Mulher de Doria marca território em Brasília com doação de obras à Câmara

Marido dela, atual governador de SP é postulante para o Palácio do Planalto em 2022

Thais Bilenky
Brasília

No ano eleitoral de 2016, João Doria (PSDB) dava a largada em sua carreira política, cujo destino final pode ser Brasília. Mas não estava sozinho. Sua mulher, Bia, também marcava território na capital.

Naquele ano, ele se elegeria prefeito de São Paulo. Ela, artista plástica, montou uma exposição temporária na Câmara, “Bailarinas da Natureza”, de esculturas inspiradas em árvores, no Salão Negro.

“Para um artista, é um orgulho estar na Câmara”, disse a primeira-dama à Folha

Bia Doria com o marido João Doria (PSDB), governador de São Paulo
Bia Doria com o marido João Doria (PSDB), governador de São Paulo - Greg Salibian/Folhapress

Satisfeita com a iniciativa, resolveu doar duas de suas peças à Casa, Labirinto I e II, ambas em madeira. 

O Centro Cultural da Câmara aceitou e as incluiu em seu acervo, ao lado dos painéis “Candangos”, de Di Cavalcanti, e “Ventania”, de Athos Bulcão, entre outros.

Bia quis mais. Soube que a direção da Câmara fazia uma área recreativa na quadra onde ficam os apartamentos funcionais dos deputados e se dispôs a doar uma terceira peça para enfeitá-la. Voltou para São Paulo, escolheu uma escultura que não fosse de madeira para não estragar ao ar livre, embalou e despachou em um caminhão, tudo às suas custas, afirma. 

Depois não se ocupou mais da questão. “Nunca fui ver. Quer dizer, fui instalar, mas não sei nem em que quadra está”, declara.

“Ela não foi na inauguração, estava no exterior”, lembra o ex-deputado Alex Canziani (PTB-PR), à época quarto-secretário da Câmara, responsável pelas moradias dos deputados e, por isso, seu 
interlocutor.

“Eu a encontrei na Câmara, e ela falou que queria fazer uma doação de uma obra. Falei ‘faz para a quadra, então’, e ela topou”, diz Canziani.

O processo de aquisição e exposição de arte na Câmara é técnico, mas a programação é submetida à Presidência da Casa, à época exercida por Eduardo Cunha (MDB-RJ), hoje preso pela Lava Jato.

“Ela queria uma aproximação ali com o Eduardo”, afirma Canziani. Bia diz não lembrar com quem tratou e que Doria, hoje governador de SP, não se envolveu.

Escultura doada pela artista Bia Dória, esposa do governador de SP João Dória, para a câmara dos deputados. A obra está colocada na superquadra 302 norte, em Brasília, quadra onde estão apartamentos funcionais dos deputados
Escultura doada pela artista Bia Dória, esposa do governador de SP João Dória, para a câmara dos deputados. A obra está colocada na superquadra 302 norte, em Brasília, quadra onde estão apartamentos funcionais dos deputados - Pedro Ladeira/Folhapress

A exposição do trabalho da primeira-dama em Brasília não para por aí. Ela calcula ter vendido cerca de dez obras para clientes privados na cidade e mais uma ou outra que deu a instituições.

“Já doei tantas, meu amor. Já fiz monumentos para hospitais, para aquele centro de recuperação... Já doei um para o hospital da Kubitschek, da Márcia, uma arte de parede”, disse, confundindo-se. A ex-primeira dama Sarah Kubitschek dá nome à Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação. Seu marido, o ex-presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961), inaugurou Brasília, em 1960.

O marido de Bia trabalha para ocupar o mesmo Palácio do Planalto como mandatário da nação. A artista diz nunca ter pensado em morar na capital. Mas declara que a admira. “Essa cidade planejada é maravilhosa, tem muito espaço para arte”, comentou.

A artista diz que curte o ar seco do cerrado, suas árvores de troncos retorcidos, as avenidas largas e arborizadas e as ciclovias. 

“Não tem trânsito, você pode andar na grama, adoro aí [Brasília]. Você não consegue andar aqui em São Paulo de bicicleta como você anda aí”, comparou. Seu marido pouco investiu na ciclovias construídas pelo antecessor na prefeitura, Fernando Haddad (PT).

Na qualidade de artista, Bia aprovou a polêmica e investigada reforma que Doria fez no Palácio dos Bandeirantes, cobrindo a madeira característica de muitos ambientes com tinta preta.

“Ficou maravilhoso, o palácio estava precisando, estava muito feio”, opinou. “Agora você consegue entrar lá”, comentou a primeira-dama.

Ainda achando que voltará à vida privada quando acabar o primeiro mandato de seu marido no Governo de São Paulo, ela diz que tenta manter o trabalho como artista vivo, apesar do tempo dedicado ao Fundo Social de Solidariedade do estado.

“Daqui a quatro anos tenho que voltar a pagar conta. Voltar, não, continuar pagando minhas contas”, justifica. “Diminuí muito minha produção, mas, como tinha estoque, dá para segurar.”

A primeira-dama paulista disse que não lembra o valor estimado das obras doadas nem o custo do transporte. Afirmou que não sabia de cabeça os clientes privados que adquiriram peças suas. Ficou de olhar o seu catálogo, mas não retornou mais.

 

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