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Depoimento: Repórter puro-sangue, Rossi inspirou gerações a correr atrás da informação

Em sua longa trajetória, provavelmente deu centenas de voltas ao mundo como repórter

Fábio Zanini
São Paulo

Numa era em que o pêndulo do jornalismo se afasta da reportagem em direção a como melhor empacotar uma notícia, Clóvis Rossi fazia um necessário contraponto.

Repórter puro-sangue ao longo de décadas e até o fim da vida, Rossi lembrava às novas gerações de jornalistas que de nada adiantam os esforços de tornar uma informação mais atraente, ou vendável, se alguém não tiver ido atrás de uma fonte, feito uma entrevista, escrito um texto.

Não que fosse resistente às novas tecnologias e à evolução do ofício. Era um entusiasta das redes sociais e do jornalismo online. 

Apenas procurava deixar claro que o grande edifício da imprensa se assenta sobre o mais básico dos gestos da profissão, o de abrir um bloco de anotações e começar a fazer perguntas.

Não é tarefa fácil estimar seu impacto sobre o jornalismo. Na Folha e fora dela, Rossi foi um parâmetro para incontáveis profissionais. Reportagem é inquietude, ensinava.

Numa idade em que a tendência dos jornalistas é se acomodar, incomodava a ele ficar apenas na posição de analista, confortavelmente opinando sobre fatos do noticiário.

Reclamava de não poder viajar mais, devido às limitações da idade e às restrições orçamentárias. Em sua longa trajetória, provavelmente deu centenas de voltas ao mundo, sempre como repórter.

Iniciantes no ofício se espantavam com sua capacidade de produzir textos em profusão e com grande rapidez. O ritmo Clóvis Rossi de trabalho constrangia atrasadores contumazes e maravilhava editores. 

À medida que sua carreira avançava, ele se afastou da cobertura política para se refugiar no que realmente o apaixonava, o noticiário internacional.

Para jornalistas que se dedicam a essa área, uma minoria que muitas vezes parece uma seita, Clóvis Rossi era nada menos que um ídolo.

Inspirava pessoas meio século mais jovens pelo exemplo. Em fevereiro de 2013, estava de férias na Itália quando o papa Bento 16 anunciou sua renúncia. Interrompeu o descanso, tomou um trem e correu para Roma para se somar à cobertura da Folha do evento histórico.

Não conseguiria, explicou depois, ficar contemplando uma notícia deste tamanho passando tão perto e nada fazer a respeito. Já tinha 70 anos de idade.

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