Justiça autoriza Polícia Federal a apurar candidatura laranja do PSL em PE

Candidata recebeu R$ 400 mil de verba pública e teve 274 votos

João Valadares
Recife

A Justiça Eleitoral em Pernambuco autorizou a instauração pela Polícia Federal de inquérito para apurar esquema de candidatura laranja do PSL no estado. 

Maria de Lourdes Paixão recebeu do partido R$ 400 mil de dinheiro público na eleição de 2018. Ela teve 274 votos e gastou R$ 380 mil em uma única gráfica com endereço suspeito de ser de fachada.

Lourdes, 68, que oficialmente concorreu a deputada federal, foi a terceira maior beneficiada com verba do PSL em todo o país, mais do que o próprio presidente Bolsonaro e a deputada Joice Hasselmann (SP), essa com 1,079 milhão de votos.

Em nota divulgada nesta segunda-feira (7), o TRE-PE informou que a Polícia Federal pediu autorização para investigar o caso no último dia 22.

Antes da abertura formal da investigação, Maria de Lourdes Paixão prestou esclarecimentos à Polícia Federal no dia 20 de fevereiro.

A suspeita candidata laranja a deputada federal, Maria de Lourdes Paixao (PSL-PE) na sede da Policia Federal de Pernambuco - Reprodução/TV Globo

Após o término do depoimento, o advogado Ademar Rigueira informou que ele está sendo pago pelo próprio PSL para fazer a defesa de Maria de Lourdes.

Na ocasião, ele demonstrou irritação ao ser indagado por uma jornalista sobre quem pagaria pelos seus serviços. “Você é da Receita Federal?”, questionou.

No dia 10 de fevereiro, a Folha mostrou que dinheiro do fundo partidário do PSL foi enviado pela direção nacional da sigla para a conta da candidata em 3 de outubro, quatro dias antes da eleição. 

Apesar de ser uma das campeãs de verba pública do PSL, Lourdes teve uma votação que representa um indicativo de candidatura de fachada, em que há simulação de atos de campanha, mas não empenho efetivo na busca de votos.

O esquema também está sendo apurado pela Polícia Civil em Pernambuco.

O advogado da candidata declarou que o fato de Lourdes ter recebido R$ 400 mil de verba pública eleitoral a quatro dias da eleição se deve ao fato de ela ser uma aposta do PSL.

Segundo ele, Lourdes e Luciano Bivar, deputado federal e presidente nacional do PSL, têm uma ligação que dura mais de 30 anos. Ela já trabalhou em duas empresas comandadas pelo político.

O advogado afirmou que o material foi efetivamente rodado, mas, apesar de toda a repercussão do caso, não soube precisar o endereço da gráfica. Também disse não se lembrar do nome da empresa.

A prestação de contas de Lourdes, que é secretária administrativa do PSL de Pernambuco, sustenta que ela gastou 95% desses R$ 400 mil na gráfica Itapissu para a impressão de 9 milhões de santinhos e cerca de 1,7 milhão de adesivos, às vésperas do dia do primeiro turno, em 7 de outubro.

Cada um dos quatro panfleteiros que ela diz ter contratado teria, em tese, a missão de distribuir, só de santinhos, 750 mil unidades por dia —mais especificamente, sete panfletos por segundo, no caso de trabalharem 24 horas ininterruptas.

Na época, Gustavo Bebianno, demitido por Bolsonaro no dia 18 de fevereiro da Secretaria-Geral da Presidência, era presidente interino da legenda e coordenador da campanha de Bolsonaro, com foco em discurso de ética e combate à corrupção.

No dia 8 de fevereiro, a reportagem da Folha visitou primeiramente um endereço que consta na nota fiscal da gráfica Itapissu, no bairro Arruda, na capital pernambucana, e encontrou apenas uma oficina de carros, que funciona há quase um ano no local.

No dia 11, um dia após a publicação da reportagem, a empresa, no endereço constante na Receita Federal, amanheceu de porta aberta. Numa sala pequena com duas mesas, não havia máquinas para impressão em larga escala. 

No imóvel informado na Receita, localizado no número 345 da avenida Santos Dumont, há um café instalado no térreo e um espaço para aulas de reforço. 

Ao ser questionada, a empresa, por meio do advogado, não informou onde o material da candidata havia sido rodado. 

Um dia após o depoimento de Lourdes na Polícia Federal, a empresa informou por meio de advogados que os proprietários mudaram de endereço havia um ano e meio e não informaram à Junta Comercial.  

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