Descrição de chapéu Lava Jato Rio de Janeiro

Para Lava Jato, Cabral ainda tenta proteger mulher e esconder bens

Procuradores avaliam que ex-governador do RJ ainda omite fatos mesmo ao admitir propina

Italo Nogueira
Rio de Janeiro

O depoimento de duas horas e meia ao Ministério Público Federal na quinta-feira (21) já chegava à metade quando o ex-governador Sérgio Cabral (MDB), preso há mais de dois anos, quis deixar claro o seu novo espírito ao procurador Sérgio Pinel, membro da força-tarefa da Lava Jato.

“Dr. Sérgio, eu quero colaborar com vocês. Quero ser parceiro do Ministério Público”, disse.

Pinel achou por bem expor a visão da Procuradoria sobre o novo comportamento do réu de 29 ações penais e condenado a quase 200 anos de prisão por corrupção no governo do Rio de Janeiro.

Sérgio Cabral admite ao MPF que recebeu propina durante seu governo no RJ
Sérgio Cabral admite ao MPF que recebeu propina durante seu governo no RJ - Reprodução TV Globo - 25.fev.2019.

“Nem por hipótese esse depoimento significa qualquer tipo de tratativa [para delação premiada]. A lei já tem previsão para quem confessa. A confissão tem que ser irrestrita do objeto da investigação. É diferente da colaboração, em que ele deve colaborar não só sobre aquele fato investigado, mas mesmo sobre aqueles que o órgão investigador sequer tem conhecimento”, afirmou o procurador.

A fala reflete a desconfiança com que a força-tarefa da Lava Jato fluminense vê a decisão de Cabral em confessar seus crimes. Procuradores suspeitam que o ex-governador assume fatos que já lhe são imputados, adicionando alguns detalhes, para proteger a ex-primeira-dama Adriana Ancelmo e ocultar bens acumulados e ainda não localizados pelos investigadores.

Desde que foi preso sob acusação de cobrar 5% de propina nos grandes contratos do estado, há dois anos e três meses, o ex-governador vinha negando ter cobrado suborno a empresários. Reconhecia, contudo, ter se apropriado de sobras de caixas dois de campanha eleitoral.

A confissão faz parte da nova estratégia de defesa após a entrada do advogado Márcio Delambert no caso, o quinto desde novembro de 2016. A intenção é que Cabral assuma crimes, detalhe seus participantes e contribua com novas informações a fim de reduzir futuras penas. A possibilidade de se fechar um acordo de delação no curto prazo é vista como remota.

O primeiro depoimento dado ao Ministério Público Federal foi na investigação sobre o envolvimento do ex-secretário Régis Fichtner. O objetivo foi colaborar com a apuração antes da denúncia, a fim de demonstrar sua disposição em esclarecer os fatos.

Cabral já havia feito um movimento para reduzir sua pena há sete meses, quando, junto com Adriana Ancelmo, abriu mão de seus bens para leilão —os recursos, dessa forma, poderiam ser transferidos de imediato ao estado. A medida, contudo, foi feita sem confissão até aquele momento.

Adriana já foi condenada em quatro ações penais e já soma 36 anos e 1 mês de pena. Ela é acusada de auxiliar o marido na lavagem de dinheiro por meio de seu escritório de advocacia e com a compra de joias.

Em depoimento ao juiz Marcelo Bretas nesta terça-feira (26), ele afirmou que enganou a mulher ao pedir que dinheiro de propina fosse repassado ao seu escritório.

“A Adriana tinha o escritório dela e eu contaminei esse escritório quando eu pedi o repasse de caixa dois, que ela não sabia, para o dono da Rica [empresário Alexandre Igayara]. Eu contaminei. Ela insistiu comigo e questionou para saber por que estava sendo utilizado. Eu enganei e a prejudiquei. E ela entrou como orcrim [organização criminosa] de uma maneira que me dói o coração”, afirmou o emedebista.

A versão parece inverossímil para os investigadores. Cabral ainda não explicou como ela permitiu a entrada de recursos sem a prestação de serviço correspondente. O escritório de Adriana segue sob investigação por ter recebido dinheiro de outras empresas vinculadas ao estado, como a Fecomércio.

A ex-primeira-dama está em liberdade, usando tornozeleira eletrônica. Ela já foi condenada em segunda instância no TRF-2 (Tribunal Regional Federal da 2ª Região) e aguarda a análise de recursos para eventual início de cumprimento antecipado da pena.

Procuradores também desconfiam do esgotamento dos recursos acumulados por Cabral. Além de suspeitar do ocultamento de valores, investigadores insistem que as joias mais valiosas adquiridas pelo casal ainda não foram encontradas. O tema foi abordado por Pinel no depoimento na Procuradoria.

“O MPF já ofereceu algumas denúncias em relação ao sr. Para que a gente tivesse uma confissão eficaz, teríamos que recuperar esse dinheiro todo, essas joias todas. São bens que ainda estão sumidos”, disse o procurador, sem ter recebido resposta.

O ex-governador reconheceu que os cerca de R$ 300 milhões guardados em contas no exterior dos doleiros Renato e Marcelo Chebar eram seus. Ele negou por dois anos a propriedade desses valores.

No depoimento de terça, Bretas chegou a perguntar ao ex-governador se ele ainda mantinha bens em nome de algum outro laranja. Citou especificamente o empresário Arthur Soares, dono de empresa de terceirização de mão de obra também acusado de pagar propina.

“Não, em nenhum lugar”, respondeu Cabral.

A defesa de Cabral afirmou que não iria se pronunciar sobre o caso.


O que Cabral disse sobre...

1) Caixa dois e propina
Sérgio Cabral (MDB) é acusado de ter cobrado 5% de propina nos principais contratos durante seu mandato (2007-2014) no governo do Rio de Janeiro
Antes: Negava haver propina. "Nunca houve propina e reconhecia apenas caixa dois. Houve apoios. Vejo que o Ministério Público sempre fala de delatores que se referem a 5%. Nunca houve 5%. Que 5% é esse? Que maluquice é essa?", disse em jul.17
Agora: Admite ter recebido propina. “Fiz questão de dizer 3% para mim e 2% para você em relação aos serviços da área de saúde. Esse meu erro de postura, de apego a poder, dinheiro, a tudo isso... É um vício”, disse em fev.19

2)  Uso de doleiros
Renato e Marcelo Chebar se tornaram delatores e entregaram cerca de R$ 300 milhões depositados em contas no exterior em seus nomes, mas que pertenciam de fato a Cabral
Antes: Negava ter deixado seu dinheiro com os doleiros. "Imagine se eu vou deixar US$ 120 milhões com dois irmãos sem um documento. Morreram o srs. Renato e Marcelo Chebar, passam a ser titulares seus filhos e netas", disse em jul.17
Agora: Reconhece a versão dos doleiros.  “Quero dizer que é verdade o fato de que o dinheiro dos irmãos Chebar era meu dinheiro, sim", disse em fev.19

3) Aliados e cúmplices
Cabral é acusado de ter pago mesadas a membros da quadrilha, além de ter ajudado a financiar campanhas de aliados por caixa dois
Antes: Recusava-se a citar aliados para quem arrecadou caixa dois. "Isso implicaria citar companheiros meus, de lutas políticas", disse em dez.2017
Cita caixa dois para Paes e propina para Pezão. "Eduardo Paes jamais recebeu algum tipo de benefício.
​Agora: Entretanto, em 2008, o sr. Miguel Iskin deu R$ 1 milhão para a campanha dele. Arthur Soares deu cerca de R$ 3 milhões. O do Pezão mandava entregar para ele. Eram R$ 150 mil por mês", disse em fev.19
 

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