Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Amoêdo critica 'polêmicas desnecessárias' de Bolsonaro e morosidade do Congresso

Ex-presidenciável roda país divulgando seu partido, o Novo, de olho na eleição de 2020

Joelmir Tavares
São Paulo

​Pouco depois de encerrar sua campanha presidencial (finalizada com uma votação que lhe garantiu o quinto lugar no primeiro turno, com 2,50% dos votos válidos), João Amoêdo voltou à estrada. O presidente do Novo tem andado pelo Brasil para divulgar o partido liberal que ajudou a fundar. No horizonte, a busca por cadeiras de prefeito e vereador em 2020.

Depois de receber a Folha para esta entrevista, na quarta-feira (22), o ex-banqueiro que virou político —e declarou na campanha um patrimônio de R$ 425 milhões— tinha um encontro na zona leste de São Paulo para apresentar as ideias da sigla e tentar atrair novos filiados. Tem feito o mesmo em cidades do interior e em capitais do Nordeste.

Eleitor de Jair Bolsonaro (PSL), que incorporou na campanha a ideologia liberal do ministro Paulo Guedes (Economia), Amoêdo critica o governo pelo excesso de polêmicas e diz que os ruídos comprometem a medida mais urgente para o Brasil avançar, a reforma da Previdência.

O presidente do Novo, João Amoêdo, durante entrevista à Folha
O presidente do Novo, João Amoêdo, durante entrevista à Folha - Gabriel Cabral/Folhapress

Ele acredita que Bolsonaro poderia se inspirar no que Romeu Zema, o primeiro governador eleito do Novo, faz em Minas Gerais desde janeiro. Considerada vitrine para a legenda, a gestão do empresário aposta, segundo Amoêdo, na mesma receita que o presidente deveria seguir: boa relação com o Legislativo e definição de prioridades.

Sobre crises, como o uso de um helicóptero do estado pelo vice-governador Paulo Brant (Novo) ao sair de um spa de luxo, o presidente do partido diz que a sigla está em processo de aprendizado, que pode até errar, mas está "fazendo muitas coisas certas".

O Novo se posicionou contra os atos pró-governo deste domingo. Por quê?  Nossos filiados e apoiadores são livres para escolherem o que fazer. Eu não pretendo ir. Nós, como instituição, não iremos participar e não vemos muito sentido nessa manifestação.

Primeiro porque ela tem pautas muito difusas: apoio à reforma da Previdência, defesa de Bolsonaro, contra o Supremo, contra o Congresso. Segundo que o apoio popular o governo já tem. Conquistou nas urnas. O que falta é capacidade de coordenação e de interlocução para avançar nas principais medidas.

Sente adesão ao movimento?  É difícil saber, mas eu tendo a achar que não será alta. Para o governo, é uma armadilha. Se a adesão for baixa, começa a haver um questionamento do cacife eleitoral. Não fortalece o governo.

Pesquisas vêm mostrando uma corrosão no apoio ao governo Sempre se cria uma expectativa muito maior do que a capacidade de entrega. Então é natural que haja uma queda da popularidade. E esse governo em especial acabou se envolvendo em muitas polêmicas desnecessárias.

Com isso, na atividade econômica, houve uma certa frustração em relação à velocidade das mudanças e da nossa retomada de crescimento.

O sr. foi um dos que se frustraram?  Não, porque na verdade eu nunca alimentei grandes expectativas em relação ao governo. No fundo, tinha-se uma demanda muito grande pela retirada do Partido dos Trabalhadores.

O sr. declarou voto em Bolsonaro porque ele era o candidato anti-PT?  Certamente. Era melhor arriscar alguma coisa que tivesse mudança.

Eu não tinha convicção do presidente quanto às pautas liberais nem sobre a capacidade de liderar um time. É claro que, passada a eleição, a gente quer trabalhar para as coisas darem certo. A bancada do Novo, por exemplo, tem sido muito atuante na defesa da reforma da Previdência. Mais até que a do PSL.

Se o sr. estivesse no lugar dele, enfrentaria dificuldades semelhantes, como a falta de um partido forte para sustentá-lo. O que faria de diferente?  A primeira coisa que eu faria seria selecionar as pautas prioritárias. E eu colocaria a reforma da Previdência como a número um, estaria falando disso a todo momento, mostrando para as pessoas que o sistema, além de insustentável, é injusto.

O segundo ponto seria ter uma equipe muito alinhada, sem desavenças, em que a gente não ficasse falando de coisas que não interessem, não ficasse ouvindo opiniões de pessoas que não estão participando do governo e estão dando palpites a todo momento.

Em terceiro, diálogo com o Congresso. O tamanho da resistência você só sabe na prática, né? Mas acho que esse é um roteiro que parece ter mais chance de sucesso do que abrir tanta polêmica. Eu não teria aberto uma polêmica na área da educação contra a parte ideológica nesse primeiro momento. 

Abriria em algum momento?  A gente sabe que há uma certa doutrinação em alguns níveis no ensino. Mas essa não deve ser a prioridade do governo, enquanto, na prática, a educação no nível básico é péssima. A minha ideia é a seguinte: à medida que as pessoas vão tendo uma educação melhor, elas ficam muito menos suscetíveis a uma doutrinação ideológica.

O texto compartilhado pelo presidente que fala sobre um Brasil ingovernável sem conchavos foi escrito por um filiado do Novo do Rio de Janeiro. O sr. concorda com essa ideia?  Não acho que seja [ingovernável]. Alguém que está dentro das instituições não deveria comungar dessa ideia. Quando o presidente dissemina isso, dá um caráter oficial. Não é razoável para alguém que precisa ter responsabilidade institucional. E as pessoas mais próximas, os filhos, infelizmente não ajudam nesse processo.

O sr. descobriu o que é a nova política?  A nova política, no nosso entendimento, era trazer novos líderes, com novas ideias e posturas, que entendam que estão lá para dar uma contribuição temporária.

O governo Bolsonaro pratica a nova política?  Em alguns casos, sim, como [os ministros] Paulo Guedes e Sergio Moro. Cito também o [secretário especial de desestatização] Salim Mattar. Pessoas qualificadas e preparadas, que certamente estão recebendo menos do que na iniciativa privada. Agora, tem outros que não [praticam].

Quem?  Olha, aí são aqueles que estão na política há muito tempo e que ainda... E eu entendo que as pessoas no Congresso Nacional que são contra a reforma da Previdência estão fazendo mal para o Brasil.

Qual é o gargalo da relação do governo com o Congresso e o que precisa ser feito?  Falta maior diálogo e faltam líderes do governo que façam a ponte. Um partido precisa ter alguma unidade interna. Sinto falta disso na bancada do PSL. Volta e meia, você vê discussões em redes sociais, polêmicas entre eles, intrigas.

E há uma questão subliminar no Congresso que é: esses representantes que estão eleitos estão se sentindo responsáveis por colocar o Brasil nos trilhos ou há negociações paralelas e a melhora do país não é uma prioridade? Isso é muito ruim para outras coisas, né? Essa morosidade dá uma insegurança em relação aos outros temas.

Para o retorno do investimento, basta a reforma da Previdência?  Ela é o primeiro passo, mas é relevante. Acho que cria um ambiente positivo.

O presidente hoje não defende essa bandeira da forma como deveria fazer?  Deveria defender mais. Deveria usar todo o respaldo que ele tem e o acesso às mídias para enfatizar a necessidade da reforma.

E por que ele não faz isso? Não sei. Talvez ele tenha muitas pautas na cabeça. Talvez entenda que o trabalho dele foi feito ao entregar o projeto para o Congresso.

É uma pauta polêmica, que enfrenta resistências.  Sim. Cabe ao governo fazer com que deixe de ser um assunto polêmico e passe a ser simples.

O sr. tem arrependimento ou faria algum mea-culpa por ter votado em Bolsonaro?  Não, porque a permanência do PT seria muito ruim para o Brasil. A gente vinha de anos de recessão, muitos esquemas de corrupção.

E as denúncias que envolvem o senador Flávio Bolsonaro (PSL), filho do presidente?  A melhor forma era que isso fosse investigado o mais rápido possível. O ministro do Turismo [Marcelo Álvaro Antônio] eu acho que deveria ter sido afastado. São polêmicas que ele [Bolsonaro] não precisa ter. Isso faz com que a gente perca tempo, o que significa mais crianças saindo da escola sem saber direito, mais gente que não consegue ser atendida no hospital, mais gente sem emprego.

O Novo é contrário ao Estatuto do Desarmamento, mas o sr. faz reparos à política de desarmamento do atual governo.  Nós não entendemos que o porte ou a posse de arma seja um projeto de segurança do país. O presidente deveria ter deixado essa discussão para depois. E realmente não vejo necessidade nenhuma de um cidadão comum precisar comprar um fuzil. Tanto é que o governo voltou atrás.

O sr. tem ido a Minas pelo menos uma vez por mês para monitorar o governo Zema. Que avaliação faz da gestão até agora?  Acho que está avançando, mas sempre há um processo de aprendizado. Agora ele tem um grande teste, que é passar o plano de recuperação fiscal na Assembleia.

Que receita ele deve adotar nessa negociação com a Assembleia?  Ele sempre divide os méritos das conquistas com o Legislativo e tem grande diálogo com o presidente da Assembleia [que é do PV]. E o que o diferencia em relação ao governo federal é realmente ter claras as prioridades.

Então Zema é o anti-Bolsonaro?  [risos] Não, eu diria que o Zema é um ótimo gestor. E outra coisa é que ele tem uma equipe de secretários muito unida. Acho que ele é um exemplo a ser seguido, de mais diálogo e menos polêmica.

No rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, Zema chegou à cidade e disse que ali seriam resgatados somente corpos. Foi um erro?  Faz parte do aprendizado e, muitas vezes, você tem que lembrar... Era um momento delicado, provavelmente ele estava muito impactado. Ele depois não fez mais coisas desse tipo. Acho que foi um pequeno deslize.

Quando o vice-governador Paulo Brant (Novo) usou um helicóptero do governo de Minas depois de uma folga em um spa de luxo para ir até um compromisso, o sr. publicou em uma rede social que não havia tido "nenhuma nota" sobre iniciativas positivas do partido e que bastou um episódio para o Novo ser chamado de "igual aos demais". Culpar a imprensa não é uma retórica dos chamados políticos tradicionais?  Não. A imprensa tem o papel dela, mas, assim como os políticos e os gestores, ela também deve poder receber críticas, até para melhorar.

Nesse episódio, ele [Brant] explicou, talvez até tenha se arrependido depois. Não basta fazer as coisas certas, tem que demonstrar estar certo também. O que me chamou a atenção é que era uma coisa muito pequena, e várias coisas maiores e produtivas que o Novo faz eu não vejo sendo noticiadas. Meu pedido é: a gente pode errar, mas estamos fazendo muitas coisas certas.

Ficou algum aprendizado desse caso?  O Novo prega a coerência e a transparência. A gente está sempre sob lupa. Existe um peso em cima do Novo muito grande, porque a gente é diferente dos demais. Mas não acho ruim essa vigilância extrema. Faz com que o partido cresça mais sólido.

Na montagem do governo, Zema manteve ou convidou pessoas que participaram de governos do PT e do PSDB. Como o sr. vê isso?  Achei salutar. No Brasil, infelizmente, os bons projetos são abandonados porque um governante não quer legitimar o legado do antecessor. Não é razoável a gente deixar de ter pessoas competentes porque elas estiveram em outro mandato. A gente aceitou esse risco de imagem para ter um ganho na eficiência na gestão pública.

Que metas o Novo tem para a eleição do ano que vem?  Pretendemos lançar candidaturas em todas as cidades onde o partido tenha pelo menos 150 filiados ativos até o dia 15 de junho deste ano. Já abrimos o processo seletivo para 22 cidades que preenchiam o requisito.

O que será muito positivo é que poderemos participar dos debates na TV, porque agora temos uma bancada com oito deputados federais [acima do patamar mínimo para garantir a presença], e continua havendo uma demanda por gente nova na política. Acho que a gente será competitivo.

O sr. será candidato novamente?  Em 2020, não pretendo de forma nenhuma. E 2022 ainda não pensei sobre o assunto.

O sr. pedirá recontagem de votos, como sugerem as piadas na internet, depois que diversos eleitores arrependidos de Bolsonaro passaram a dizer que votaram no sr.?  [risos] Isso eu levo na esportiva, né? Do ponto de vista prático, eu não tenho dúvida de que perdi uma quantidade muito grande de votos porque transformaram o primeiro turno num segundo turno.

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