Assessor preso é principal elo formal entre laranjas do PSL e ministro do Turismo

Von Rondon, que trabalhava para Álvaro Antônio, recebeu verba das candidatas laranjas

Ranier Bragon Camila Mattoso
Brasília

​Preso nesta quinta-feira (27), Mateus Von Rondon figura nas investigações como principal elo formal entre o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio (PSL-MG), e o esquema de candidaturas de laranjas do PSL no estado. O caso dos laranjas do PSL foi revelado pela Folha, em fevereiro.

Assessor especial no ministério, ele tinha, desde 2013 até o começo desse ano, uma empresa de serviços de internet e marketing. 

A firma basicamente funcionou para um único cliente: Álvaro Antônio, que apresentou uma série de notas fiscais de Mateus à Câmara para justificar gastos de sua cota parlamentar.

Mateus virou assessor especial do ministro no governo Jair Bolsonaro em 23 de janeiro de 2019, dois dias depois de ter encerrado as atividades do negócio na Receita Federal.

A mesma empresa aparece na prestação eleitoral de contas de quatro candidatas a deputada estadual e federal usadas como laranjas pelo PSL de Minas, partido comandado à época por Marcelo Álvaro Antônio, então deputado e candidato à reeleição.

caso das laranjas do PSL, partido de Bolsonaro, é alvo de investigações da Polícia Federal e do Ministério Público em Minas e em Pernambuco e levou à queda do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, que comandou o partido nacionalmente em 2018.

Ao todo, Lilian Bernardino, Naftali Tamar, Debora Gomes e Camila Fernandes, candidatas do Vale do Aço e de Curvelo, no interior de Minas Gerais, declararam ter pago R$ 32 mil à empresa de Von Rondon, que tem Belo Horizonte como sede.

Em visita a Ipatinga em janeiro, durante a apuração da primeira reportagem do caso, a Folha conversou com Débora, que não soube explicar qual serviço Von Rondon teria lhe prestado.

PF faz operação contra esquema de laranjas do PSL em Brasília
PF faz operação contra esquema de laranjas do PSL em Brasília - Folhapress

A Polícia Federal já tem evidências, no entanto, de que Von Rondon prestou serviços a mais candidatos durante a eleição, sem que eles declarassem tais gastou e sem declarar ter recebido por isso. Álvaro Antônio, seu principal cliente, não registrou gastos com seus serviços.

A relação muito próxima entre Von Rondon e o ministro foi um dos pontos que mais chamou a atenção do Ministério Público no início da apuração.

A Folha publicou a partir de fevereiro reportagens mostrando que o PSL de Minas, sob o comando de Marcelo Álvaro Antônio, direcionou uma alta quantia de verba pública às quatro candidatas, que somaram uma votação de apenas cerca de 2.000 votos.

Sem registro de terem feito campanha efetiva, elas declararam gastos de parte desse valor em empresas ligadas a assessores, ex-assessores e parentes de ex-assessores do hoje ministro —entre eles a empresa de Von Rondon.

Nas notas fiscais que o assessor do ministro apresentou à Câmara dos Deputados de 2015 a 2018 há uma descrição quase similar dos serviços: em resumo, gestão de redes sociais. No total, foram repassados R$ 193 mil no período.

"Gestão de mídias sociais e criação de conteúdo para divulgação de atividade parlamentar, interação e atendimento ao eleitor em mídias sociais, desenvolvimento e manutenção do sítio eletrônico www.marceloalvaroantonio.com.br", descreve nota de fevereiro de 2018, com valor cobrado dos cofres da câmara de R$ 9.000 naquele mês.

Procurado pela Folha, em março, Von Rondon disse que criou a empresa para "prestar serviços de marketing digital" e que, além do ministro, atendeu "outros clientes das esferas pública e privada em contratos pontuais ou continuados, como no caso do então deputado".

Sobre as quatro candidatas, disse que ofereceu seus serviços "durante a convenção partidária e no decorrer da campanha" e que "o serviço prestado foi de planejamento de comunicação e elaboração dos materiais de campanha". Ele ficou de repassar esse material à reportagem, mas isso não aconteceu.
Von Rondon ainda afirmou que encerrou a empresa "para assumir função comissionada no governo federal como determina a lei".

Segundo a atual legislação, servidores, comissionados ou efetivos podem até ser sócios majoritários, mas não podem ter poder de gestão.

Ele não respondeu, porém, à pergunta se ele trabalhou para o ministro durante a campanha. Não há registro na prestação de contas. No Facebook de Von Rondon, porém, há várias postagens e vídeos durante a campanha de material político de Álvaro Antônio.

Além das quatro candidatas laranjas, só mais um candidato declarou ter usado a empresa na eleição.
O ministro do Turismo tem negado sua participação no esquema de laranjas.

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