Em série inspirada na Lava Jato, os fins sempre justificam os meios

Nova temporada de 'O Mecanismo' retrata delação da Odebrecht e impeachment de Dilma

São Paulo

Quando resolveu colaborar com a Operação Lava Jato, o dono da maior empreiteira do país foi até a nora em busca de ajuda para convencer o filho a cooperar com as investigações também. “Vou falar o que eles já sabem”, disse o empresário. “Ninguém quer a verdade. Todo mundo quer a melhor versão.”

Pode ser que as coisas não tenham sido desse jeito com Emílio Odebrecht, mas é assim que a decisão do empreiteiro Plínio Bretch, dono da Miller & Bretch, é apresentada na série “O Mecanismo”, cuja segunda temporada entrou no ar na sexta-feira (10) na Netflix, um ano após a primeira.

A série é uma obra de ficção, mas qualquer pessoa que tenha acompanhado o noticiário da Lava Jato é capaz de reconhecer personagens e situações reais que inspiraram o cineasta José Padilha e a roteirista Elena Soarez na criação.

Apesar dos nomes trocados e das liberdades tomadas com os fatos e sua cronologia, a série não esconde suas intenções —e a vinheta de abertura, que trata como delinquentes quase todos os políticos que ocuparam a Presidência da República  após a redemocratização, mostra que sutileza não é o forte de Padilha.

 

A nova temporada da série conta como o avanço das investigações deixou os donos da Miller & Bretch encurralados, sem alternativa além da delação premiada para livrar seus executivos da cadeia e tentar salvar a empresa da ruína —exatamente como aconteceu com a Odebrecht.

Mas os roteiristas adiantaram o relógio da trama para que a ofensiva sobre a empreiteira tivesse desfecho em meio à escalada da crise que levou ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), rebatizada como Janete na série.

A Câmara dos Deputados afastou Dilma do cargo em abril de 2016, quando as negociações da Odebrecht com a Lava Jato ainda estavam nas preliminares. Os acordos de colaboração dos executivos da empresa só foram assinados em dezembro, com Michel Temer (MDB) no cargo.

Padilha foi muito criticado pela esquerda quando a primeira temporada estreou, acusado de distorcer fatos históricos para fomentar o antipetismo e representar de forma caricatural Dilma e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que foi preso duas semanas após o lançamento.

O cineasta responde aos críticos agora pela voz do delegado aposentado Marco Ruffo, o protagonista, interpretado por Selton Mello. “Se eu digo que um político de esquerda é bandido, eu sou fascista. Se eu aponto um larápio safado da direita, eu sou chamado de esquerda caviar”, diz ele, numa das primeiras cenas. “Ideologia é um troço que cega.”

A nova temporada tem tudo para incomodar mais a direita. A série descreve o processo de impeachment como um complô de políticos corruptos interessados em afastar o PT do poder para frear a Lava Jato, com a cumplicidade de pelo menos dois ministros do Supremo Tribunal Federal.

A defesa de Lula ganha tratamento generoso. Na cena em que seu duplo, o ex-presidente Gino, desafia os procuradores da Lava Jato durante um depoimento e diz ser perseguido por causa dos avanços sociais alcançados em seu governo, os investigadores ouvem calados, sem esboçar reação.

Apesar da simpatia dos criadores da série pelos policiais federais na linha de frente do caso, a nova temporada os mostra constantemente atravessando a linha que afasta seus métodos da legalidade.

Policiais grampeiam ilegalmente um telefone do empresário Ricardo Bretch, que representa Marcelo Odebrecht na série. Mandam tirar o cobertor da cela de um empreiteiro que hesita em colaborar. E organizam até uma operação clandestina para prender um suspeito no Paraguai.

Os policiais refletem o tempo inteiro sobre seus limites, mas prevalece sempre a ideia de que, no combate à corrupção, os fins justificam os meios. “A coisa errada, mas que no fundo era a coisa certa”, diz Ruffo a certa altura. “Era um grampo ilegal, mas foda-se. Para sair da lama, vale tudo.”

A série revisita a controvérsia sobre o grampo que flagrou Dilma tratando com Lula de sua nomeação para um cargo no governo, em março de 2016. Gravada depois de encerrado o período em que a interceptação dos telefones de Lula estava autorizada, a conversa foi divulgada pelo então juiz federal Sergio Moro, hoje ministro da Justiça.

Na série, a delegada que preside as investigações é contra a divulgação do grampo, por considerá-lo ilegal, e por temer as consequências políticas que a revelação do diálogo poderia ter para os petistas, às vésperas da votação do impeachment de Janete na Câmara.

Não existe registro de que a Polícia Federal tenha se oposto à divulgação desse diálogo em 2016, mas na série a oposição da delegada é usada para pôr em relevo a atitude dos procuradores da Lava Jato e do juiz Paulo Rigo (Otto Jr.), que são a favor de usar a gravação para acuar Janete e Gino.

Inspirado em Moro, o juiz é tratado com dureza. Ruffo o descreve como “vaidoso e cabeça-dura” e diz que a decisão de divulgar o grampo foi tomada com “uma pitada de cinismo”. O juiz aparece sorrindo ao ler as notícias no dia seguinte e também sorri ao final da votação do impeachment.

 

“Eu não sei se um crime justifica o outro”, diz Ruffo. “O que eu sei é que o Rigo pôs os fins na frente dos meios e incendiou o país.” Quando a filha pergunta ao juiz se pretende entrar na política como dizem os críticos, Rigo se assusta e responde: “Não, filha. Nunca”.

A guinada de Moro tem tudo para ser um dos temas da próxima temporada, se a Netflix decidir continuar a série. Um personagem-chave é introduzido no último episódio, na votação do impeachment.

“Perderam em 1964 e perderam agora”, diz o deputado ao votar. “Pelo Brasil acima de tudo, e por Deus acima de todos, o meu voto é sim.” O nome do personagem ainda não foi revelado pelos roteiristas, mas ninguém terá dúvidas sobre a sua identidade.

 

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