Basílica do interior de SP muda para conquistar fiéis após suspeita de assédio

Depois do afastamento de religioso, novo padre em Americana muda gestão de recursos e tenta contornar desconfiança

Marcelo Toledo
Americana (SP)

Domingo, 24 de fevereiro. O padre encerra a missa e, após caminhar até a entrada principal da Basílica Santo Antônio de Pádua, em Americana, no interior de SP, é aplaudido por ministros da eucaristia e coroinhas. Depois, fica mais 10 minutos ouvindo fiéis e recebendo abraços.

Mas nem sempre a relação dentro da igreja foi assim.

O primeiro mês do padre Edmilson José da Silva, 48, administrador temporário da basílica, foi marcado por conflitos, perda de fiéis e protestos depois do afastamento do então reitor, padre Pedro Leandro Ricardo, 50, sob a suspeita de suposto assédio sexual cometido contra quatro ex-coroinhas. O religioso nega e diz ser alvo de perseguição.

O padre Edmilson José da Silva, 48, administrador pro tempore, atende fiéis na basílica de Americana
O padre Edmilson José da Silva, 48, administrador temporário da basílica de Americana (SP), durante atendimento a fiéis - Marcelo Toledo - 24.fev.19/Folhapress

Após afastar padre Leandro, a igreja anunciou mudanças na forma de prestar contas dos valores recebidos em doações e dízimos, além de criar uma equipe para cuidar do estacionamento, que é pago em dias úteis.

Na terça (26), cerca de 30 carros estavam às 15h no local, que cobra R$ 6 pela primeira hora.

O imbróglio veio à tona quando padre Leandro foi suspenso por tempo indeterminado das funções eclesiásticas sob suspeita de assediar ex-coroinhas que tinham de 11 a 17 anos. A suspensão ocorreu após a Folha questionar a Diocese de Limeira sobre investigação em andamento.

A saída desencadeou uma série de efeitos na igreja, e fiéis lavaram a escadaria em protesto contra as suspeitas.

Além do padre Leandro, elas também atingiram dom Vilson Dias de Oliveira, dispo da Diocese de Limeira, responsável pela basílica. Ele é suspeito de tentar extorquir dinheiro de membros do clero sob seu comando, de aumentar seu patrimônio com recursos desviados da igreja e de acobertar o padre afastado.

As manifestações na região foram observadas à distância pelo padre Edmilson, recém-chegado à cidade.
"Encontrei uma comunidade sofrida com a situação, mas confiante. [Agora] Normalizou, inclusive aumentou o número de frequentadores em relação a quando eu assumi."

Basílica Matriz de Santo Antônio, em Americana (SP), que adotou práticas de transparência após escândalos
Basílica Matriz de Santo Antônio, em Americana (SP), que adotou práticas de transparência após escândalos - Divulgação

Segundo o padre, cada gestor tem a sua forma de administrar, e a dele é de implantar transparência na prestação de contas do dinheiro recebido pela basílica. "Era feito de outra forma. Cada gestor tem o seu jeito, esse é o meu. Não posso falar da gestão do outro", afirmou à Folha, acrescentando que as mudanças seguiam o direito canônico estabelecido "há séculos".

Apesar de o padre afirmar que o número de presentes às missas cresceu no intervalo de um mês, fiéis disseram que a imagem da igreja ficou muito arranhada com o episódio, que só o tempo fará com que a ferida seja curada e creem que padre Leandro não voltará ao comando da basílica, mesmo se for inocentado.

"É uma situação muito triste, pois a gente frequenta a igreja em busca de um conforto", disse a dona de casa Joana Marques, 59.

O motorista Claudiomiro Seixas, 63, afirmou esperar que tudo seja esclarecido o mais rapidamente possível, inclusive pela igreja. "Tenho formação católica desde sempre, é nisso que acredito. Espero que expliquem o que realmente ocorreu."

Dom João Inácio Muller, bispo de Lorena (SP), foi enviado pelo núncio apostólico do Brasil (espécie de diplomata do Vaticano), o arcebispo dom Giovanni d'Aniello, para investigar as acusações que atingem o padre e o bispo.

Após alguns dias na cidade, despediu-se de dom Vilson sem comentar nada sobre as oitivas, o que gerou apreensão em religiosos ouvidos pela Folha. Eles aguardam um comunicado sobre as medidas tomadas.

A Delegacia Seccional de Americana não comentou o caso, cuja investigação corre em segredo de Justiça. O padre Leandro, que ainda não prestou depoimento, deixou a casa da basílica e se mudou para outro imóvel na cidade.

Questionada, a Diocese de Limeira não comentou, sob a alegação de que a apuração segue segredo canônico.

O padre Pedro Leandro Ricardo, que foi afastado sob a suspeita de suposto assédio sexual cometido contra quatro ex-coroinhas. O religioso nega
O padre Pedro Leandro Ricardo, que foi afastado sob a suspeita de suposto assédio sexual cometido contra quatro ex-coroinhas. O religioso nega - Reprodução

Advogado do padre Leandro, Paulo Henrique de Moraes Sarmento disse que o religioso está sendo alvo de perseguição de um grupo de desafetos desde quando atuava em Araras, cidade vizinha, e que ele refuta ter cometido assédio ou abuso.

De acordo com o defensor, a perseguição foi ampliada em Americana. Sarmento afirmou ainda que as denúncias foram requentadas e pessoas estão sendo cooptadas para apresentarem denúncias contra o religioso. "Muitas das acusações são antigas e já foram investigadas, sem que nada tivesse sido provado."
O advogado disse que as denúncias têm como objetivo excluir o padre Leandro de forma definitiva da igreja, para "satisfazer os interesses pessoais" de integrantes do grupo.

Sobre as mudanças implementadas no estacionamento pelo padre Edmilson, Sarmento disse que existe um programa, usado inclusive por outras igrejas, que faz controle contábil dos valores recebidos e é enviado à diocese, e que não há desvio de recursos.

"Nunca houve assédio ou abuso, e também não houve desvio de dinheiro. Isso ficará demonstrado ao final das investigações."

Advogado da Diocese de Limeira, Virgílio Ribeiro, informou anteriormente à Folha que dom Vilson "jamais pactuou ou pactuaria com qualquer ato que confronta as leis que regem a igreja".

Questionado sobre os bens do bispo, o advogado afirmou que estão declarados no Imposto de Renda. "Uma simples matemática", diz, "mostraria que seu patrimônio é fruto do seu trabalho junto à igreja".

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