Descrição de chapéu Legislativo Paulista

SP não quer radicalismo, e Janaina terá que entender que é minoria, diz Macris

Para tucano reeleito presidente da Assembleia, principal missão será fazer extremos dialogarem

Carolina Linhares Géssica Brandino
São Paulo

Reeleito para o comando da Assembleia Legislativa de São Paulo com 70 dos 94 votos de deputados estaduais, Cauê Macris (PSDB) diz representar o anseio da maioria dos paulistas por equilíbrio.

Para Macris, o radicalismo de Janaina Paschoal (PSL), que foi sua adversária na disputa pela presidência da Casa, é apoiado por uma minoria —ainda que ela seja uma recordista com seus 2 milhões de votos no ano passado. 

"Há disputa ideológica muito grande no Legislativo, coisa que a gente não teve [antes]", disse em entrevista à Folha.

O deputado estadual Cauê Macris (PSDB), reeleito presidente da Alesp
O deputado estadual Cauê Macris (PSDB), reeleito presidente da Alesp - Eduardo Anizelli - 15.mar.2019/Folhapress

Após ser eleito, Macris afirmou à imprensa que o cronograma das privatizações do governo João Doria (PSDB), de quem é aliado, deve ser um dos primeiros temas a serem avaliados. O deputado disse ser favorável à privatização de estatais e ao estado mínimo, mas que as consequências precisam ser estudadas.

Macris afirmou que não vai se opor a uma CPI da Dersa, estatal alvo de escândalos de corrupção, ou a qualquer outro processo de investigação, mesmo que mire o PSDB.

O sr. diz que essa campanha foi de denuncismo. Mas não era preciso que a população soubesse das suspeitas em suas contas eleitorais? Claro. Isso é público, eu declarei na prestação de contas e está na internet. O que acabou mexendo com a minha honra e atingindo a minha família é tentar imputar ilegalidades onde não existe.

Falo que foi a campanha mais baixa e mais suja da história da Assembleia é por tentativa de imputar coisas erradas onde não existia. Minha prestação de contas foi avaliada pelo Ministério Público e aprovada pela Justiça.

Foi a primeira campanha com o PSL e o sr. disse que foi a mais baixa. A presença do PSL vai agitar a Assembleia? A gente precisa ter equilíbrio. A minha característica é equilíbrio. Estamos vivendo um novo momento do Legislativo, de uma lacuna muito grande entre esquerda e direita. Há disputa ideológica muito grande no Legislativo, coisa que a gente não teve [antes].

Ao longo do tempo em que sou deputado, a disputa se deu no campo da situação e da oposição. Agora, além disso, essa disputa ideológica vai ser muito acirrada e vai sobrepor a disputa de situação e oposição. 

E aquelas pessoas que se dizem nova política precisam refletir de fato o que é a nova política. Nova política é esquecer a biografia das pessoas ou dizer que não é político para ser bom? Você imputar a pessoa que tem biografia como velha política e que não presta é uma posição um pouco perigosa. 

O sr. foi eleito com votos do PT e do PSB, que fazem oposição ao PSDB. Para garantir a eleição na Mesa, vale a pena passar por cima da diferença ideológica? Qual foi a minha defesa nesta campanha: serei equilibrado, vou dar chances para a direita e para a esquerda. Vou manter a ordem, manter a Assembleia controlada para que cada um tenha direito de expressar suas posições.

O PT precisa ser respeitado. Há figuras do PT que têm problemas. A minha crítica é para ideologia, eu penso o Estado diferente, mas respeito. Nunca desrespeitei PT ou PSL, eu apoiei Jair Bolsonaro no segundo turno.

O PSL só não está na Mesa comigo porque eles quiseram bancar a candidatura da Janaina. Se ela é minha adversária, não tenho como ouvi-los. O PSL tinha tudo para ter espaço na Mesa, mas quiseram fazer o enfrentamento. Jogaram essa questão ideológica, quiseram me desconstruir, tentaram imputar como se eu fosse o Renan Calheiros, coisa que eu não sou. Isso acabou inviabilizando essa composição. 

A Assembleia é tida como puxadinho do Palácio dos Bandeirantes. Será assim? Temos independência desde que eu sou presidente. Tiveram pautas, como a emenda impositiva, que foram aprovadas a contragosto do governo. Precisamos aprovar o que seja bom para o estado, não podemos aceitar oposição por oposição. 

João Doria é um nome para a Presidência da República em 2022? João precisa governar São Paulo e focar as forças nisso. E não pensar em eleição neste momento.

O sr. tem planos de disputar outros cargos, prefeitura ou governo?" Não. Preciso acalmar minha vida. Essa campanha foi muito difícil, foi muito baixa, muito suja. Preciso ter serenidade para enfrentar o que eu vou enfrentar aqui.

O que o sr. vai enfrentar aqui? Posições totalmente antagônicas. Sou uma pessoa de centro, do equilíbrio e do diálogo. Vejo que cada um quer impor as suas posições e o Parlamento não é o lugar da imposição, é o do diálogo.

Eu preciso ter equilíbrio para acalmar os dois lados e que eles consigam sentar numa mesa e buscar o entendimento comum. Essa é a minha principal missão. 

Houve protesto contra o sr. do lado de fora, como lida com essa insatisfação? Não existe insatisfação. Tive 75% dos votos da população [considerando 70 votos de 94 deputados]. A deputada Janaina teve 2 milhões de votos e é minoria. Ela precisa entender que ela é a minoria.

O radicalismo estabelecido por ela e por alguns integrantes do PSL não é o que a população de São Paulo quer. A população espera o equilíbrio: 75% gostariam de ter no comando do Parlamento uma pessoa equilibrada com a minha característica para estabelecer linha de diálogo entre o extremo radical da esquerda e da direita. 

Fiscais de renda foram responsáveis por 25% das doações à sua campanha eleitoral no ano passado, e agora o governo Doria envia um projeto para beneficiá-los. É coincidência? O projeto de lei só regulamenta algo que eles já tinham. É um equívoco misturar. O projeto enviado é o mesmo que já existia, mas proibindo a incorporação [dos benefícios ao salário, algo que foi considerado inconstitucional pela Justiça]. A gente não pode crucificar uma categoria e pessoas físicas que resolveram doar para mim. 

O sr. recebeu R$ 103,5 mil de doações de funcionários da Casa. Eles tinham algum interesse? Se eu forçasse os funcionários a fazer doação, eu teria de todos e eu não tive. É espontâneo. Se estou em campanha e pedindo ajuda, não cabe a mim fazer o julgamento de quem quer espontaneamente fazer doação. 

O fato do sr. utilizar um posto de gasolina do qual é sócio para compensar cheques a cabos eleitorais não dá margem a contestação? Tem deputado que trocou em casa lotérica, tem deputado que trocou em supermercado. Eu troquei na minha empresa, para facilitar a vida dos funcionários que trabalharam para mim.

Mas não levanta suspeita? Não concordo. Foram aprovadas as minhas contas. 

A campanha do seu irmão poderia ter compensado cheques no banco e também compensou no posto. Quem responde pela campanha do meu irmão é ele. Você está querendo colocar uma ilação onde não existe.

Após a campanha, o posto quitou uma dívida referente a compra de um imóvel. Você não pode misturar a questão empresarial. A empresa tem dívidas e isso é uma questão da empresa, não sou eu que administro. 

Mas a compra do apartamento fecha o ciclo do desvio de dinheiro. Isso é uma ilação. 

O imóvel não é para o sr.? É para a empresa, é um investimento da empresa. 

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