam como pontos de disputa e desgaste do novo governo, avaliam intelectuais autores de ensaios que integram a recém-lançada coletânea “Democracia em Risco?” (Ed. Companhia das Letras; R$ 55; 328 págs.).

“O que pode colocar esse governo em risco, seu principal inimigo, é ele mesmo”, disse Angela Alonso, professora de sociologia da USP e autora de um dos ensaios, durante debate organizado pela Folha e pela Cia das Letras na última quinta-feira (14). O evento, mediado pelo jornalista Naief Haddad, da Folha, lotou o auditório da livraria Martins Fontes da avenida Paulista, em São Paulo.

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) no Palácio do Planalto - Pedro Ladeira/Folhapress

Para Alonso, o governo, internamente trincado e carente de um partido robusto, é resultado de uma ideia vendida por Bolsonaro a seus eleitores de que seria possível governar um país grande e complexo sem instituições políticas e sem partidos. “Governar no estilo democracia direta, por meio do Twitter, não é possível. Em algum momento, algum adulto vai entrar na sala ou teremos uma crise séria.”

 
Muitos pontos de tensão aparecerão, de forma tópica, entre os integrantes do governo, previu a socióloga, que é colunista do jornal e presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). Ela prevê atritos entre o grupo dos militares, de tradição intervencionista e de Estado grande, e a equipe do ministro Paulo Guedes (Economia), que traz ideias do mercado financeiro para o Estado, como se eles operassem da mesma forma.
 
A esses pontos de conflito, acrescentou Alonso, soma-se o fator familiar dessa administração. “O clã  Bolsonaro é talvez o principal problema do governo, porque interrompe a fronteira entre público e privado. No episódio do Gustavo Bebianno, por exemplo, a gente não sabe quem tem autoridade, se é um ministro de Estado ou o filho do presidente.”

“Há muitas zonas de conflito em potencial, e todas elas põem em risco o governo, mas espero que não a democracia”, completou.

O núcleo ideológico do governo, apesar de ser uma fonte de confusão e desgaste, foi fundamental para que Bolsonaro vencesse a eleição, apontou Ronaldo de Almeida, professor de antropologia da Unicamp, que também participou do debate. “Foi uma maneira de polarizar, de atrair o antipetismo.

Parece que há algo de estratégico no jeito como esse grupo age agora, prolongando esse espírito de eleição.”A dinâmica desses grupos também aparece no ensaio de Matias Spektor, professor de relações internacionais da FGV e colunista da Folha, que discute a disputa entre o círculo íntimo do presidente, os militares e a equipe do ministério da Economia pelo protagonismo nas relações externas brasileiras. 

“Meu palpite é que a resultante dessas forças estará longe de ser perfeita. Vai de quem conseguir entregar mais benefícios ao presidente”, afirmou no evento.

Apesar de possuírem interesses distintos e de certa forma conflitantes, o que os une é a defesa da ruptura com a forma como as relações internacionais foram conduzidas nos últimos anos -ou seja, a oposição à tese implementada durante os governos FHC e Lula de que o Brasil seria beneficiado por um sistema internacional multipolar. “Bolsonaro desenvolve a tese de que isso não é verdadeiro. Para ele, a melhor aposta é na unipolaridade, em reforçar o papel dos Estados Unidos.”

Spektor destacou também o fato de o presidente ter colocado na mesa a discussão sobre o crime transnacional do narcotráfico, questão crucial para o Brasil no quesito política externa e que pode ter consequências profundas para a viabilidade futura da democracia do país, segundo ele. 

O tema, evitado tanto por governos do PT quanto do PSDB, trará desafios novos para o país e abrirá espaço para grandes licitações para contratação de serviços de controle de fronteiras, treinamentos e cooperações com os Estados Unidos, de acordo com Spektor. 

MORALISMO

Para Angela Alonso, parte do êxito de Bolsonaro nas eleições está ligado ao seu discurso moralista, que transita entre as searas pública e privada. No âmbito público, o discurso se relaciona a valores que vêm desde as manifestações de 2011, na defesa de uma ideia de nação que se sobrepõe a partido, classe ou gênero. Já no âmbito, esse discurso se liga à noção de "família heterossexual, hierarquizada, em que há uma subordinação clara das mulheres”.

Esse conservadorismo conversou com o eleitorado evangélico, para quem o presidente fez acenos claros durante a campanha, ressaltou Ronaldo de Almeida. “Entre os evangélicos há um movimento de disputa pela moralidade pública, tanto de quem é dessa religião e de quem não é.”

Outro elemento estratégico é a apresentação de Bolsonaro como um homem simples, com os quais as pessoas se identificam, complementou Alonso. “Há um antielitismo, um anti-intelectualismo. Ele se mostra como um homem igual aos outros e, portanto, diferente da elite política. Alguém que consegue chegar ao poder sem fazer os acordos que a política representa.”

Um segundo debate com outros autores do livro será promovido pela Folha e pela Cia das Letras no dia 21 de fevereiro (quinta-feira), às 19h, também na livraria Martins Fontes (avenida Paulista, 509). Na ocasião, estarão presentes André Singer, professor de ciência política da USP e colunista do jornal, Esther Solano, professora de relações internacionais da Unifesp, Gustavo Venturi, professor de sociologia da USP, e Carlos Melo, professor de ciência política do Insper, com mediação de Úrsula Passos, jornalista da Folha.

Para participar, é preciso retirar uma senha gratuitamente no local meia hora antes do início do evento.

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