'Império do bem', obra de Irmã Dulce na Bahia quer crescer após canonização

Freira travou batalhas para construir complexo, que hoje faz 3,5 milhões de atendimentos por ano

João Pedro Pitombo
Salvador

“Não era um hospital, era como uma cozinha. Lembro que ela me deitou em um tapete e depois me deu um travesseiro”. Três lágrimas escorrem pelo rosto de Luiz Alves, 48, ao se lembrar de seu primeiro encontro com Irmã Dulce.

A freira baiana, morta em 1992, teve a canonização anunciada pelo Vaticano na semana passada e será primeira mulher nascida no Brasil a se tornar santa. 
 
Com deficiência mental, Luiz foi acolhido por Irmã Dulce quando tinha apenas 10 anos, em 1981. Hoje, é uma das 82 pessoas com deficiências físicas, mentais ou múltiplas que vivem dentro das Obras Sociais Irmã Dulce.

Luiz é um retrato do início de uma obra social que surgiu em um terreno onde funcionava um galinheiro e hoje é uma das maiores instituições filantrópicas com atendimento 100% gratuito do Brasil.

 
Com 60 anos, as Obras Sociais Irmã Dulce são uma espécie de “império do bem” cuja matriz está fincada na região da Cidade Baixa, em Salvador, mas seu alcance atinge outros bairros, cidades e até outros estados do país.

É um hospital, uma escola, uma fábrica, uma gestora de unidades de saúde, uma casa de acolhimento e uma unidade para tratamento de doenças complexas. É também uma igreja, um museu, um santuário e até um café, onde é possível tirar selfies ao lado de uma estátua da freira.
 
A entidade tem 964 leitos hospitalares, faz mais de 3,5 milhões de atendimentos e movimenta cerca de R$ 190 milhões por ano, sobrevivendo de convênios, parcerias e doações. E espera potencializar o alcance da sua marca e do seu trabalho com a canonização de seu principal símbolo.
 
“Para manter viva a imagem de irmã Dulce a gente precisa manter muito vivo o trabalho dela. Não dá para separar os dois, são uma coisa só”, afirma Maria Pontes, sobrinha de Irmã Dulce e gestora das obras sociais.

Irmã Dulce, religiosa católica baiana
Irmã Dulce, religiosa católica baiana responsável pelas obras sociais - Anthony Roywoley/OSID/Divulgação

Para chegar à tamanha dimensão, foram anos de batalhas travadas pela freira que procurava políticos, convencia empresários, ocupava terrenos e até cantava nas praças para arrecadar recursos. 
 
Depois de sua morte, em 1992, as batalhas seguiram como uma constante e permanecem até hoje: a entidade encerrou 2018 com um déficit de R$ 11 milhões e ainda busca recursos para adquirir um acelerador de partículas usado no tratamento radioterápico para câncer.
 
Sem um único foco definido –são 21 núcleos distintos –, a entidade segue uma filosofia de atingir o máximo de pacientes e atender demandas de tratamento na medida em que elas vão surgindo.
 
O espírito é o da porta aberta, também um legado da freira. Vide o dia em que um ainda desconhecido Paulo Coelho, aos 18, foi acolhido por Irmã Dulce após fugir de casa e parar em Salvador. Hoje, o escritor é um dos principais doadores de recursos para as obras sociais.
 
O caso da pequena Haysha, 3, também simboliza este espírito da entidade. Em uma sala de integração sensorial, ela se equilibra em cima de uma almofada e entra em uma piscina de bolas acompanhada de uma fisioterapeuta.
 
Haysha tem microcefalia, resultado de complicações geradas pelo vírus da zika durante a gestação de sua mãe. Desde que tinha apenas um mês, mantêm uma rotina de tratamentos para estimular suas funções motoras e de aprendizagem.
 
A necessidade mobilizou as equipes de atendimento, que passaram até a produzir cadeiras feitas de papelão para manter as crianças sentadas com a cabeça erguida, para que possam interagir com o mundo fora do colo da mãe. 
 
“A gente vive todos os dias os pequenos milagres de Irmã Dulce”, afirma Marta Fragozo, coordenadora de uma das equipes multidisciplinares que atende a pacientes com deficiências.

Aysha na sala de Integração Social no Hospital da Obras Sociais Irmã Dulce (OSID)
Aysha na sala de Integração Social no Hospital da Obras Sociais Irmã Dulce (OSID) - Raul Spinassé/Folhapress

Irmã Dulce está no dia a dia do baiano, do pão do café da manhã ao panetone do Natal, ambos fabricados em um centro de panificação criado para sustentar financeiramente uma escola. Sua imagem pode ser vista em medalhas, colares, terços, escapulários, nas paredes e até mesmo sob o painel dos táxis que circulam pela cidade.
 
Mas sua influência vai além da Bahia: os relatos de graças alcançadas enviadas pelos fiéis já passam de 10 mil e vem de todo o mundo. Fora do Brasil, a devoção tem uma presença forte no norte da Itália, na Espanha e nos Estados Unidos.
 
A canonização abre espaço para impulsionar o turismo religioso em torno do nome e obra da freira.
 
O poder público já vem se movimentando. O governo do estado criou a praça Irmã Dulce e a prefeitura desenvolve um corredor da fé no trecho de 1 km que separa o santuário de Irmã Dulce e a Colina Sagrada, onde fica a Basílica do Bonfim.
 
Os últimos quatro dias deram mostras do potencial: desde o anúncio do Vaticano, foram centenas de encomendas das chamadas relíquias de segundo grau – uma carteirinha com a imagem e um pedaço do hábito da religiosa.
 
O santuário e o museu receberam turistas de várias partes do país, caso do Padre Ivam Francisco Macieski, que junto com oito fiéis da sua diocese percorreu os 2.484 km entre Joinville (SC) e Salvador após a decisão do papa.
 
“Assim que soubemos da canonização, compramos as passagens. Viemos buscar inspiração e força. Irmã Dulce é um exemplo de bondade em um mundo que está tão desumano”, diz.
 
Esta inspiração, explica Maria Rita Pontes, é o principal combustível para manter firme o trabalho e legado da freira, que costumava gargalhar quando diziam que ela um dia se tornaria santa. 
 
 “Se ela estivesse aqui, viva, estaria escondendo o rosto e morrendo de vergonha. Ela precisou ir para o sacrifício, ser santificada, para que a sua obra continuasse”, diz.

A FÉ NO BRASIL

Alguns dos santos e beatos

Madre Paulina (1865-1942)
Nascida na Itália, foi canonizada em 2002, 60 anos após a sua morte

Frei Galvão (1739-1822)
Nascido no Brasil, recebeu o título de santo em 2007, 185 anos após a morte

José de Anchieta (1534-1597)
Canonizado em 2014, num processo iniciado em 1597. Não tem milagres comprovados –o papa dispensou a necessidade

Mártires do RN
Em 2017, o papa canonizou 30 mártires assassinados no século 17 no Rio Grande do Norte, no período de dominação holandesa

Irmã Dulce (1914-1992)
Beatificada em 2011, agora será proclamada santa pelo Vaticano

Padre Donizetti
Morreu em 1961 em Tambaú (SP), foi beatificado pelo papa Francisco

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