Descrição de chapéu Governo Bolsonaro DeltaFolha

Bolsonaro ganha mais apoio com ataques e críticas em seus tuítes

Análise de postagens mostra que os conteúdos pessoais também têm engajamento maior

Marina Gama Cubas
São Paulo

Desde que assumiu a Presidência da República, Jair Bolsonaro (PSL) tem publicado em seu Twitter mais posts com anúncios referentes a seu governo do que ataques e críticas. Apesar disso, foram seus tuítes com carga emocional e conteúdos mais combativos que tiveram mais apoio na rede social.

Levantamento da Folha categorizou 385 postagens da conta do presidente nos 70 primeiros dias de governo. Essa análise constatou que 46% delas trataram de anúncios com planos e propostas de governo (ainda que boa parte desses tuítes trouxessem apenas planos genéricos). 

Outras 22% foram saudações e agradecimentos e em apenas 16% delas predominaram as críticas ou ataques.

O cenário é diferente se considerado o que mais fez sucesso na rede. Post com temática pessoal —sobretudo aqueles em que Bolsonaro tratou sobre seu estado de saúde— teve em média 54% mais likes do que postagens com característica de anúncio.

O mesmo aconteceu com o engajamento alcançado nos conteúdos com crítica e ataques: esse tipo de publicação supera em 35%, na média, tuítes de declarações e anúncios.

O levantamento considerou apenas os tuítes em que Bolsonaro escreveu algo —retuítes sem comentários, postagens apenas com links e emojis foram desconsiderados.

O post "O que é golden shower?", publicado logo depois do Carnaval, é o tuíte de Bolsonaro com maior número de likes. Ele e a postagem-irmã, que veículava um vídeo com cenas obscenas e crítica à festa, fez com que o presidente entrasse nos trend topics (temas mais comentados) da rede social com a hashtag #GoldenShowerBolsonaro.

Ambos tuítes foram apagados no mês passado, após repercussão negativa —a publicação foi criticada tanto pela cúpula militar como por líderes partidários. A defesa dos dois homens retratados no vídeo também havia ingressado com pedido de mandado de segurança no STF (Supremo Tribunal Federal) requerendo a exclusão das imagens da conta do presidente.

Para Pablo Ortellado, professor da USP e coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, a dinâmica da disseminação do conteúdo nas redes sociais é distinta da comunicação em massa, mais comumente usada pelos chefes de governo para alcançar a população.

"Essa linguagem mais agressiva combina muito com rede social porque ela estimula no receptor da mensagem sentimentos fortes que faça ele apertar o botão de curtir ou reencaminhar", diz.

Seguida ao tuíte do golden shower, aparece no ranking de maior número de curtidas a mensagem "Feliz 2019", postada na conta do presidente no primeiro dia do ano.

Naquele período, a taxa de aprovação ao governo Bolsonaro chegava a 49%, segundo pesquisa do Ibope. Desde então, a popularidade caiu e, em março, só 34% consideravam a gestão boa ou ótima, de acordo com o instituto.

Já a postagem com mais likes na categoria declaração/anúncio só aparece no ranking depois de 12 outros tuítes --quatro deles de críticas ou ataques, sete de saudações e um com conteúdo pessoal. 

O post de anúncio/proposta com mais likes, publicado em 3 janeiro, foi: "Rapidamente atrairemos investimentos iniciais em torno de R$ 7 bi, com concessões de ferrovia, 12 aeroportos e 4 terminais portuários. Com a confiança do investidor sob condições favoráveis à população resgataremos o desenvolvimento inicial da infraestrutura do Brasil".

O estilo de Bolsonaro no Twitter lembra muito o do presidente dos EUA, Donald Trump, a quem o mandatário brasileiro nunca escondeu a admiração. Assim como o norte-americano, ele tem dado especial atenção a uma comunicação sem intermediários por meio das redes sociais.

Nos primeiros 70 dias de governo, Bolsonaro foi mais assíduo nessa rede social que o próprio Trump no mesmo período referente a sua gestão. Enquanto o presidente dos EUA tuitou e retuitou 365 vezes, o brasileiro interagiu 58% mais (577).

"Numa comunicação de massa não importa o que você fala, a TV vai veicular e o jornal vai imprimir. Mas na mídia social você depende que a pessoa que receba passe adiante. E ela só vai passar adiante se aquilo estiver mexendo com o sentimento dela. Se ela estiver indignada, com medo ou entusiasmada", diz Ortellado, que é colunista da Folha.

O pesquisador do Insper Pedro Burgos pondera que o algoritmo do Twitter pode influenciar que os posts com engajamento grande se mantenham em um alto ritmo. Tuítes com mais engajamento ficam em destaque para os usuários da rede social. 

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