Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Relação de Bebianno com Carlos Bolsonaro azedou ainda durante a campanha

Após ser chamado de mentiroso, ex-ministro ficou a maior parte do tempo recluso no hotel

Talita Fernandes
Brasília

Desde que foi chamado de mentiroso pelo presidente Jair Bolsonaro até sua demissão, confirmada na noite de segunda-feira (18), o ex-ministro da Secretaria-Geral da Presidência Gustavo Bebianno ficou a maior parte do tempo recluso no quarto de hotel em que vive em Brasília, de onde disparou ligações na tentativa de traçar uma estratégia para sua permanência no governo.

Passaram-se quase 120 horas entre a veiculação de uma entrevista em que Bolsonaro afirmou que Bebianno poderia "voltar às origens", na noite de quarta-feira (13), e sua exoneração ter sido confirmada.

Nesse intervalo, Bebianno viveu uma fritura pública, com direito a áudio de suas conversas com o presidente exposto nas redes sociais, seguido do silêncio do governo a respeito.

Ele passou o fim de semana quase todo no quarto do hotel com a mulher e o filho, deixou poucas vezes o local para fazer refeições e, em alguns momentos, pediu comida no quarto.

O processo foi marcado por uma série de idas e vindas sobre o futuro de Bebianno. Nesse intervalo, seu temperamento oscilou. Em alguns momentos, ele dava mostras de que atacaria o presidente; em outros, baixava o tom.

Pessoas próximas recorrem à analogia de um "relacionamento quase que conjugal", tamanha a proximidade que tiveram durante a campanha. 

Mesmo tendo se tornado ministro palaciano, Bebianno já havia se distanciado do clã Bolsonaro entre o primeiro e segundo turno das eleições.

Ele seguia na presidência nacional do PSL, mas passou a evitar frequentar muito a casa do então candidato quando as divergências aumentaram com o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ). 

Filho mais próximo do pai entre os cinco irmãos, Carlos se licenciou do mandato e passou a acompanhar a campanha. Ele é vizinho do presidente em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, no Rio.

A piora na relação teve como pivô a comunicação de Bolsonaro. Carlos foi quem criou a estratégia de uso intensivo das redes sociais. Ele ficou incomodado com o fato de não participar das gravações do programa eleitoral e da adoção de estratégias, o que ficou a cargo de um núcleo em torno de Bebianno.

Os programas de TV foram gravados em um estúdio improvisado na casa de Paulo Marinho, empresário e suplente do senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ). Ao longo do mês de outubro, Carlos nunca foi ao local com o pai.

Ao fim do período de campanha, dois QGs foram montados: na casa de Marinho ficavam Bebianno, o hoje ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e Marinho. Frequentemente o chefe da equipe econômica, Paulo Guedes, ia ao local para reuniões e gravações. 

Na casa de Bolsonaro, na Barra, Carlos era figura onipresente. Um de seus ex-assessores, Tércio Arnaud, foi quem controlou o acesso de jornalistas a uma entrevista coletiva que Bolsonaro concedeu em casa e que se tornou conhecida na internet como "o dia da prancha de surf".  O filho improvisou um púlpito para os microfones em uma prancha de body board.

Um dia depois da vitória de Bolsonaro, o vereador usou as redes sociais para desmentir uma fala de Bebianno na véspera, sobre a tradução da conversa do presidente com o americano Donald Trump.

O então presidente do PSL disse à imprensa que André Marinho, filho de Paulo Marinho, teria sido o responsável por intermediar a conversa.

Carlos afirmou no Twitter que era mentira, afirmando que uma voluntária havia traduzido o diálogo.

O distanciamento se aprofundou durante o governo de transição - entre novembro e dezembro do ano passado. 

Apesar de ter sido homem forte da campanha de Bolsonaro, Bebianno demorou a ser oficializado ministro.

A escolha dele foi uma das únicas que não foram publicadas no Twitter de Bolsonaro, como ele fez com quase todos os ministros. 

Carlos também operou para esvaziar a Secretaria-Geral quando o pai decidiu que seu desafeto seria o titular da pasta.

Ele costurou para que saíssem do guarda-chuva da secretaria a Secom (Secretaria de Comunicação Social) e o PPI (Programa de Parcerias de Investimentos). Com isso, a pasta assumida por Bebianno ficou com uma atividade mais administrativa.

Carlos ambicionava assumir a Secom, mas teve seus planos frustrados depois que o pai disse que isso configuraria nepotismo. Ele atribui a Bebianno a desistência de Jair de nomeá-lo. 

A divulgação pela Folha do caso das candidaturas de laranjas no PSL azedou a relação, que já não vivia seus melhores dias. 

A gota d'água foi Bebianno ter colocado na agenda de quarta-feira (13) um encontro com o vice-presidente de Relações Institucionais da Rede Globo, emissora que é vista pelo núcleo familiar do mandatário como hostil ao governo. 

A reunião foi informada ao pai por Carlos, que passou 24 horas ao lado dele nos 17 dias em que permaneceu internado no hospital Albert Einstein, devido a uma cirurgia de reconstrução de trânsito intestinal. 

O compromisso foi tema de bate-boca entre os dois por meio de áudios de WhatsApp e resultou no cancelamento da agenda pública de Bebianno, que desde então não teve mais compromissos oficiais. 

O ex-ministro passa os próximos dias em Brasília, onde ainda avalia qual será seu futuro. 

Ele se aproximou de Bolsonaro em 2017, após série de tentativas frustradas de conhecer "o capitão" desde 2014. Na ocasião, fazia um trabalho de levantamento de bens para a Arquidiocese do Rio de Janeiro, quando, por meio de um amigo, pediu para ser apresentado ao então presidenciável. Apresentou-se como fã e sempre se disse admirador do capitão, a quem sempre se referia com ares de devoção.

Durante a campanha, Bebianno presidiu o PSL e se apresentava como faz-tudo. Costumava dizer que era ele o tesoureiro, o advogado e o assessor de imprensa do então candidato.

Ele deixa o governo depois de ter admitido que tomou gosto pela política e ainda sem saber o que vai revelar sobre o episódio que o levou a ser chamado publicamente de "mentiroso" pelo presidente.

Bebianno queria se firmar como um gestor ao assumir a chefia da Secretaria-Geral em 2 de janeiro.

Formado em direito pela PUC-Rio, teve duas passagens por um dos maiores escritórios de advocacia do país, de Sergio Bermudes, de quem é amigo, mas não foi na advocacia que ganhou fama e destaque profissional.

Ele se queixa, por exemplo, do fato de nunca ter sido lembrado em reportagens por sua formação acadêmica. Conta ter três MBAs e um mestrado em finanças pela Universidade de Illinois, nos EUA.

Como exemplo da carreira de gestor, cita a experiência que teve no Jornal do Brasil de 1995 a 2001. Lá, atuou como diretor administrativo, jurídico e comandou o setor de recursos humanos. Em sua segunda passagem pelo escritório de Bermudes, de quem é amigo, também atuou como administrador.

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