Negro da periferia assume PSDB paulistano e prega radicalismo de centro

Fernando Alfredo discorda de Doria e é contra a mudança de nome do partido

Carolina Linhares
São Paulo

A redução das bancadas do PSDB no Legislativo nas eleições de 2018 e os 4,76% de votos de Geraldo Alckmin (PSDB), a pior marca tucana em disputas presidenciais, levaram o partido a discutir rumos e a renovar seus dirigentes.

Na cidade de São Paulo, os tucanos elegeram, no último dia 14, Fernando Alfredo, 37, ligado ao prefeito Bruno Covas (PSDB), para presidir o diretório municipal. O governador João Doria (PSDB) também ganhou espaço: seu chefe de gabinete, Wilson Pedroso, é o novo secretário-geral do diretório. 

Fernando Alfredo, presidente do PSDB municipal de São Paulo - Danilo Verpa/Folhapress

Os tucanos consolidam sua reformulação com a convenção estadual, neste próximo domingo (5) e que deve escolher Marco Vinholi presidente do PSDB em São Paulo, e com a nacional, no dia 26 de maio, em que o nome de Bruno Araújo (PE) é o favorito para comandar a sigla. Os dois nomes têm o aval de Doria.

Em entrevista à Folha, Fernando Alfredo defende sua visão do que deve ser o PSDB daqui para frente: um partido social-democrata, de centro, com políticas econômicas liberais e políticas sociais para os mais pobres. Ele discorda de Doria sobre mudar o nome da legenda.

Ligado à militância e nascido na Vila Brasilândia, bairro periférico da zona norte paulistana, Fernando entrou no PSDB aos 13 anos e tem longa carreira em cargos públicos. Recentemente, além de coordenar campanhas tucanas de 2016 e 2018, foi superintendente da Cohab (companhia de habitação) na prefeitura, sob Doria. Hoje é chefe de gabinete da subprefeitura de Pinheiros.

Como é ser negro e de periferia e estar à frente da direção municipal de um partido tido como elitista? É um sonho. O PSDB mudou muito sua característica no sentido de participação da periferia no seu corpo diretivo. Comecei militando na juventude e fui galgando esse espaço. Não foi fácil. A base sentia necessidade de ter alguém que de fato a representasse e tivesse interlocução com as lideranças do partido e eu consegui aglutinar isso.

Com menos de 5% de votos para Alckmin e redução das bancadas, o partido saiu como um dos grandes perdedores da eleição de 2018. Qual foi o erro? A gente começou a perder a eleição no momento em que o PSDB foi o protagonista do impeachment da presidente Dilma, mas, quando deveria fazer uma oposição construtiva para o país, alguns dos nossos quadros decidiram fazer parte do governo Temer, contra a vontade de Alckmin.

Naquele momento, o PSDB perdeu a sua identidade como oposição a esse governo petista. A população entrou nesse parafuso: o PSDB impeachtmou a Dilma e tirou o PT, mas o Temer era PT e agora o PSDB está com Temer? 

E a eleição foi atípica. O que se ganhava eleição era maior tempo de TV e maior leque de alianças, e isso Alckmin tinha. Mas infelizmente esse episódio da facada fez com que um sujeito que não tinha exposição passasse a ter.

[Bolsonaro] ficou muito tempo fora de combate e sem abrir a boca, porque quando ele abre, se atrapalha. E ainda essa força das redes sociais e essa gana da sociedade por mudança contra o PT. Isso tirou do PSDB o protagonismo de ser o antipetismo e jogou para Bolsonaro.

A base do PSDB migrou para Bolsonaro? Como o partido pretende trazê-los de volta? É exatamente essa renovação que o PSDB prega hoje. Os dirigentes [Bruno Araújo, Marco Vinholi e o próprio Fernando Alfredo] são jovens, sem mandato, vindos das bases.

Não é uma mudança radical de extrema direita ou extrema esquerda. É resgatar nossas bandeiras, a social-democracia, a interlocução com a base. Voltar a ouvir a sociedade, participar mais das redes sociais e se colocar de fato como antipetista e contra essa extrema direita que hoje governa o país.

Que absurdo esse episódio do presidente Bolsonaro de proibir o comercial do Banco do Brasil. O PSDB tem que se posicionar radicalmente contra, inclusive o diretório municipal de São Paulo já fez uma carta de repúdio.

É preciso fazer a faxina ética que Doria prega? Acho que o PSDB errou lá atrás, quando não expulsou o senador Aécio Neves. A gente tinha que ter claramente tomado uma atitude, ao menos afastando ele.

Essa atitude deve ser tomada agora, pelo novo diretório nacional. Não é uma faxina ética, é uma faxina para tirar os quadros que não representam mais aquilo que o PSDB prega, que não defendem mais o governo social-democrata. Devemos aprovar no nosso congresso um código de ética, que hoje o PSDB não tem.

E o governo Bruno Covas na capital paulista tem tido essa característica do jeito tucano de governar. A gente tem no governo pessoas ligadas ao público mais à direita, mas não essa direita conservadora. Tem secretários ligados à esquerda, mas não essa esquerda conservadora. É um governo plural e é isso que nosso partido tem que pregar. A social-democracia reza isso.

O que deve ser um governo social-democrata? É aquele que defende o liberalismo na economia, uma economia aberta, e também trabalha para os que mais precisam, através das políticas sociais.

Doria vem falando de um PSDB de centro, que não seja nem de direita e nem de esquerda, concorda com isso? Sim. A posição do PSDB é de centro. A social-democracia nasce disso, para não ter os dois extremos. Quando necessário, ter mais vínculo com a esquerda, no sentido das reformas sociais e dos direitos humanos. E quando necessário também, com a direita, mas não a extrema direita.

O que eu considero direita é uma direita um pouco mais liberal e não essa conservadora que Bolsonaro tem empregado. O PSDB tem que se posicionar como nós nos fundamos: radical de centro, como é o Macron [presidente da França]. O problema é que o PSDB perdeu essa identidade, e precisamos resgatar.

Essa questão de social-democracia e do Macron não é visto como esquerda ou centro-esquerda? Não, porque é posição. Macron tem posição. Não é uma posição de esquerda, é uma posição que privilegia o povo. Só que a gente vive num momento em que essa questão ideológica de esquerda e direita se confunde. Acabei de definir: tem que aproveitar as políticas sociais dessa esquerda, que beneficiam aqueles que mais precisam e também ter essa interlocução com a direita.

O PSDB sempre foi um partido de centro, o problema é que se confundia com um centro de muro. Ficou: ‘Ah, o PSDB é de centro porque está sempre em cima do muro’. Eu defendo um centro de posição, progressista.

Se colocar como nem de esquerda e nem de direita não é ficar em cima do muro? Não. Não é no meio do muro. É no meio dos dois extremos. E ter posição: se posicionar a favor da reforma da Previdência, porque é boa para o país.

Qual posição você defende em relação a Bolsonaro? Temos que apoiar por conta das mudanças que o Brasil precisa e naquilo que ele estiver errado, vamos apontar o dedo. Não temos nenhum alinhamento com essa forma em que Bolsonaro quer tratar os direitos humanos, as políticas sociais. Na questão econômica, nosso programa de governo do Alckmin se assemelha muito com o que Paulo Guedes está pregando. Então somos favoráveis à reforma da Previdência.

Mas na eleição Doria teve um discurso parecido ao do presidenteA campanha do Doria adotou uma estratégia eleitoral para ganhar. Você pega o programa de governo dele e é social-democrata, progressista. Doria adotou uma estratégia de colar no Bolsonaro porque era um grande expoente e assim foi que ganhou a eleição. Agora, temos que fazer não a oposição ferrenha que o PT faz, mas uma oposição no sentido da orientação. E Bolsonaro tem se mostrado muito suscetível a ouvir o PSDB.

​​E em relação a costumes, família, homossexualidade. Você defende um partido liberal? A social-democracia defende a sociedade como um todo. O Brasil é um país plural. Defender família é defender qualquer tipo de ser humano na sua condição, não podemos definir família como homem, mulher e filho.

O que pensa sobre o partido mudar de nome e se fundir com outras siglas, algo que Doria defende? Sou radicalmente contra a mudança de nome do partido. Somos o partido da social-democracia brasileira. O PSDB não precisa mudar de nome, mas resgatar sua bandeira. E essa questão da fusão pode ser discutida, vale um diálogo, um estudo. Se algum outro partido tiver as mesmas intenções que as nossas, ou seja, não ser extrema direita e nem de extrema esquerda. A parceria do PSDB e do DEM ao longo do tempo tem dado muito certo.

Mas não dá para mudar de nome e manter a história? Não. Temos orgulho da nossa história. Quem tem que ter vergonha é o PT. A gente errou quando não expulsou Aécio. Mas estamos vindo a público assumir esse erro. E vamos corrigi-lo.

Na convenção que te elegeu, os discursos foram cheios de recados. Alckmin defendeu minorias e disse que o partido não deve permitir personalismos. Bruno falou em resgatar a social-democracia. Existe uma divisão desse grupo que defende a história (você, Bruno, Alckmin) e Doria?  Não tem divisão nenhuma. O que a gente tem são dois tipos de discurso que tratam do mesmo assunto colocados de forma diferente. Na síntese, os três falaram a mesma coisa. Eu sinto que a base na cidade de São Paulo é contra mudar o nome, porque a gente não quer perder a nossa história. Sabemos que a mudança de nome leva a isso.

A convenção nacional não vai expor essas divisões? As discussões que vão existir são atinentes ao partido. As lideranças têm trabalhado para ter um diretório nacional coeso. Nossa convenção nacional vai ser o momento de brindar o novo partido, mas não o novo partido que alguns pregam. Não vamos perder identidade. O que vamos fazer é voltar às origens.

Quero enfatizar que o PSDB está unido. As divergências internas, temos mesmo. A oposição vai querer falar de racha.

O racha é porque Alckmin insinuou que Doria era traidor e ainda discursa dando recado sobre personalismo.  Tem muita gente do PSDB que é personalista. O recado não é para Doria, é como um todo. Gosto de uma frase do Alckmin: temos que ser um Zé Ninguém a serviço das grandes causas. Esse é o papel do PSDB. Não temos que aparecer para que os nossos resultados apareçam. Partido político tem que parar de ter dono. É plural.

Bruno Covas foi lançado à reeleição informalmente. Como você avalia a gestão, que ainda não deixou uma grande marca. A gente conseguiu cuidar das pessoas e da cidade. Ele tem enxugado onde precisa e investido onde precisa. Bruno não tem que ser marcado por uma grande obra. Ele vai ser lembrado por cuidar das pessoas, melhorar a qualidade de vida dos que mais precisam pelas políticas sociais.

Mas limitar o vale-transporte, por exemplo, não é o contrário disso? É uma medida econômica. A SPTrans tem estudos de que essa flexibilidade não era toda utilizada.

Isso prejudicou as pessoas. Não. Tudo que você faz na cidade, alguém vai se sentir prejudicado. O prefeito não tem se escondido de tomar atitudes. Aprovou a reforma da Previdência contra tudo e contra todos. Não é uma questão de prejudicar A ou B, era que a cidade precisava. O novo gestor tem que tomar posição e às vezes não agrada todo mundo, infelizmente.

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