Crise de desinformação tornou urgente realçar valores jornalísticos, diz pesquisadora americana

Sally Lehrman veio ao país lançar o Credibilidade, capítulo brasileiro do Trust Project

São Paulo

A jornalista americana Sally Lehrman se levantou, a certa altura da entrevista, para ver de onde vinha tanto barulho de helicóptero. Era da cracolândia, no centro de São Paulo, onde havia uma operação policial na quinta (9).

Lembrou então que acaba de lançar “Reporting Inequality: Tools and Methods for Covering Race and Ethnicity” (Reportando Desigualdade: Ferramentas e Métodos para Cobrir Raça e Etnia), obra que poderia interessar os jornalistas brasileiros.

Ela viajou ao Brasil para a entrada da Folha e de outros veículos no Projeto Credibilidade (Trust Project), que iniciou em 2014 e dirige na Universidade Santa Clara, tradicional instituição jesuíta no Vale do Silício, na Califórnia.

Repórter premiada, cobriu ciência e biotecnologia para veículos como Scientific American e, apesar de sua dedicação ao programa, diz: “Não pendurei o boné”.

Homem de microfone na mão fala em sala de aula
A jornalista americana Sally Lehrman, diretora do Trust Projetc, lançado nesta semana no Brasil como Projeto Credibilidade - Divulgação/Juliana Farinha

Como você vê o impacto do Projeto Credibilidade nas organizações jornalísticas ao longo destes cinco anos?
Nós tivemos diversos tipos de impacto. Podemos falar do impacto sobre a maneira como as organizações jornalísticas operam, sobre como as plataformas de tecnologia usam os indicadores de credibilidade e sobre os usuários.

Os indicadores emergiram da pesquisa com usuários, na Europa e nos EUA. Perguntamos: “O que você valoriza mais nas notícias? Quando acredita e quando não?”. Ficamos acompanhando seus hábitos e fomos aos executivos de jornalismo: “Isso é o que os usuários valorizam, vamos confrontar isso com os valores jornalísticos?”. Em oficinas, chegamos a esses indicadores. Eu sabia que precisávamos de definições, mas então os editores trouxeram essa proposta dos indicadores. Começamos com 37, depois concentramos em oito, sobre ética, propriedade, correções, diversidade de vozes e assim por diante.

A ideia era mostrar isso aos usuários nas suas páginas e que, nas plataformas, as máquinas pudessem ler esses indicadores. Eles são sinais de confiança por trás do veículo e são formas de habilitar o público a tomar decisões sobre em que confiar ou não. E ajudam as plataformas a destacar qualidade.

Você percebeu mudanças nos veículos?
O que nós vemos agora é que temos esse consórcio internacional de organizações jornalísticas conversando sobre os fundamentos do jornalismo. Estimulando e apoiando umas às outras, desenvolvendo políticas e práticas mais avançadas.

Você vê, por exemplo, correções com destaque. Alguns resistem, mas, ao ver em outros, concluem que isso pode se tornar prática comum, também para eles. Vira uma maneira clara de distinguir o jornalismo, como o fato de que, quando erramos, nós corrigimos. Outros tipos de informação não se importam sequer em checar antes de divulgar. Temos emissoras de TV perguntando a veículos mais focados em texto quando é que eles decidem por uma correção, porque a TV não tem um histórico maior de correções.

O projeto foi capaz de levar todos esses parceiros de diferentes áreas a realçar práticas jornalísticas, a ir ao centro do que é jornalismo e como ele se diferencia em meio a tanta informação à qual as pessoas se expõem na internet. As organizações jornalísticas meio que deixaram as coisas correr no princípio desse espaço digital. Não adotamos uma postura forte afirmando “estes são os nossos valores, isto é jornalismo”.

Dois anos após o início do projeto, houve essa inundação de notícias falsas. Como isso afetou o trabalho? O projeto se adiantou ao que estava vindo?
A razão para iniciá-lo foi que eu vinha ouvindo muito, da parte de editores, a preocupação com o ambiente digital. Sentiam que estava degradando a qualidade das notícias. Tudo parecia a mesma coisa, o leitor não conseguia distinguir jornalismo da venda de sapatos. Minha ideia foi: “Por que esse ambiente faz o mal? Não pode fazer o bem?”. Foi aí que Richard [Gingras, hoje vice-presidente de Notícias no Google] entrou, porque foi uma das pessoas que consultei. Eu também tinha um amigo no Twitter. Ambos disseram: “Bem, pode. Você precisa treinar as máquinas sobre o que procurar”. Começou então esse esforço.

Aí, talvez um ano e meio depois, aconteceu todo o assalto de desinformação, fake news. O que percebi é que aqueles editores anteviram que isso poderia acontecer. Não falavam que vinha uma inundação, mas estavam expondo sua preocupação com o que viam.

Quando aconteceu, deu muito impulso ao projeto, porque até então eu ia de um veículo a outro com argumentos filosóficos. Também ajudou com as plataformas, porque, embora estivéssemos com o Google desde logo e com o Facebook também, um pouco mais tarde, diante desse problema foi possível acelerar o trabalho mais próximo a elas. Sabíamos que, por causa disso, tínhamos que correr.

As plataformas estão no centro do debate sobre fake news.
Sim.

O que mudou nestes cinco anos na percepção delas sobre seu papel? E o que o projeto ajudou a mudar nelas, se é que ajudou?
Não sei se posso levar qualquer crédito por isso. O que eu diria é que talvez as plataformas de tecnologia tenham se tornado mais cientes, com o tempo, pelo fato de haver muita pressão externa sobre elas. Há muita pressão agora para que enfrentem essa situação. O que acho que aconteceu, particularmente no caso do Facebook, é uma consciência de que eles podem usar esses indicadores. Mais do que antes, como no caso dos editores. Quando começamos, era algo como fazer a coisa certa, “temos que fazer isso porque é o correto”. Com o tempo, por causa da crise de desinformação, tornou-se urgente.

Por exemplo, o Facebook começou a mostrar parte dos indicadores, dos atributos de melhores práticas, nas páginas para os usuários. Ainda não está acontecendo no Brasil, mas na News Feed agora surge uma pequena letra i que, se você clicar, vem um painel de contexto com informações sobre a propriedade do veículo, políticas sobre correção, coisas assim.

Com o Google, os indicadores os ajudaram nas diretrizes de classificação, para os [moderadores] humanos que checam a confiabilidade das informações. As plataformas agora falam mais em confiabilidade do que em qualidade. E os indicadores são parte do que buscam, quando se questionam se os sites são confiáveis.

O jornal The Washington Post também está no projeto desde o princípio.
Sim. Foi um dos nossos primeiros, no grupo de desenvolvimento, junto com BBC, Globe and Mail, do Canadá, La Reppublica e La Stampa, da Itália, DPA, a agência alemã. Marty Baron [editor-executivo do jornal] foi do nosso conselho, ajudou a direcionar as linhas gerais, me fez recomendações sobre os indicadores. E o Post tem sido um aliado em muitas frentes, por exemplo, sediando a oficina sobre citações e referências.

Como vocês chegaram aos indicadores?
Na época, tendo trabalhado com jornalismo por bastante tempo, eu queria algo que não viesse só de nós mesmos ou de acadêmicos, dizendo "isso é jornalismo", e sim refletindo o público. Fui inspirada pela abordagem "user-centered design" [desenvolvimento orientado pelo usuário], que conheci na Universidade Stanford como bolsista da Fundação Knight. Você começa com os usuários, pergunta suas necessidades e desejos. Aí pega conecta essa informação com o que está tentando fazer, com seus próprios valores, no caso, jornalísticos. Então, são fundamentos do jornalismo, mas não é uma conversa só entre jornalistas.

As plataformas são importantes na discussão sobre jornalismo hoje, Facebook e YouTube principalmente.
Sim.

Mas ainda mais importante, para países como Brasil, Índia, Indonésia, é o WhatsApp, que tem muito peso no que está acontecendo em informação política. Vocês vêm considerando o WhatsApp?
Sim. Nós começamos com as plataformas mais importantes na distribuição de notícias na época, Facebook e Google. Twitter também. Agora estamos pensando qual é o próximo passo. O WhatsApp, que sabemos como é importante no Brasil, é desafiador. Como podemos nos integrar a ele? Por exemplo, existe uma maneira de o WhatsApp usar análise de rede, sobre como as pessoas estão compartilhando as notícias, e indicar conteúdo mais fidedigno, que siga práticas jornalísticas? 

O WhatsApp é sediado na Califórnia, perto de Santa Clara.
Isso. Vou visitá-los assim que voltar para casa. Não tenho as respostas, mas vamos explorar isso, especialmente tendo vindo ao Brasil. Esta é uma das coisas boas do projeto. Temos excelente jornalismo na Califórnia, mas imagino que a grande vantagem, que podemos usar, é que temos as plataformas de tecnologia.

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