Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Contra atos de Bolsonaro, ex-ministros relevam diferenças em onda inédita de protestos

Titulares de pastas em gestões passadas se unem para repudiar medidas do atual governo

Joelmir Tavares
São Paulo

“Bolsonaro vai unir o Brasil” foi o título de uma coluna de Antonio Prata na Folha em 5 de maio. Ainda que haja um quê de exagero na afirmação, ela encontra guarida na onda recente de pactos de ex-ministros para protestar contra o atual governo.

Titulares de ministérios em gestões passadas —de Collor a Lula, de FHC a Dilma— relevaram diferenças para uma série de mobilizações nos últimos dias em repúdio a medidas de Jair Bolsonaro (PSL).

Já se deram as mãos ex-ministros da Educação, do Meio Ambiente e da Justiça. Eles lançaram manifestos e fizeram atos públicos contra o que chamam de agenda de retrocessos em curso no país.

Para as próximas semanas estão sendo organizadas iniciativas semelhantes, combinando políticos que lideraram, desde a redemocratização, as pastas de Ciência, Tecnologia e Inovação, de Cultura e de Saúde.

O levante é inédito, segundo pesquisadores consultados pela reportagem. E colocou lado a lado, por exemplo, Cristovam Buarque (Cidadania), que votou pelo impeachment de Dilma Rousseff, e Fernando Haddad (PT), aliado da ex-presidente.

Eles se sentaram à mesma mesa no encontro de seis ex-ministros da Educação ocorrido no início de junho, na USP. Na ocasião foi lançado um documento em defesa da autonomia acadêmica e contra a “perseguição ideológica” e os cortes de verbas para a área.

“Preferimos nos deter nos pontos comuns”, diz Renato Janine Ribeiro, que foi um dos articuladores do ato e chefiou a pasta em 2015, no governo Dilma. “Um ponto crucial hoje no Brasil é de que maneira você consegue uma aproximação apesar das diferenças entre as pessoas.”

Cristovam, por exemplo, é crítico da expansão acelerada do ensino superior encabeçada por Haddad na pasta. Concordaram, no entanto, em se juntar para atacar Bolsonaro pela ameaça de censura a professores e pela falta de projeto para o ensino básico.

Outras duas questões estão no horizonte do grupo: a criação de um observatório para acompanhar as decisões no setor e a edição de um manifesto de educadores, nos moldes do lançado por Anísio Teixeira em 1932.

Dias antes da reunião dos ex-ministros do MEC, no mesmo Instituto de Estudos Avançados da USP, tinha sido a vez de ex-chefes da pasta do Meio Ambiente somarem forças contra o que classificaram como desmonte das políticas ambientais no país.

Entre os sete ex-titulares que compareceram e posaram para a foto estavam: Rubens Ricupero (1993-1994, sob Itamar), Sarney Filho (1999-2002, sob FHC, e 2016-2018, sob Temer), Marina Silva (2003-2008, sob Lula) e Carlos Minc (2008-2010, também sob Lula).

Os dois últimos já tiveram lá suas rusgas. Minc disse em uma entrevista em 2014 que sua antecessora “é do bem, é corretíssima”, mas “não dá para dizer que ela é uma santa que resolveu tudo”. Marina criticou em 2010 a gestão do sucessor por flexibilizar processos de licenciamento.

 

Outra demonstração de que divergências têm sido deixadas de lado quando o alvo é Bolsonaro foi vista na união de 11 ex-ministros da Justiça e da Segurança Pública para escrever um artigo em defesa do controle de armas.

No texto, publicado na Folha no início deste mês, eles elogiaram o Estatuto do Desarmamento e reivindicaram “uma regulação responsável de armas e munições”.

A lista de autores tinha tanto Miguel Reale Júnior, um dos autores do pedido de impeachment de Dilma, quanto José Eduardo Cardozo, que foi advogado dela no processo.

“É a primeira vez que vejo articulações marcadas por tanta diversidade política e mesmo ideológica”, diz José Alvaro Moisés, professor aposentado de ciência política da USP. “Situações novas sempre exigem respostas novas”, segue, referindo-se a Bolsonaro.

Para ele, “os manifestos indicam que pessoas que pensam diferente sobre muitas coisas são capazes de se unir em face de riscos maiores”.

Análise parecida faz Maria Hermínia Tavares de Almeida, pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e colunista da Folha. “Isso é um sinal positivo de que quem preza a democracia é capaz de abrir mão de diferenças para defendê-la da barbárie”, afirma ela.

Nos próximos dias, ex-ministros da Saúde vão se encontrar para um seminário no Congresso sobre a situação do SUS. José Serra (titular de 1998 a 2002, sob FHC) e Alexandre Padilha (que trabalhou com Dilma, de 2011 a 2014) estão confirmados.

A aproximação deve resultar também em um artigo escrito coletivamente, segundo Padilha. O deputado federal do PT afirma que estão na mira medidas do atual governo que põem em risco programas já consolidados, como os de combate ao tabaco e ao HIV.

“Bolsonaro tem destruído políticas de Estado que ultrapassaram governos”, diz ele. “Gritar contra isso é um gesto civilizatório. É mostrar ao presidente que, por mais que ele queira transformar o Brasil num flá-flu permanente, há gente engajada em defender avanços já estabelecidos.”

Nesta segunda (1º), haverá uma reunião dos ex-titulares de Ciência, Tecnologia e Inovação. O encontro será na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e incluirá a divulgação de uma carta.

"A ameaça a políticas públicas que este governo representa é que está permitindo que todas as diferenças partidárias e ideológicas sejam minimizadas", diz Aloizio Mercadante, que foi chefe da pasta de Ciência no governo Dilma e comporá a mesa.

"As divergências têm que ficar abaixo dos interesses da sociedade, dos valores republicanos", segue o petista, que também comandou o MEC e aderiu ao manifesto da área. Para Mercadante, o compromisso com políticas de Estado é o que deve prevalecer.

Em outra frente, ex-ministros da Cultura vão se manifestar conjuntamente em defesa do setor nesta terça-feira (2). Francisco Weffort (gestão FHC), Marta Suplicy (Dilma), Juca Ferreira (Lula e Dilma) e Marcelo Calero (Temer) estão entre os que vão participar. No atual governo, a área é administrada por uma secretaria especial ligada ao Ministério da Cidadania.

Procurado, o governo Bolsonaro não quis falar sobre as diversas alianças de ex-ministros contra ele. Via assessoria de imprensa, afirmou: “O Palácio do Planalto não comentará o assunto”.

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