Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Aos 100 dias, Doria busca criar uma alternativa sem ruptura com Bolsonaro

Governador tucano de São Paulo faz movimentações políticas visando 2022 e quer ter segurança como marca do seu governo

Igor Gielow
São Paulo

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), chega ao centésimo dia de seu mandato nesta quarta (10) em meio a um complexo e arriscado processo de montagem de imagem política.

O objetivo, naturalmente negado pelo governador, é liderar um polo de poder alternativo ao governo Jair Bolsonaro (PSL) sem antagonizar-se de forma decisiva com o presidente.

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), em seu gabinete no Palácio dos Bandeirantes
O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), em seu gabinete no Palácio dos Bandeirantes - Marlene Bergamo - 31.mar.2019/Folhapress

Doria trabalha alianças enquanto busca criar marcas na segurança pública, mas a turbulência do começo da gestão Bolsonaro o fez assumir um papel central na defesa da reforma que considera vital à economia, a da Previdência.

Trabalhou pessoalmente para aparar as arestas entre o mandatário e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), no ensaio de crise institucional da semana retrasada.

Há cálculos objetivos. O governador diz sempre a aliados que, sem a reforma, São Paulo quebra junto com o Brasil.

Ele também quer afastar a repetição da acusação de ser traidor que lhe foi impingida pelo seu "criador", o ex-governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB).

Sua movimentação acelerada em 2017, quando assumiu a Prefeitura de São Paulo e começou a agir como presidenciável, atropelando o sempre cauteloso Alckmin, não cicatrizou.

Doria, ciente de que seu eleitorado não é tão diverso do que aquele que levou Bolsonaro ao poder, quer evitar tal acusação do presidente.

Candidato, ele colou seu nome ao do então presidenciável no segundo turno de 2018, já com a âncora tucana cortada de seu barco com o humilhante quarto lugar de Alckmin na disputa pelo Planalto.

Bolsonaro largou no poder com baixa popularidade —apenas 32% de aprovação da população passados cem dias, segundo o Datafolha.

O problema é que o movimento para manter a governabilidade mínima também possibilita eventual recuperação da imagem de Bolsonaro, o que aliados de Doria consideram inevitável se o ambiente econômico melhorar.

Ou seja, Doria pode ajudar Bolsonaro a ser um candidato viável à reeleição em 2022. Como é muito cedo para sondar isso, o governador está preso à sua tática por ora. Enquanto isso, vem promovendo movimentações nacionais.

Há poucas semanas, reuniu a cúpula de tribunais superiores em um jantar. Tem mantido contatos com a ala militar do governo e faz questão de dizer que não concorda com o ideólogo que causa ojeriza aos fardados, Olavo de Carvalho.

Evento do grupo empresarial Lide, do qual se afastou para entrar na vida pública mas ao qual seu nome é associado, uniu na semana passada cinco governadores, o superministro Paulo Guedes (Economia) e os presidentes da Câmara e do Senado.

Essa costura vem diferenciando Doria de potenciais rivais que surgiram como grandes vencedores nas eleições estaduais do ano passado.

Wilson Witzel (PSC-RJ) e Romeu Zema (Novo-MG), por enquanto, estão mais para gerentes de massas falidas dadas as dificuldades locais.

No Palácio dos Bandeirantes, os tons escuros aplicados na polêmica reforma feita por Doria estão na superfície da mudança do modus operandi, assim como as gravatas reintroduzidas no vestuário do governador e o fim das aparições com uniforme de gari.

Impressionaram mais um visitante recente, empresário com muitos anos de frequência no palácio, pequenas salas de reunião para encontros cronometrados. Antes, conta, eram longas esperas e muito café nas audiências com autoridades estaduais.

Há também uma delegação de poderes inexistente sob Alckmin. Doria conta com Rodrigo Garcia (DEM), o vice-governador, para tocar a burocracia da gestão.

O tucano tem dado mais atribuições ao futuro presidente do PSDB-SP, o secretário Marco Vinholi (Desenvolvimento Regional), que com 34 anos é responsável pelo relacionamento com os 645 prefeitos paulistas —e pela caneta com a qual dialoga com eles.

Outra figura central é Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda que cuida da área econômica. Esses protagonismos em si não garantem melhor gestão, mas deverão gerar curtos-circuitos.

Garcia e Meirelles podem colidir rumo a 2022 se Doria construir mesmo uma candidatura ao Planalto. Por ora, eles permitem ao governador investir pessoalmente naquilo que pretende ver como sua marca: a segurança pública.

Em rápida conversa com a Folha, na qual não quis abordar aspectos políticos da relação com Bolsonaro, Doria disse que "mesmo nossos adversários admitem os avanços".

A área já ostentava alguns números bons na comparação nacional. Nesses cem dias, Doria viu vitórias no combate à cúpula do PCC.

"Retiramos 22 lideranças [do PCC]. Diziam que iria haver uma guerra nos presídios", afirma ele, que aumentou o efetivo nas ruas e removeu a "república dos promotores" da secretaria do setor, indicando um general assessorado por representantes das duas polícias.

No governo, essa nova interação é considerada a responsável pela espetaculosa operação de Guararema na semana passada, quando 11 criminosos foram mortos.

Fiel ao espírito do tempo que elegeu tanto a si como a Bolsonaro, Doria falou nos termos do presidente ao comentar o caso (a PM mandou "facínoras para o cemitério"), e vai homenagear os policiais.

Isso não vai dar um voto a Doria na centro-esquerda, mas seu grupo político está convencido de que é preciso manter a base conquistada em 2018 e o espantalho da "volta do PT" vivo.

​Doria também celebra o acordo que manteve a General Motors instalada no estado. "A decisão do fechamento era da matriz, chamamos todos para conversar, inclusive os sindicatos ligados à esquerda, e resolvemos", afirma ele. Meirelles teve papel importante na confecção do pacote.

De negativo, Doria aponta para a herança orçamentária de França. "Disseram que estava tudo bem, mas havia um rombo de R$ 10,5 bilhões."

Um teste duro será a eleição para a prefeitura paulistana, na qual seu ex-vice, Bruno Covas (PSDB), enfrentará dificuldades segundo pesquisas internas dos partidos.

Covas afastou-se de Doria e procura estabelecer-se mais à esquerda no PSDB. Mas perder a capital seria um golpe pior, então o governador terá de ou ajudar o prefeito ou encontrar um aliado alternativo —o que hoje não há nem nas fileiras do PSL de Bolsonaro.

A seção paulista do partido é próxima de Doria, em especial a deputada federal Joice Hasselmann. Na Assembleia Legislativa, porém, o comportamento da bancada (a maior) é uma incógnita após o PSDB manter o controle da Casa com ajuda até do PT.

Outro foco de dificuldade é o próprio PSDB. Doria começou o mandato falando grosso, em refundação tucana, mas enfrenta crescentes resistências e pode ver seu plano de controlar o Diretório Nacional diluído por uma presidência rotativa.


Desafios para Doria

Segurança pública
Tucano quer deixar marca em área que ostentava alguns números bons, para padrões brasileiros, e em que há sempre o risco de crise

Emprego
Com a demora na recuperação econômica do país, a geração de empregos fica prejudicada no maior estado da federação, e isso se reflete na avaliação dos governantes

Política
Doria precisa apoiar Bolsonaro a aprovar a Previdência, mas recuperação da imagem do presidente pode fortalecer rival na disputa do Planalto em 2022

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