Doria é stalinista ao dizer que quem não concorda deve sair, diz tucano de esquerda

Alvo de processo de expulsão, Fernando Guimarães diz que permanecerá no PSDB

Carolina Linhares
São Paulo

Na última sexta (24), quando o governador João Doria (PSDB) afirmou que está construindo um novo partido e que quem discorda deve pedir para sair, ele fazia referência implícita a Fernando Guimarães (PSDB).

O sociólogo está à frente da corrente Esquerda pra Valer (EPV), que existe no partido desde 1993, e constrói o movimento Direitos Já, Fórum pela Democracia, que reúne dez partidos, incluindo o PT e siglas de esquerda,  em oposição ao governo de Jair Bolsonaro (PSL). 

O sociólogo Fernando Guimarães, que coordena a corrente Esquerda pra Valer no PSDB - Danilo Verpa/Folhapres

Dirigentes tucanos ligados a Doria afirmam que Guimarães assumiu sua posição pessoal como a do partido ao organizar o movimento e iniciaram processo que pode levar a sua expulsão. O governador chegou a parabenizar os dirigentes pela atitude "corajosa e altiva". "Esquerda pra Valer não tem mais espaço no PSDB", disse.

Em entrevista à Folha, Guimarães responde que não pedirá para sair do PSDB, onde começou a militar aos 13 anos. Classifica a atitude de Doria como stalinista e diz que o partido será uma legenda apequenada se for sequestrada por ele. 

Na próxima sexta (31), os rumos do PSDB serão definidos em uma convenção nacional que deve consolidar o poder de Doria. O nome apoiado pelo governador para a presidência do partido, o ex-deputado federal Bruno Araújo, é o único colocado na disputa até agora. 

"É como Franco Montoro dizia: não podemos deixar cair nossas bandeiras", afirma Guimarães ao defender a social-democracia frente ao projeto de Doria. 

O EPV tem hoje 3.200 membros e apoiou Fernando Haddad (PT) no segundo turno em 2018. Aliados de Doria, como o presidente do PSDB-SP, Marco Vinholi, e o prefeito Bruno Covas, já foram parte da corrente. 

Como recebe o processo de uma eventual expulsão do partido? Com muita surpresa. Ao se filiar a um partido, busca-se ampliar o seu horizonte de participação política e não ter a sua liberdade como cidadão restringida, receber um cabresto. Esse [Direitos Já] é um movimento cuja bandeira é nada mais do que a defesa da Constituição, na qual o PSDB teve um papel fundamental. 

O argumento é que o sr. falou em nome do PSDB. Em nenhum momento eu ou qualquer outra liderança falou em nome do partido. É uma caça às bruxas.

A EPV tinha espaço no PSDB? É a primeira vez que um líder diz que a corrente não espaço? É a primeira vez. Sempre tivemos um amplo diálogo com nossos líderes. Doria vem falando em nome do partido, apontando quais rumos o partido irá tomar, desrespeitosamente. O presidente nacional é Geraldo Alckmin. O que se vê quando Doria diz que descontentes devem pedir para sair é uma afirmação stalinista. Contraria o princípio fundamental do PSDB, que é a democracia interna. 

Se ele quer um novo PSDB, se ele não se identifica com os valores progressistas do partido, onde nunca existiu extrema esquerda ou extrema direita, mas sim compromisso com democracia e com direitos humanos, por que ele escolheu se filiar ao PSDB? 

Mas no PSDB tinha espaço para pautas de esquerda? Para ser contra o impeachment de Dilma, por exemplo? No processo do impeachment, os principais líderes tucanos se posicionaram contra por um longo tempo. Mas a gente sempre teve diálogo. Democracia dá trabalho. O Doria não pode tratar o PSDB como se fosse uma das suas empresas. Não tem como ele vir dizer "isso é extrema esquerda". Quem apoiou o extremo foi ele, ao apoiar Bolsonaro, que é extrema direita, antes de qualquer deliberação do partido liberando seus filiados. 

Vai pedir para sair do PSDB? De forma alguma. Eu dediquei a minha vida à construção desse partido. Não só eu, mas milhares de militantes históricos que vão seguir fazendo a defesa da social-democracia. A nossa escola foi Mário Covas, Franco Montoro. O governo FHC assentou mais de 1 milhão de famílias com reforma agrária. É isso que Doria chama de esquerda que tem ser apagada?

O PSDB é um partido de centro-esquerda, sempre foi. Nós somos tucanos. Não é o fato de ser filiado que te faz tucano. Essa é a dificuldade do Doria diante das figuras históricas do partido: ele não se sente tucano. E por isso essa hostilidade e essa dificuldade de ter pluralidade.

Quais críticas o sr. tem a esse processo no conselho de ética? Há uma hipocrisia da burocracia partidária. Se ela entende que o PSDB não pode dialogar com o PT, por que ela não agiu quando o PSDB foi buscar uma aliança com o PT para viabilizar a eleição do presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo [Cauê Macris]?

É estranho quando eu vejo um pedido de encaminhamento à comissão de ética assinado pelo secretário-geral do partido no município, que é o chefe de gabinete de Doria. Está ali a digital do governador. O primeiro líder que não reconhece a separação do que é ser chefe do Executivo e o que é o papel do partido. 

É como se ele dissesse: eu indico as pessoas e elas farão aquilo que eu determino. Isso não é um partido político, isso é uma legenda apequenada, sequestrada. 

Nos discursos, os tucanos que fundaram o PSDB falam em volta às origens e Doria fala em renovação. Há uma tensão? Permanentemente. Há uma tensão, há um constrangimento. O PSDB tem nos fundadores, como Alckmin, Serra, Tasso e FHC, o DNA tucano, esse compromisso com a social-democracia, que é uma corrente de centro-esquerda. 

E essa velha guarda está resistindo? Porque só o indicado de Doria, Bruno Araújo, está concorrendo à presidência. Restam cinco dias e há uma expectativa de que nossos líderes consigam cumprir o papel de defesa do PSDB. Se eles não agirem nesse momento, depois vai ser tarde demais. É preciso que nossos líderes se manifestem publicamente. Porque se for para levar o PSDB para direita, que se mude o nome, porque não é honesto carregar o nome de social-democracia e levar o PSDB para um neoliberalismo extremado. 

Já não é tarde demais? O processo de convenção, enquanto não ocorre, sempre tem esperança. O nome que está colocado não foi fruto de um processo que contemple todas as lideranças amplamente. A expectativa é que a composição da executiva, com outros cargos, possa equilibrar isso. 

Doria fala que o PSDB será de centro, concorda? Absolutamente. O Doria é um liberal, é um neoliberal, o posicionamento dele é bem à direita. Estrategicamente, do ponto de vista de quem pretende disputar uma eleição para presidente da República, se apresenta de centro para ter mais facilidade de conseguir trazer o eleitor. Mas o conteúdo do que ele defende não é centro. Ele não é uma figura moderada. Se fosse, ele não estava fazendo essa caça às bruxas, estava dialogando conosco.

Acha que o problema é o PT estar no Direitos Já? Participar de um movimento cívico não torna ninguém petista. É preciso ter grandeza, precisamos de estadistas. Precisamos de lideranças que tenham compromisso acima das disputas eleitorais. Doria faz um discurso contraditório. Diz que ele está disposto a dialogar e, ao mesmo tempo, diz que não haverá espaço para aqueles que discordem.

A eleição mostrou que a esquerda está demonizada. Vale a pena defendê-la? Todas as nossas principais lideranças se posicionaram no campo progressista. O PSDB sempre se colocou como uma esquerda que dialoga com a sociedade, que reconhece o livre-mercado. Uma democracia pressupõe partidos que tenham um campo ideológico claro e compromissado. Partido não pode ficar surfando pelas circunstâncias. Podem perder ou podem ganhar eleições, mas eles têm que ter coerência ideológica.

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