Descrição de chapéu Lava Jato

Conteúdo obtido ilegalmente deve ser publicado se houver interesse público, diz ombudsman da Folha

Ato ilegal, no entanto, não pode partir nem ser incentivado por jornalista, afirma Sérgio Dávila, diretor de Redação

Leonardo Neiva
São Paulo

O que a Folha pensa sobre produzir reportagens a partir de conteúdo obtido de forma criminosa?

À luz da divulgação de conversas entre o ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sergio Moro, e integrantes da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, obtidas supostamente de forma ilegal, a questão foi levantada por um leitor durante encontro com a ombudsman Flavia Lima e o diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila, ocorrido nesta terça-feira (18), na sede do jornal.

"Quando há claro interesse público e a alternativa, que é a não divulgação dos diálogos, é prejudicial aos leitores, o jornal deve optar por publicar, mesmo que a informação tenha como origem um ato ilegal", defendeu a ombudsman.

O diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila, e a ombudsman Flavia Lima durante encontro com leitores no auditório do jornal
O diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila, e a ombudsman Flavia Lima durante encontro com leitores no auditório do jornal - Eduardo Anizelli/Folhapress

Segundo Flavia, o fato de os envolvidos inicialmente não terem negado as informações também é um fator que corrobora a provável autenticidade do material vazado.

Dávila lembrou que há duas diretrizes inegociáveis na ação do jornal: jornalistas da Folha não podem cometer qualquer tipo de crime para obter uma informação nem pedir a terceiros que quebrem a lei em benefício do jornal.

Para ilustrar, o diretor de Redação lembrou o caso dos Documentos do Pentágono, arquivos do Departamento de Defesa dos EUA que revelavam um padrão de mentiras contadas pelo governo americano sobre a atuação do país na Guerra do Vietnã. O relatório, que chegou aos jornais New York Times e Washington Post em junho de 1971, foi retirado ilegalmente do Pentágono.

“Os jornais não concorreram para que o crime fosse cometido, mas, de posse do produto, perceberam que o interesse público se sobrepunha à maneira como ele foi obtido. Usamos o mesmo critério. Nunca pediríamos que alguém invadisse o celular de uma autoridade e não publicaríamos, por exemplo, diálogos íntimos”, explicou Dávila.

Durante o evento, promovido para tirar dúvidas dos leitores e debater os rumos do jornalismo, integrantes da plateia criticaram a forma como o jornal seleciona as mensagens da coluna Painel do Leitor. Um dos problemas apontados foi o fato de o espaço ser ocupado por autoridades ou pessoas famosas.

“Gente importante não tinha que estar no Painel, tem que estar o Zé da Silva, a Maria Ninguém, eu”, afirmou uma leitora.

A ombudsman explicou que as mensagens demoram para ser contempladas devido à grande quantidade recebida pelo jornal e que há uma busca para diversificar e contemplar o maior número de pessoas na coluna. A reclamação da leitora já constava na crítica interna de quarta-feira (19), que circula para todos os jornalistas da Redação.

O encontro serviu também para esclarecer o papel da ombudsman, cargo que não existe em outras publicações de maior circulação no Brasil. A sua principal função, explicou Flavia, é criar uma ponte entre os leitores e o jornal. “A Folha consegue agradar e desagradar a pessoas diferentes a todo momento. Estou ali para fazer o meio de campo”, disse.

De acordo com ela, nem todas as demandas de leitores e dela própria são acatadas pela Redação, mas boa parte dos pedidos tem ressonância no jornal, gerando alterações em textos, consertos de erros e reposicionamento em determinadas coberturas.

A necessidade de um debate equilibrado, afirmou, só não valem em casos de manifestações de preconceito, racismo e em questões que contradigam achados científicos já estabelecidos, a exemplo do terraplanismo (a crença de que a Terra não é redonda).

Em resposta à questão de um leitor sobre os desafios do jornalismo contemporâneo, Dávila afirmou que a profissão vive um paradoxo. Nunca antes tantas pessoas leram jornais como hoje, principalmente por meio da internet, mas nunca foi tão difícil rentabilizar o negócio.

“Como dar conta de um leitorado tão vasto e exigente e criar conteúdo de qualidade com Redações cada vez mais enxutas? Já que não conseguiremos noticiar tudo nem desmentir todas as notícias falsas, tentamos focar o que deve necessariamente ser noticiado ou desmentido. Isso talvez represente 1% ou 0,1% do total de notícias, e é aí que queremos fazer a diferença. Nem sempre conseguimos, mas é o nosso objetivo e seguiremos nessa tentativa diária e infindável.”

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