Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Bolsonaro segue em alta em cidade com 52% de evangélicos no Maranhão

Em São Pedro dos Crentes, a 760 km de São Luís, presidente teria sido eleito no primeiro turno

Centro de São Pedro dos Crentes, cidade que não tem agência do Banco do Brasil, mas dez igrejas evangélicas
Centro de São Pedro dos Crentes, cidade que não tem agência do Banco do Brasil, mas dez igrejas evangélicas - Fábio Zanini/Folhapress
Fábio Zanini
São Pedro dos Crentes (MA)

No mapa eleitoral do Maranhão, há um pontinho amarelo num estado tingido de vermelho. É São Pedro dos Crentes, cidade de 4.600 moradores a 760 km de São Luís em que Jair Bolsonaro (PSL) teria sido eleito no primeiro turno, com 50,93% dos votos. 

No segundo turno, o presidente ampliou sua vantagem, para 57,5% dos votos válidos. 

Em comparação, no Maranhão Fernando Haddad (PT) teve 73,2%. 

A cidade no sul do estado tem características únicas. A mais óbvia, como o próprio nome diz, é sua proporção de evangélicos. Segundo o IBGE, são 52% na cidade, contra média nacional de 29%. Mas os moradores dizem que esse dado, do censo de 2010, está subestimado, e que os evangélicos são pelo menos 70%. 

São Pedro dos Crentes não tem agência do Banco do Brasil (algo raríssimo no país), mas tem dez igrejas evangélicas em sua meia dúzia de ruas. Nos estabelecimentos comerciais, é comum haver uma passagem bíblica pintada na parede. Há três botecos atendendo à minoria de "desviados", como são chamados os não evangélicos, mas estavam fechados nos dois dias em que a Folha esteve por lá, em março. 

As pessoas são conservadoras, bolsonaristas e não gostam da esquerda. O governador do Maranhão, Flávio Dino, do PC do B, que foi reeleito no primeiro turno com quase 60% dos votos, ali teve míseros 14,75%. 

 

"A sociedade aqui não aceita muito as modernidades", diz o prefeito, Lahésio Rodrigues, 40, um tucano que abandonou o candidato de seu partido, Geraldo Alckmin, já no primeiro turno e apoiou Bolsonaro. Ele cita entre as "modernidades" o aborto, o casamento gay e a ideologia de gênero nas escolas. 

A história do local é "sui generis". Foi criada a partir da Assembleia de Deus, maior denominação evangélica do país e que domina a vida política e social do município. "A igreja normalmente surge da cidade, aqui a cidade surgiu da igreja", diz o pastor Manoel Lima de Souza, titular do maior local de culto do município. 

Para o pastor, pregar numa cidade de convertidos não necessariamente é fácil. "Aqui as pessoas conhecem a Bíblia, inclusive crianças, que vão à escola dominical aprender sobre ela. Tenho que me preparar bem para falar com todos", diz. 

Na década de 1940, a fazenda São Pedro, de propriedade da Assembleia de Deus, foi divida em lotes doados para família evangélicas que vieram de fora colonizar a região, dando origem a uma vila. Em 1994, virou município. 

As principais ramificações da Assembleia estão representadas na cidade: Madureira, Convenção Geral, Seta, Guará e Comadesma (um ramo local). Mantêm uma relação cordial, mas competem intensamente por fiéis. Há uma solitária Igreja Católica. 

 

Lavrador aposentado, Pedro Damasceno, 73, é uma espécie de historiador informal do município. "Quando isso aqui surgiu, crente era besta-fera", lembra ele, que chegou criança ao povoado. "Hoje, é uma cidade abençoada por Deus", diz. 

Ele afirma que votou em Bolsonaro porque sua candidatura está de acordo com a Bíblia. "Notei que ele fala muito a favor de Israel", diz. Também gostou do slogan do então candidato, que menciona "Deus acima de todos". 

A cidade é relativamente pobre, com Índice de Desenvolvimento Humano de 0,60 numa escala de 0 a 1 (a média do Brasil é 0,69), mas isso não é aparente na zona urbana. 

As ruas são limpas e asfaltadas e não há mato para ser cortado. A estrutura de saúde é boa, com um hospital grande e equipado, e o comércio é surpreendentemente pujante. 

A base da economia é a agricultura familiar e a pequena pecuária. O sul maranhense, que fica numa zona de transição entre o Cerrado e a Amazônia, é grande produtor de soja. Parte da população trabalha em lavouras maiores, em municípios vizinhos. 

Na cidade, o presidente mantém a popularidade, mesmo após os escândalos e as idas e vindas do seu governo. Mas as pessoas se dizem atentas. "Espero que ele honre o que prometeu, os valores que defendeu. A confiança nele nunca pode ser total", diz o pastor Rondinei Neiva, 40, da Assembleia de Deus-Guará.

Há quatro meses, São Pedro recebeu o que seria a versão local de um Carrefour ou Wal-Mart: um supermercado que vende comida, roupas e autopeças. Seu dono, Neurivan Jorge, 43, traz produtos de cidades maiores como Balsas e Imperatriz e diz que não costumam encalhar. 

"Está melhor o movimento este ano", diz ele, evangélico que votou em Bolsonaro. "Se o presidente diminuir um pouco a corrupção, já é um adianto", afirma. Para melhorar seu negócio, ele pede duas coisas: estradas melhores (as que levam ao município são repletas de buracos) e uma agência bancária. 

Uma vez por mês, um carro-forte traz dinheiro para o único caixa eletrônico da cidade (do Bradesco) e para a agência do Banco Postal, que representa o Banco do Brasil. O dinheiro acaba rápido. 

Pelo menos de uma coisa os comerciantes da cidade não podem se queixar. Episódios de violência são praticamente inexistentes. Não há delegacia de polícia, apenas um destacamento da PM. 

"Há pequenos furtos e de vez em quando algum caso de Maria da Penha [agressão a mulher]", disse o soldado Wellington, que chefiava o posto quando a reportagem esteve na cidade. 

Para ele, o alto índice de evangélicos contribui para o local ser tão pacífico. "Aqui dá um certo tédio. A gente sai pilhado da academia de polícia, vir pra cá é meio frustrante. Não acontece nada", diz.

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