Biografia da primeira-dama de Jango mostra motorista arrojada e exímia atiradora

Livro de Wagner William traz trechos do diário de Maria Thereza Goulart

Porto Alegre

A biografia de Maria Thereza Goulart, viúva do ex-presidente João Goulart, o Jango, deposto no golpe de 1964, é consequência de um trabalho intenso de pesquisa do jornalista Wagner William, ao longo de 13 anos.

“Uma Mulher Vestida de Silêncio” (Record) contou com mais de cem entrevistas, centenas de documentos e acesso ao diário da primeira-dama. O esforço resultou em uma obra que traz detalhes inéditos ou pouco explorados sobre a vida da gaúcha de São Borja que virou primeira-dama aos 23 anos.

Maria Thereza Goulart em 1963, quando era primeira-dama do Brasil
Maria Thereza Goulart em 1963, quando era primeira-dama do Brasil - Folhapress

A hora é propícia para dar voz a uma mulher, valorizando o protagonismo feminino. Um dos méritos da biografia é não abordar Maria Thereza apenas como a jovem e bonita primeira-dama, que estampava capas de revistas daqui e no mundo.

A narrativa não comete o erro de vê-la como “bela, recatada e do lar”, embora fosse isso também.

O trabalho mostra que Maria Thereza escrevia poesia, atirava (melhor que Jango), dirigia (em alta velocidade, inclusive competia) e também era o que hoje chamamos de empreendedora (teve uma boutique em Buenos Aires).

Maria Thereza esteve ao lado de Jango no histórico discurso na Central do Brasil, diante de milhares de pessoas, em 13 de março de 1964. Naquela época, ainda era incomum a participação feminina em atos desse tipo.

“Só vão surgir mulheres líderes na década de 1980. Aquilo foi muito simbólico. Tive a sorte de entrevistar pessoas que estavam lá e todos tiveram olhares para ela”, explica o autor.

A obra traz revelações sobre “João e Maria” (título do primeiro capítulo). Sobre João, são inúmeros detalhes inéditos, especialmente do ano de 1961, nos dias que antecederam sua posse após a renúncia de Jânio Quadros.

O ano de 1976, o último da vida de Jango, também traz informações até então desconhecidas. O biógrafo conseguiu até guardanapos com recados de Jango com seus “despachos” para viabilizar a mudança para Paris.

Sobre Maria, a biografia revela que a primeira-dama foi impedida de entrar no Brasil para acompanhar os enterros dos seus pais. Ela chegou a ser ameaçada de prisão caso atravessasse a fronteira de balsa.

Mas não foram as únicas “humilhações”, como a própria diz, sofridas por Maria Thereza Goulart. Ela foi presa no Uruguai, levada a uma delegacia no interior onde ficou incomunicável –um policial pediu suborno para autorizar uma ligação.

No Brasil, ao viajar com a prima, também foi presa, desta vez pelo Exército brasileiro, em Rio Grande (RS). Ela foi levada em um jipe e obrigada a tirar a roupa, fato que nunca contou a Jango para não aborrecê-lo ainda mais.

A prisão contou com uma policial uruguaia, indício de colaboração entre as ditaduras vizinhas, na chamada Operação Condor.

Quando Maria Thereza foi autorizada a se vestir novamente, “vestiu a calcinha e o sutiã e abaixou-se para pegar a roupa”, conta o biógrafo. “Foi quando viu vultos na única janela que havia na sala. Outras pessoas a observavam."

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