Descrição de chapéu Lava Jato

Pivô da prisão de Temer tenta, em liberdade, reerguer empreiteira

José Antunes Sobrinho, hoje delator, buscou afastar Engevix de noticiário sobre ex-sócio preso

Felipe Bächtold
São Paulo

Pivô da prisão do ex-presidente Michel Temer, o empresário José Antunes Sobrinho cumpre as obrigações de seu acordo de delação em uma trajetória pós-Lava Jato que destoa das de outros grandes executivos que foram detidos na operação.

Diferentemente de outros empresários delatores, que foram forçados a se retirar da linha de frente de suas construtoras, ele tenta reerguer a empreiteira Engevix, em crise desde que a investigação prendeu um dos antigos sócios, mantém aparições públicas e é ativo no dia a dia do grupo empresarial.

O delator da Engevix José Antunes Sobrinho, que acusa o ex-presidente Michel Temer
O delator da Engevix José Antunes Sobrinho, que acusa o ex-presidente Temer, durante depoimento em sua delação - Reprodução

Antunes fechou um acordo de colaboração com a PF em 2018, prerrogativa que a polícia só passou a ter após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) em meados daquele ano. Antes, em 2015, tentou firmar delação com a força-tarefa do Ministério Público Federal no Paraná, que não aceitou sua proposta.

Por ordem do ex-juiz Sergio Moro, ficou detido cerca de cinco meses em regime fechado, no Paraná, além de um período em domiciliar. Condenado em duas ações penais a 29 anos de prisão pelo juiz federal Marcelo Bretas, do Rio, para onde seu caso foi transferido, aguardava o recurso em liberdade e corria o risco de voltar para a cadeia, caso tivesse suas condenações por pagamento de propina no âmbito da estatal Eletronuclear confirmadas em segunda instância. Esses recursos ainda não foram julgados.

Contratou o advogado paranaense Antonio Figueiredo Basto, conhecido por firmar alguns dos mais importantes acordos de delação da Lava Jato no Paraná, e teve seu acordo com a PF homologado pelo ministro do STF Luis Roberto Barroso em 2018. Os termos do compromisso e suas obrigações, como reparação de cofres públicos, estão sob sigilo. Figueiredo Basto e a empresa não comentam o assunto.

O depoimento acusando Temer de receber repasse de R$ 1 milhão por meio de uma empresa do coronel da PM paulista João Baptista Lima Filho foi crucial para a ordem de prisão do ex-presidente cumprida no último dia 21. Temer ficou apenas quatro dias preso --foi liberado por ordem de um juiz federal de segunda instância que entendeu que não havia fatos novos que justificassem a permanência na cadeia.

A acusação contra o ex-presidente, que envolve contrato do grupo nas obras da usina nuclear de Angra 3, trouxe de volta à tona o grupo empresarial que se enfraqueceu com a operação e que hoje Antunes tenta blindar dos efeitos de seu passado.

Na tentativa de marcar a retomada do grupo, rebatizou-o de "Nova Engevix", que agora exibe com destaque em seu site um manual de compliance (conformidade, em inglês), que orienta, por exemplo, integrantes da empresa sobre questões de conflitos de interesse e de relação com o poder público.

Até 2016, o grupo era de propriedade, em partes iguais, de Antunes e de outros dois sócios, Gerson Almada e Cristiano Kok. A prisão de Almada, junto com outros grandes executivos de empreiteiras, em 2014, marcou negativamente o histórico da empreiteira, que entrou em crise e se desfez de parte de seus negócios.

Em 2015, foi a vez de Antunes ser detido por ordem de Sergio Moro e de também virar réu acusado de integrar o esquema de pagamento de propina na Petrobras com Almada. Foi absolvido com o argumento de que se dedicava apenas a projetos no setor elétrico e de aeroportos, e que o ex-sócio mantinha total autonomia sobre as atividades da empresa na Petrobras.

Moro considerou "pouco plausível" que Antunes não soubesse dos pagamentos de suborno feitos por seus parceiros, mas entendeu que a acusação não apresentou provas suficientes.

Almada reconheceu ter cometido crimes e conseguiu habeas corpus, mas, com a confirmação de sua sentença em segunda instância, acabou novamente preso no início de 2018, e permanece detido até hoje.

Antunes agora tenta se distanciar do antigo sócio. Diante do noticiário da Lava Jato, o grupo publicou comunicado à imprensa no ano passado informando que Almada não tem mais "qualquer relação com a empresa".

Em depoimento em 2016, o atual dono da Engevix chamou a incursão na empresa no ramo petrolífero, a partir da década passada, de "desastre". "Jogamos patrimônio fora por causa dela, tivemos que vender [participação em] aeroporto, perdemos gente."

No ano passado, estimou que o faturamento anual da empresa passou de R$ 1,5 bilhão antes da crise para R$ 300 milhões.

Após comprar a participação dos sócios por valor simbólico, voltou a circular pelos meios empresariais. Em 2017, esteve em reunião com a diretoria do BNDES. Paralelamente, preparava os tiros de sua proposta da delação. Entre os alvos, estão os negócios da construtora na usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.

Em um dos depoimentos que já vieram a público, afirmou que pagou propina em 2014 para ter recursos de um empréstimo liberados pela Caixa Econômica a supostos emissários do PMDB e do senador alagoano Renan Calheiros. O senador nega envolvimento e diz que o caso será arquivado como outros contra ele.

O delator também disse ter pago propina para que a BR Distribuidora liberasse obras em aeroportos a pessoas supostamente ligadas ao ex-deputado petista Vicente Cândido (SP) —o político não foi localizado pela reportagem para comentar o assunto.

Em novembro passado, Antunes participou de um debate promovido por um site de notícias jurídicas e um escritório de advocacia. Pediu uma "força-tarefa" governamental para acordos que permitam a sobrevivência das empresas envolvidas na Lava Jato, chamou a Lava Jato de "diálise de uma situação da civilidade brasileira" e comparou a situação das empreiteiras brasileiras com a de multinacionais alemãs Siemens e Volkswagen, que, disse ele, foram apanhadas em casos de irregularidades, mas não tiveram que fechar as portas.

Disse ainda que um dos problemas das empresas é de cultura. "Temos uma cultura, infelizmente, torta. A cultura é um pouco torta, torta por todos os lados. Então a formação, o treinamento das pessoas para que se invista em uma cultura correta dentro das companhias é fundamental", disse ele.

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