Com discursos em defesa do jornalismo e da democracia, Senado homenageia 98 anos da Folha

Sessão solene prestou homenagem também a Otavio Frias Filho, diretor de Redação morto no ano passado

Brasília

Com discursos em defesa da imprensa e da democracia, o Senado realizou sessão solene nesta quinta-feira (14) em homenagem aos 98 anos da Folha e a Otavio Frias Filho, diretor de Redação do jornal, que morreu no ano passado.

Os oradores relembraram momentos com Otavio e o legado que ele deixou para o jornal, o jornalismo e o país.

A sessão contou, entre outros, com a presença de senadores, do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), do ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal  Federal), do vice-presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Luiz Viana, do vice-governador do Distrito Federal, Paco Britto, do diretor-executivo da ANJ (Associação Nacional de Jornais), Ricardo Pedreira, da diretora editorial e de Redação da Folha, Maria Cristina Frias, e do editor-executivo do jornal, Sérgio Dávila.

Da esquerda pra direita, Luiz Viana (vice da OAB), ministro Gilmar Mendes (STF), deputado Rodrigo Maia (presidente da Câmara), senador Antonio Anastasia (vice-presidente do Senado), senadora Kátia Abreu (PDT-TO), Paco Britto (governador interino do DF) e Maria Cristina Frias (diretora editorial e de Redação da Folha) participam de sessão solene em homenagem aos 98 anos da Folha e a Otavio Frias Filho, diretor de Redação do jornal, que morreu no ano passado
Da esquerda pra direita, Luiz Viana (vice da OAB), ministro Gilmar Mendes (STF), deputado Rodrigo Maia (presidente da Câmara), senador Antonio Anastasia (vice-presidente do Senado), senadora Kátia Abreu (PDT-TO), Paco Britto (governador interino do DF) e Maria Cristina Frias (diretora editorial e de Redação da Folha) participam de sessão solene em homenagem aos 98 anos da Folha e a Otavio Frias Filho, diretor de Redação do jornal, que morreu no ano passado - Pedro Ladeira/Folhapress

Primeiro vice-presidente da Casa, o senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) abriu a sessão lembrando fatos históricos que estamparam a primeira página da Folha. "Dessas histórias, nenhum capítulo se passou sem que fosse relatado e debatido nas páginas da Folha. Somos o fruto da nossa história", disse.

O ministro Gilmar Mendes destacou momentos em que não concordou com o jornal e defendeu a liberdade de imprensa. "Nem sempre gostei do que a Folha publicou sobre o meu desempenho. Discordei da opinião do jornal muitas vezes. Mas sempre considerei que a imprensa livre não existe para agradar a esse ou àquele. Tampouco a mim deveria ser assim", afirmou o ministro.

A sessão solene foi realizada após a aprovação de requerimento da senadora Kátia Abreu (PDT-TO).

"A Folha de S.Paulo, solidificada a partir do projeto de Otavio, tem imperfeições, como ele admitia, por ser feita diariamente, às pressas, a sangue quente; mas é um jornal com vida, com inconformismo e liberdade de pensamento, como acredito que um jornal de verdade deve ser", afirmou.

"Não conheci alguém mais civilizado e mais culto que Otavio Frias Filho, sempre interessado no futuro do País, sempre disposto a discutir saídas para o Brasil, sem que tivéssemos de estar de acordo com ele ou ele conosco", disse.

O líder do MDB e da Maioria, Eduardo Braga (AM), afirmou que a Folha é "um jornal que, ao longo de seus quase cem anos de existência, guiou a sua atuação pelos princípios do apartidarismo, do pluralismo e da crítica fundamentada".

Líder do Podemos, Alvaro Dias (PR) falou da importância do jornalismo investigativo em "momentos fundamentais para a limpeza exigida pela sociedade brasileira".

O líder do PSB, Jorge Kajuru (GO), que já foi colunista da Folha, disse que, quando o jornal é atacado, recebe um "atestado de idoneidade".

"Não são tempos normais quando, a exemplo do mais alto mandatário da Nação, outros setores buscam destruir a reputação de jornalistas, buscam atacar a nós, figuras públicas que somos, 81 senadores da República neste plenário, alguns de direita, outros de esquerda, outros de centro. Nós temos um princípio que é a exposição pública, e como exposição pública, é necessário sermos fiscalizados", disse Randolfe Rodrigues (Rede-AP), líder da Minoria.

"Ainda que em muitos momentos possa desagradar a quem esteja exercendo temporariamente o poder, e isso vale para todos os seguimentos, valeu para nós nos momentos em que estivemos à frente deste país, o papel da imprensa é este: fiscalizar, denunciar, construir uma visão crítica, mostrar, muitas vezes, defeitos, problemas e insuficiências", afirmou o líder do PT, Humberto Costa (PE).

Da tribuna, José Serra (PSDB-SP) lembrou o período em que foi editorialista do jornal e ressaltou características do trabalho de Otavio.

"Estamos homenageando hoje aquele que é o principal personagem da renovação da nova e da moderna imprensa brasileira, que é o Otavio Frias Filho. Eu fiquei impressionado quando, depois do seu falecimento, inclusive, órgãos concorrentes de imprensa na área de opinião emitiram esse juízo. Otavio tinha sido o jornalista mais importante da sua época, que mais pesou na reformulação e na modernização, um novo tipo de imprensa no Brasil", afirmou o senador paulista.

"Quais são as características do modelo Folha? É o pluralismo, a independência, a combatividade, a inovação permanente e até a autocrítica. É o jornal que introduziu a figura do ombudsman na nossa imprensa", afirmou o tucano.

Em seu primeiro discurso após ser derrotado na disputa pela presidência do Senado, Renan Calheiros (MDB-AL) fez referência à honestidade intelectual e franqueza de Otavio e, assim como os colegas, saiu em defesa da democracia.

"Da nossa perspectiva, temos que reiterar uma firme posição em defesa da democracia e seu mais importante reflexo, a liberdade de expressão, interditando qualquer ensaio na tentativa de controlar o livre debate no país. O modelo democrático brasileiro, a exemplo das nações modernas, se opõe ao pensamento único e monocrático, inservível à própria democracia."

Os líderes do PDT, Weverton Rocha (MA), e do PPS, Eliziane Gama (MA), e o senador Wellington Fagundes (PR-MT) também discursaram. 

Convidado a discursar, o jornalista Josias de Souza afirmou que a homenagem ao jornal vem em "boa hora não apenas por conta do aniversário do jornal, mas porque há, na conjuntura atual, muita gente que suspira comovida só de ouvir falar em liberdade de expressão, liberdade de imprensa. O sonho de algumas dessas pessoas é de se verem livres da imprensa". 

Maria Cristina Frias foi a última a discursar. Segundo a diretora de Redação, a ideia central do jornalismo praticado pela Folha é contrastar os poderes numa sociedade democrática. 

"A Folha estabelece, e cumpre como rotina inarredável, a obrigação de ouvir os argumentos de pessoas e organizações criticadas em nosso noticiário e de publicá-los. Diariamente, corrige seus erros de modo transparente, sob a rubrica 'Erramos'. Contrata uma profissional, a ombudsman, cuja responsabilidade é criticar o nosso jornalismo com autonomia", afirmou.

"Desde que assumi a direção editorial e de Redação do jornal, por indicação de meu irmão Otavio, tenho me dedicado a perseguir os princípios do Projeto Folha, que foi patrocinado por ele desde os anos 1980", ressaltou.

Ao comentar a pluralidade do jornal, Maria Cristina disse querer avançar nesta temática "com mais mulheres, negros, um leque mais amplo de perfis ideológicos e de formação, não só na Redação, como em nosso leitorado".

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