Traição no WhatsApp reacende choque entre centrão e governo

Grupo liderado por Rodrigo Maia diz que perdeu confiança em Bolsonaro

Ranier Bragon
Brasília

Um dos principais alvos das manifestações de rua marcadas para este domingo (26), o chamado centrão tem comandado as derrotas aplicadas no Congresso Nacional a Jair Bolsonaro (PSL) e, após o ensaio de uma aproximação, indica ter perdido a confiança no presidente da República.

Associado à velha e corrompida forma de fazer política pela ala mais ideologizada do governo, o grupo, que reúne cerca de 200 dos 513 deputados, tem avaliado agora que, não importa qual acerto faça com Bolsonaro, sempre será tratado como um ajuntamento de malfeitores pelo “bolsonarismo raiz”. 

Devido a isso, sustentam o parlamentarismo branco comandando por Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, e Davi Alcolumbre (DEM-AP), presidente do Senado, e abriram mão de comandar duas pastas que seriam recriadas apenas para atender o grupo, Cidades e Integração Nacional.

A reativação dos ministérios foi a última tentativa de acerto entre o centrão e Bolsonaro, mas a negociação ruiu e o grupo a usa como explicação de por que não pode confiar no presidente.

Segundo vários parlamentares ouvidos pela Folha, após o acerto, veio a público a informação de que Maia indicaria a pasta das Cidades o ex-ministro Alexandre Baldy (PP), hoje secretário do 
governo de São Paulo. 

Ato contínuo, piscou em celulares de políticos e empresários uma mensagem de WhatsApp de Bolsonaro. O presidente compartilhou gravações e textos com acusações de corrupção contra Baldy, que é de Goiás, feitas pelo senador Jorge Kajuru (PSB-GO).

“Tudo que tenho de provas contra esse office-boy picareta de João Doria (mesma laia) eu entreguei ao presidente Bolsonaro”, escreveu em 12 de maio, em suas redes sociais, o senador, segundo quem o material foi enviado ao presidente por meio do também senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).

As mensagens de Bolsonaro chegaram ao conhecimento tanto de Baldy quanto de Rodrigo Maia e outros integrantes do centrão, que então desistiram dos ministérios.

Procurado, Baldy afirmou não acreditar “que o presidente da República utilizaria uma ilação que partiu de um vigarista, que vive de achacar pessoas, para se basear na condução do futuro do país.” Disse também que processará Kajuru. O senador respondeu, em redes sociais, que apresentará provas contra o ex-ministro. O Palácio do Planalto não quis se manifestar.

Desde então, o centrão tem liderado as derrotas aplicadas ao governo, em especial a retirada do Coaf, o órgão de controle de atividades financeiras, das mãos do ex-juiz da Lava Jato Sergio Moro, hoje ministro da Justiça.

Segundo seus líderes, não há chance de os atos deste domingo (26) darem certo para o governo. Se forem esvaziados, mostrarão uma fragilidade crescente de Bolsonaro. Se forem robustos, certamente um dos alvos principais será o grupo, que promete retaliar nas votações do Congresso. 

O atual centrão —associação com o mesmo nome atuou no governo Sarney (1985-1990)— é formado por legendas de centro e centro-direita, com destaque para PP, PL (ex-PR), PRB, PTB, PSD, SD e DEM. 

O bloco começou a tomar corpo em 2015, sob o comando de Eduardo Cunha (MDB-RJ), que na ocasião chegou à presidência da Câmara derrotando o candidato da presidente Dilma Rousseff (PT). 

Com o ocaso de Cunha, hoje preso, o centrão tentou a presidência da Casa, mas foi derrotado por Rodrigo Maia em duas ocasiões. Atualmente, Maia e o grupo estão unidos. 

Apesar de não serem um bloco formal, os partidos do centrão têm atuado em conjunto na maioria das vezes.


Objetivos do centrão

Estabilidade - Maia quer se consolidar como garantidor da estabilidade política e interlocutor do mercado em Brasília

Moro -  Integrado por partidos alvejados pela Lava Jato, grupo busca enfraquecer Sergio Moro (Justiça) e liderou a mobilização para retirar o Coaf de sua alçada

Embate - Líderes batem de frente com o governo, que acusam de tentar criminalizar a atividade política 

Protagonismo - Grupo tenta maior protagonismo e controle das verbas e cargos federais


Mas há divergências, como na votação sobre o destino do Coaf. O PSD do ex-ministro e ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab votou em desacordo com o grupo. Segundo versões, a sigla busca se dissociar do desgaste popular que a marca “centrão” carrega.

O PRB também tem tido uma atuação de equilibrista. Integra o grupo, mas, por ser ligado à Igreja Universal do Reino de Deus —os evangélicos mantêm o apoio a Bolsonaro—, tem evitado maiores embates com o Planalto.

A posição mais radicalmente contrária ao governo é do PP, uma das legendas mais implicadas na Lava Jato. Para os líderes da sigla, o presidente e Moro querem destruir os partidos ao tentar criminalizar legítimas negociações políticas.

Os principais nomes do PP são o senador Ciro Nogueira (PI), presidente nacional, Arthur Lira (AL), líder da bancada na Câmara, Aguinaldo Ribeiro (PB), líder da maioria na Câmara, e Baldy.

Entre os objetivos comuns do centrão estão a tentativa de consolidar o papel de Maia de garantidor da estabilidade política e interlocutor do mercado e dos empresários em Brasília, a resistência a ações que classificam como de criminalização da atividade política, além de maior protagonismo na administração e controle de verbas e cargos, uma característica que compõe boa parte da história dessas legendas.

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