Quem não concordar com o novo PSDB que peça para sair, diz Doria

Governador de SP, que consolida seu poder na sigla, diz que ala mais à esquerda do partido não tem mais espaço na sigla

Carolina Linhares
São Paulo

Às vésperas da convenção nacional do PSDB, no próximo dia 31, que deve consolidar o poder do governador de São Paulo, João Doria, sobre seu partido, o tucano pregou em discurso para filiados que aqueles que não concordarem com as diretrizes do que ele chama de "novo PSDB" devem deixar a sigla. 

Em evento para filiar sete pessoas na noite de sexta (24), na sede do PSDB em São Paulo, Doria também pregou que tucanos que sejam acusados de irregularidades se afastem do partido para cuidar de suas defesas. Caso inocentados, poderiam voltar à sigla.

Doria afirmou que a discordância é parte da democracia, mas pediu que quem não concorde "peça para sair". A fala foi uma referência ao sociólogo Fernando Guimarães, que coordena a frente Esquerda para Valer dentro do PSDB.

O governador paulista tem afirmado que o partido deve ser de centro, sem espaço para o que considera extrema esquerda ou extrema direita. 

"O novo PSDB não apaga seus 30 anos de história. [...] Mas, a partir de agora, o partido não vai viver de história, vai fazer diferente. E aqueles que não concordam, não há problema. [...] Nós não estamos aqui construindo o novo PSDB obrigando todos a concordarem. Não há democracia por unanimidade, só ditaduras advogam unanimidade. Mas os que não concordarem peçam para sair. Tenham dignidade, tenham grandeza de defender seus interesses fora do partido", disse. 

À Folha, Guimarães, que é membro do diretório nacional do PSDB, afirmou ter recebido a fala de Doria com surpresa e disse tratar-se de macartismo. "Desafio o governador João Doria a dizer nominalmente qual é a a resolução do PSDB que impede seus filiados a participarem de iniciativas cívicas de defesa da Constituição", disse.​

Já em relação aos acusados de corrupção, Doria afirmou que devem fazer sua defesa fora do PSDB.

"Se alguém fez coisa errada, que pague por isso, que tenha seu julgamento e o direito de defesa pleno. Nós não vamos condenar ninguém antes. Mas peça licença, tenha grandeza, se afaste. Faça sua defesa, se for isento, volte, será bem-vindo, sera aplaudido, será abraçado. Mas enquanto, neste processo, tenha dignidade e o respeito de fazer a sua defesa na plenitude, mas fora do PSDB", disse. 

A fala de Doria por regras mais rígidas e menos condescendência do partido com atos de corrupção antecede a criação de um código de ética do PSDB, último ato de Geraldo Alckmin (PSDB) no comando da sigla. No dia 31, o ex-deputado federal Bruno Araújo, aliado de Doria, deve assumir a presidência da legenda. 

O documento, que pela primeira vez na história do PSDB definirá punições para filiados que cometerem irregularidades, será finalizado na próxima quinta (30) e será submetido à aprovação na convenção do dia seguinte. 

A última versão do texto, porém, diferentemente do que prega o discurso de Doria, não afasta imediatamente tucanos acusados de corrupção, como Aécio Neves (PSDB-MG), por exemplo.

O documento determina expulsão após condenação transitada em julgado. Aécio é réu sob acusação de corrupção e obstrução de Justiça por ter sido gravado pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista, da JBS. 

"O Bruno Araújo, ao assumir na próxima sexta-feira, ele sabe a responsabilidade que tem daqui pra frente. Nós não vamos mais jogar poeira e coisa suja embaixo do tapete. Vamos ter que ter a capacidade de julgar de forma correta, de forma isenta, e dar a oportunidade de todo peessedebista andar na rua de cabeça erguida", afirmou Doria. 

Falando sobre dissidentes, caso de Guimarães, o governador paulista parabenizou os dirigentes do PSDB da capital paulista, Fernando Alfredo, e do PSDB estadual, Marco Vinholi, por abrirem um processo no Conselho de Ética do partido para expulsá-lo. 

"Eu gostei, Fernandão, quando você e o Vinholi tiveram atitude corajosa e altiva. Esquerda pra Valer não tem mais espaço no PSDB. Nem extrema esquerda nem extrema direita. Saia e escolha seu partido. É justo."

Guimarães está à frente de um movimento suprapartidário de oposição ao presidente Jair Bolsonaro (PSL), que inclui políticos do PT. O "Direitos Já, Fórum pela Democracia" é também uma iniciativa do advogado petista Marco Aurélio Carvalho. ​

Nesta semana, ao falar das críticas que surgiram direcionadas aos tucanos que integram o movimento, Alckmin alfinetou Doria de forma velada. "É um momento de intolerância, mesmo no meu partido", afirmou. 

Em oposição à velha guarda tucana, Doria vem puxando o partido para o que considera o centro, sem tolerância com a esquerda. Enquanto Alckmin e outros fundadores do PSDB têm buscado resgatar a história do partido e seu vínculo com a social-democracia, o governador paulista fala em renovação.

Sem a presença de Alckmin, que foi um contrapeso ao discurso de Doria na convenção tucana paulista, por exemplo, o governador paulista subiu o tom no evento desta sexta. 

"[O filiado] só não vai ter direito, dentro do PSDB, de estabelecer uma linha diametralmente oposta àquela que todos que estão nessa mesa tem como princípio a partir de agora", disse Doria. 

Outros nomes do PSDB também participam do movimento, mas, segundo a direção do partido em São Paulo, somente Guimarães falou em nome do partido e não como pessoa física e, por isso, é alvo de de sanção. 

Guimarães contesta essa versão. "Em nenhum momento, eu ou quaisquer dos membros que participaram do encontro promovido pelo Direitos Já falaram em nome dos seus respectivos partidos", afirma. "O governador João Doria sequer é presidente do partido, mas age como se o partido fosse uma de suas empresas."

"É inacreditável que um partido cujos líderes tiveram protagonismo na construção da Constituição hoje esteja entregue a uma burocracia covarde e submissa ao poder da caneta, a ponto de agir de forma macartista e perseguir filiados que participam de um movimento cívico que tem por único propósito a defesa dos valores fundamentais da nossa Carta Magna", diz Guimarães. 

"O que o governador João Doria e os dirigentes que cumprem suas ordens pretendem é perseguir todos os militantes históricos, progressistas, que verdadeiramente são social-democratas. Essa é a razão da sua obsessão em expulsar o PSDB Esquerda Pra Valer, movimento que é atuante no partido desde 1993. Ele quer um partido hegemônico, autoritário e uníssono ao seu projeto pessoal", completa. 

Carvalho, em nome do movimento "Direitos Já, Fórum pela Democracia", considerou a fala de Doria "inoportuna" e "uma demonstração inequívoca de o quanto ele é autoritário". 

"Mostra que ele está desconectado dos princípios do PSDB. Ele está desonrando a memória de democratas como Franco Montoro e Mário Covas", disse o advogado petista à Folha

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