100 dias de Bolsonaro levam a uma nova rotina de cobertura

Diante de um comportamento inédito para um presidente, houve uma mudança no modo de cobertura jornalística em Brasília

Presidente Jair Bolsonaro cumprimenta simpatizantes ao sair do Palácio do Alvorada - Pedro Ladeira - 21.mar.2019/Folhapress
Leandro Colon
Brasília

Cem dias de governo de Jair Bolsonaro foram cem dias de uma nova rotina na cobertura do Poder Executivo pela imprensa.

A começar pelo método adotado para divulgar dados relevantes de gestão e as manifestações do próprio presidente.

Até então, Brasília estava acostumada a um modelo de anúncio de informações por meio de notas oficiais e declarações do próprio chefe da República em discursos ou entrevistas.

O general Otávio Rêgo Barros assumiu, como porta-voz, a tarefa de transmitir boletins no Palácio do Planalto e de responder a perguntas dos repórteres. Um pequeno avanço para um presidente que passou a campanha eleitoral sem uma boa interlocução com os jornalistas.

Bolsonaro, no entanto, manteve a sua prática de campanha de se manifestar, diariamente, nas redes sociais. E por motivos variados: para anunciar medidas, demitir e nomear ministros, comentar reportagens (sobretudo as negativas, alvo de críticas por parte dele), bater boca com jornalistas, e principalmente gerar crises e polêmicas, como a do “golden shower”, em que publicou no Twitter um vídeo obsceno no Carnaval.

Diante de um comportamento inédito para um presidente, houve uma mudança no modo de cobertura jornalística em Brasília. A conta de rede social dele passou a ser, pela primeira vez na história, uma fonte (inesgotável) de informação, exigindo um monitoramento em tempo real de suas atividades por parte da Folha

Um outro exemplo dos novos tempos na cobertura diária de um governo ocorreu na crise que levou à queda do ministro Gustavo Bebianno da Secretaria-Geral da Presidência em meio ao escândalo dos laranjas do PSL, revelado pela Folha.

Na noite de 15 de fevereiro, uma sexta-feira, noticiou-se que Bolsonaro havia decidido demitir o ministro. A exoneração seria publicada na segunda-feira seguinte, dia 18. 

O Planalto não se manifestou oficialmente no fim de semana, nem informou se haveria alguma publicação no Diário Oficial daquela segunda, apesar da insistência oficial por parte dos jornalistas para que a situação fosse esclarecida. 

Sem alternativa, repórteres passaram a madrugada acordados à espera do D.O., mas a demissão não apareceu. Somente no fim do dia o porta-voz confirmou a queda de Gustavo Bebianno.

O novo governo fez ainda a imprensa retomar uma antiga prática, que existia de forma constante no primeiro governo Lula (2003-2006), de escalar repórteres para fazer plantão na portaria do Palácio do Alvorada aos sábados e domingos. 

Saídas no meio do dia para compromissos fora da agenda oficial, paradas na frente do Palácio para abraçar simpatizantes e reuniões de última hora com assessores e ministros são eventos não programados que obrigam o jornal a manter vigilância constante na residência presidencial.

No dia 7, um domingo, por exemplo, o repórter Ricardo Della Coletta foi escalado para monitorar o Alvorada pela manhã. Naquele dia, a Folha publicou pesquisa do Datafolha mostrando que Bolsonaro tinha a pior avaliação do começo de mandato de presidentes eleitos para um primeiro mandato desde a redemocratização de 1985. 

 

​Bolsonaro resolveu, sem qualquer aviso prévio, participar de um churrasco na cidade com amigos militares. Na saída do Alvorada, parou para conversar com alguns eleitores e foi questionado pelo repórter da Folha sobre a pesquisa. “Datafolha? Não vou perder tempo para comentar pesquisa do Datafolha”, disse.

E essa imprevisibilidade não ocorre somente nos finais de semana. Na manhã do 26 de março, Bolsonaro desapareceu. O repórter Gustavo Uribe, que cobre diariamente o Palácio do Planalto, informou a chefia da Sucursal de Brasília que o presidente havia saído do Alvorada para um destino incerto. 

Ele descobriu então que Bolsonaro estava em um shopping da cidade para uma sessão de cinema em um evento da primeira-dama, Michelle. 

Não havia previsão na agenda do presidente para essa visita. O repórter se dirigiu rapidamente ao local e confirmou a escapada do presidente para assistir ao filme “Superação, o Milagre da Fé”. A notícia foi publicada às 11h15 no site da Folha.

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