Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Mourão muda discurso radical com treinamento de mídia e objetivos políticos

Polêmico na campanha, vice-presidente incomoda família Bolsonaro com falas moderadas

Thais Bilenky
Brasília

A modulação do discurso do general da reserva Hamilton Mourão (PRTB), de teor radical quando estava na ativa no Exército, polêmico na campanha e moderado na Vice-Presidência, é resultado de um misto de orientação e instinto.

Auxiliares que trabalharam na eleição, na transição e no governo dizem que Mourão é convicto de suas opiniões, mas, antes disso, sensível para perceber o vento e ágil para se adequar a novos tempos.

Não se trata apenas de opiniões sobre aborto (que seja decisão da mulher) ou Venezuela (contra intervenção militar). Há por trás de seus contrapontos ou divergências em relação ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) recados e objetivos políticos. ​

O vice-presidente Hamilton Mourão, durante cerimônia no Palácio do Planalto
O vice-presidente Hamilton Mourão, durante cerimônia no Palácio do Planalto - Adriano Machado/Reuters

A postura do vice causou ira na ala do governo ligada ao escritor Olavo de Carvalho, que vê nela interesses em derrubar o presidente. Seus filhos Eduardo e Carlos, este último especialmente, foram a público atacar Mourão. O vice está abatido, dizem aliados, chateado e irritado com a proporção que o caso tomou. Nesta quarta (24), alvo de novas críticas de Carlos, Mourão disse a jornalistas: "Vira a página".

Diante da crise, há na mesa da Vice-Presidência algumas recomendações. Entre outras, sugeriu-se que ele deixe a gritaria com os detratores, busque alinhamento de discurso com Bolsonaro ou exponha de forma franca o confronto.

Caso Mourão opte pela terceira via, ficará clara a sua insatisfação com o papel que lhe foi atribuído por Bolsonaro.

Mourão sempre disse que não queria ser um vice decorativo. Sugeriu ter uma função de coordenador de ministérios, mas não foi atendido. O seu partido, PRTB, se frustrou por ter só dez cargos no governo.

Mas a atitude de independência não se deve só a objetivos políticos específicos. Mourão passou por intensivão de treinamento de mídia.

Na campanha, declarações causaram polêmicas, e começou o enquadramento.

Na primeira agenda pública depois de ser oficializado vice de Bolsonaro, em agosto, Mourão foi acusado de racista.

"Temos uma certa herança da indolência, que vem da cultura indígena. Eu sou indígena. Meu pai é amazonense. E a malandragem é oriunda do africano", declarou no RS.

Sem equipe de comunicação própria, Mourão ouviu a assessoria de imprensa do PRTB, que correu para apagar o incêndio com referência ao contexto da herança cultural.

Em setembro, ele voltaria a causar rebuliço ao defender que o Brasil elaborasse uma nova Constituição, mas não necessariamente por Assembleia Constituinte, e sim por um conselho de notáveis.

De novo a assessoria correu para tentar convencê-lo a recuar. Desta vez, ele bateu o pé. Interlocutores dizem que até hoje crê nesse modelo.

Já na véspera do primeiro turno, em outubro, Mourão voltou à cena. "Meu neto é um cara bonito, viu ali? Branqueamento da raça", comentou.

No dia seguinte, concordou com assessores que era preciso se recolocar. "Eu fui idiota, porque eu brinco e as pessoas não entendem o que é uma brincadeira e o que não é."

Eleito vice de Bolsonaro, Mourão passou a ter rotina de briefings e treinamento midiático, como é costume entre autoridades de alto escalão.

No início da noite, reunia-se com assessores para uma preparação para a próxima jornada. Recebia sugestões sobre como abordar os assuntos esperados para o dia seguinte e um resumo do que seria tratado em suas audiências. De manhã, mais uma sessão.

Segundo testemunhas, Mourão estava sempre bem informado e era de poucas perguntas. Em vez de apontar discordâncias e aspectos negativos, Mourão foi instruído a ressaltar aquilo que aprovava naquele assunto.

Ao ocupar o anexo 2 da Presidência, onde fica o gabinete do vice, Mourão completou o processo de institucionalização. Segundo auxiliares, foi rápido ao entender a liturgia de sua função e a necessidade de falar para 200 milhões de cidadãos, em postura diversa da de Bolsonaro, que manteve o tom de campanha.

Mourão passou a usar como referência para seus comentários a legislação ou o entendimento acordado no país. É o caso do aborto (o que a lei prevê deve ser respeitado), a Venezuela (Brasil é signatário de acordos que vetam intervenções), o ex-deputado do PSOL Jean Wyllys (todo cidadão tem de ter seus direitos individuais preservados).

Em março, já com dois meses no cargo, Mourão mostrou que não seria tão completamente domesticado. Questionado sobre críticas de Olavo de Carvalho, ele mandou um beijo, se negando a comentar. "Beijinhos, pô", despediu-se.

Antes de entrar para a vida política, Mourão se envolveu em casos rumorosos no Exército ao chamar de herói o coronel Carlos Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador, e ao sugerir uma intervenção militar para resolver a crise política.

Questionado sobre tais declarações, Mourão costuma dizer que foram tiradas de contexto e que nunca teve ímpetos antidemocráticos.

Próximo de Mourão, o general Sérgio Etchegoyen afirma que o vice tem uma visão ponderada do mundo. "Sempre foi assim. Agora, ele é um homem de opiniões firmes e contundente. A característica dele é coragem moral. Quem não souber lidar com isso não vai entendê-lo", afirmou o ex-ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional).

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