Reportagem revelou conexão entre Odebrecht e sítio usado por Lula; veja como foi feita

Repórter da Folha descreve cinco meses de viagens a Atibaia para conversas com moradores e comerciantes

Flávio Ferreira

A reportagem de 2016 que revelou a reforma financiada pela empreiteira Odebrecht no sítio frequentado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve muitos percalços e horas perdidas em busca de documentos ou manuscritos que pudessem comprovar a ligação da empresa com a obra.

Ante a falta desses papéis, tive um grande aprendizado sobre como fazer uma apuração a partir de um exaustivo trabalho de campo e de escuta das pessoas que vivenciaram os fatos.

Na última quarta-feira (6), Lula foi condenado a 12 anos e 11 meses de reclusão pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro no caso do sítio.

A apuraçāo começou em setembro de 2015, quando editores da Folha fizeram uma avaliação de que a cobertura do jornal sobre a Operação Lava Jato ainda não contava com uma reportagem investigativa de fôlego que fosse autônoma em relação a delações ou vazamentos provenientes de Polícia Federal, Ministério Público e Poder Judiciário ou advogados.
 
Fui convocado para uma reunião sobre esse assunto e incentivado a investir em investigações mais aprofundadas, mesmo que isso pudesse sacrificar a cobertura do dia a dia da Lava Jato.

“Não importa se levarmos alguns furos, vamos investir em pautas independentes. Vamos correr riscos”, disse um dos secretários de Redação à época, Rogério Gentile.

Na ocasião, um dos assuntos sem esclarecimento era a eventual concessão de vantagens indevidas ao ex-presidente Lula por empreiteiras investigadas na Lava Jato. A revista Veja havia publicado que o ex-presidente da empreiteira OAS, Léo Pinheiro, estudava fazer uma delação premiada e poderia apontar a realização de uma reforma no sítio usado por Lula na cidade de Atibaia.

Entendi que poderia realizar uma investigação sobre o tema sem depender da eventual delação premiada do ex-chefe da empreiteira com um trabalho de campo na região do sítio, no interior de São Paulo.

Viagens

A partir daí, foram cinco meses de viagens para Atibaia, que fica a 60 km da capital. Nesse período, a rodovia Fernão Dias e as estradinhas da zona rural do município viraram a minha redação.

Passei a buscar trabalhadores autônomos, comerciantes e moradores da região. Visitei dezenas de estabelecimentos comerciais, parava para conversar com qualquer prestador de serviço que estivesse instalando uma antena ou consertando uma cerca.

Os primeiros contatos com a comunidade local não renderam muitas informações, uma vez que as pessoas tinham receio de falar com um estranho a respeito de um tema que envolvia gente importante.

Mas, à medida que eu respeitosamente voltava a buscar um novo contato com essas pessoas, os primeiros relatos foram surgindo. Creio que meu sotaque do interior de São Paulo também tenha ajudado a diminuir resistências.

O primeiro fato que me chamou a atenção foi o de que muitas pessoas na região apontaram indícios da presença da empreiteira Odebrecht no local, e não da construtora OAS.

Começaram a surgir as primeiras dicas: “Converse com tal pessoa, vá a tal lugar”. Um dono de loja ficou quase duas horas de papo furado comigo e, só ao se despedir, longe dos clientes, me deu um nome importante para correr atrás.

Metas

Uma das minhas metas era descobrir possíveis fornecedores de materiais de construção e serviços para a reforma do sítio. A partir das primeiras dicas, cheguei à loja “Depósito Dias”. Os donos à época eram diferentes daqueles do período da reforma na propriedade rural e ficaram arredios nos primeiros contatos.

Mas, a cada fagulha de informação que eu conseguia, ia ao depósito para tentar aprofundar a apuração, e os donos passaram a confiar em mim. Tanto que, após inúmeros pedidos, eles permitiram que eu tivesse acesso à documentação contábil da empresa.

Meu objetivo era encontrar algum documento ou manuscrito que fizesse referência à Odebrecht.

A papelada antiga da loja estava amontoada em um quarto empoeirado nos fundos do estabelecimento.

Gastei dois dias verificando centenas de notas fiscais, boletos de pagamento, pedidos de compra, comprovantes de entrega e fichas de clientes, e nada de achar uma menção à Odebrecht.

Depois da última tarde de busca nos arquivos da loja, cheguei à redação à noite totalmente sujo de pó e muito desanimado quanto ao futuro da apuração. Falei sobre o resultado do trabalho com um dos editores do caderno Poder à época, Rodrigo Vizeu.

“A falta de um papel não derruba a apuração que você já conseguiu. Acho que devemos ir em frente”, disse Vizeu. Os outros editores reforçaram o incentivo, e essa mobilização ao longo do trabalho foi um grande diferencial para seu sucesso.

Depósitos

Passei então a investir na busca pelos outros donos do Depósito Dias que poderiam ter se relacionado diretamente com os funcionários da Odebrecht.

Consegui chegar a uma das antigas donas da loja, Patrícia Nunes. Após vender a loja, ela passou a exercer a profissão de enfermeira. No primeiro contato, ela disse que não gostaria de aparecer, mas aceitava falar comigo. Disse a ela que nossa conversa seria em “off”, o que no jargão jornalístico significa que a fonte não será mencionada na reportagem.

Ela então me deu um relato detalhado sobre o fornecimento de materiais da loja para o pessoal da Odebrecht e as entregas feitas no sítio.

Ela também disse que um engenheiro chamado Frederico coordenava os trabalhos. Perguntei se era possível ter certeza de que ele um engenheiro da Odebrecht.

A resposta dela me espantou: “É fácil, é só procurar na internet as reportagens sobre a construção do estádio de abertura da Copa de 2014. Foi ele quem construiu e deu várias entrevistas para a televisão”, disse ela.

Aquilo me levou a descobrir uma situação contraditória: Frederico Barbosa, o engenheiro da Odebrecht, tinha se esforçado para esconder sua condição de funcionário da empreiteira durante a reforma do sítio em 2010, mas se expôs enormemente na mídia em 2014 para falar do seu orgulho em ser o responsável pela construção da Arena Corinthians, estádio do seu time de coração.

Essa paixão o deixou vulnerável, e todo mundo na região do sítio reconheceu o homem alto e de voz grave que fazia compras em larga escala no comércio local.

Patrícia me ajudou a falar com a antiga contadora da loja de materiais de construção e fiz mais uma investida em busca de documentos. Passei um dia no escritório de contabilidade vendo os registros nos computadores, e mais uma vez não encontrei nada.

Fiquei então na dependência de alguém que falasse abertamente sobre a participação da Odebrecht na obra e aceitasse que seu nome fosse publicado.

Como a ex-dona da loja de material de construção era a pessoa mais diretamente ligada ao fato, voltei a ela e pedi autorização para publicar seu relato e identificá-la como a fonte das informações.

Após meu pedido, ela ficou em silêncio por alguns segundos e respondeu: “Pode publicar, estou muito indignada com tudo que está acontecendo”.

Depois de conseguir a autorização para publicar em “on” o relato de Patrícia, ficou mais fácil obter depoimentos de outras pessoas. Um dos marceneiros que trabalhou na obra, Antônio Carlos Oliveira Santos, contou detalhes importantes da reforma, e incluímos na reportagem.

Último passo

O último passo era ouvir as pessoas citadas na reportagem e a Odebrecht. Nessa etapa, a cultura interna da Folha de procurar insistentemente o “outro lado” e de não fazer essa busca apenas para cumprir tabela foi muito positivo para a reportagem.

A realidade, porém, é que, muitas vezes, essas pessoas mencionadas nas reportagens não topam falar ou pedem para contatar a assessoria de imprensa da empresa.

Foi com essa expectativa que liguei para o engenheiro da Odebrecht Frederico Barbosa. Para minha surpresa, ele concordou em falar. E falou muito.

O engenheiro admitiu ter trabalhado no sítio, mas negou que a Odebrecht tivesse relação com esse serviço. O engenheiro declarou que havia atuado no sítio em seu período de férias, de forma gratuita, para uma pessoa que ele havia conhecido no mercado de trabalho.

Perguntei se ele tinha uma relação de amizade com essa pessoa. A resposta foi espantosa: “Não é amigo de muita relação, mas é uma pessoa próxima, já trabalhamos juntos em outras obras. Queria ajudá-lo. Isso faz parte da carreira da gente, como um médico ajuda uma pessoa, um advogado ajuda uma pessoa”.

O teor pouco verossímil das explicações do engenheiro da Odebrecht teve o efeito de substituir um documento que comprovasse a atuação da empresa no sítio, e a reportagem ganhou peso.

Era difícil acreditar que o engenheiro tivesse dado aquelas declarações, e quando o texto chegou aos altos escalões do jornal, o editor-executivo, Sérgio Dávila, e o então secretário de Redaçāo interino, Eduardo Scolese, vieram à minha mesa com a mesma pergunta: “Você gravou isso?”. Como de praxe em pedidos de manifestação, eu havia gravado.

Procuramos então a Odebrecht, e a empresa afirmou que não tinha nenhuma relação com a obra.

Após a publicação da reportagem, em 29 de janeiro de 2016, e o desenvolvimento das apurações do jornal, o engenheiro e a Odebrecht mudaram suas versões e admitiram que Barbosa havia trabalhado no sítio após um pedido de um superior da empreiteira.

A força-tarefa da Lava Jato passou a investigar a ligação da Odebrecht com as obras na propriedade rural.

A dona da loja de material de construção, o marceneiro e o engenheiro da construtora foram chamados a prestar depoimento. A Polícia Federal abriu em fevereiro de 2016 um inquérito específico para apurar a atuação da Odebrecht no sítio.

Nosso objetivo de fazer uma apuração independente de vazamentos de autoridades e advogados havia sido alcançado. E ficou a lição sobre a necessidade de dedicar mais tempo à busca do esclarecimento dos fatos longe dos gabinetes, comendo poeira em estradas e gastando saliva com pessoas nas ruas.
 

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