Doria defende afastamento de Alckmin do PSDB em meio a apuração de caixa 2

Alckmin teve bens bloqueados em processo que investiga o repasse da Odebrecht

São Paulo

O governador João Doria (PSDB-SP) afirmou em entrevista ao programa Ponto a Ponto, da BandNews TV, que o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) deveria se licenciar do partido enquanto estivesse sob investigação.

Em abril, Alckmin teve os bens bloqueados em até R$ 9,9 milhões em um processo que investiga o repasse de caixa dois da Odebrecht para a campanha dele ao governo paulista, em 2014.

O governador João Doria e o ex-governador Geraldo Alckmin em convenção do PSDB, em Brasília
O governador João Doria e o ex-governador Geraldo Alckmin em convenção do PSDB, em Brasília - Pedro Ladeira/Folhapress

Na semana passada, Doria afirmou em uma entrevista à revista Veja que todos os membros do partido envolvidos em investigações já deflagradas deveriam pedir licença da legenda.

Se isso não ocorresse, deveriam ser expulsos pois demonstrariam que não têm grandeza de alma nem confiança na própria inocência. Portanto, não mereceriam estar no PSDB.

Questionado se o princípio valeria também para Alckmin, que foi seu mentor político, Doria respondeu que sim. 

"Inclusive o governador Geraldo Alckmin. Que é um homem de bem, é um homem correto. Eu conheço a sua história, conheço a sua vida. É um homem modesto, nos seus bens, na sua postura, no pouco que pôde acumular como assalariado público que foi ao longo dos últimos 42 anos. Eu acredito na sua inocência", disse Doria.

Mesmo assim, seguiu, "todos aqueles que estão sob investigação, confiando na sua inocência, e certos da sua inocência, deveriam pedir licença. Inclusive o governador. Com toda a grandeza, com toda a alma, e o meu sentimento de que ele é absolutamente inocente, um homem correto, probo, um homem de bem". 

Segundo Doria, depois de feita a defesa e concluído o processo com a sua inocência, Alckmin voltaria para o PSDB.

"E volta melhor, com grandeza, com firmeza, com posições altivas, como cabe a um grande líder, que é o caso do governador Geraldo Alckmin. E isso se aplica também a outros", afirmou o governador.

Para ele, esse seria "um bom caminho ético. Sem criar confrontos, sem estabelecer juízos".

Ele ressalvou que falava como "governador de São Paulo e militante do PSDB", já que não faz parte da executiva do partido. O tucano, no entanto, tem ascendência sobre a cúpula que assumiu a sigla há alguns dias.

Procurado para comentar as declarações de Doria, Alckmin afirmou, via nota: "Não soube, não tomei conhecimento e na democracia interna todas as opiniões são respeitadas, mesmo as equivocadas. De minha parte, não muda nada. Vamos seguir trabalhando".

A linha de atuação proposta pelo comando do ex-deputado Bruno Araújo, novo presidente da legenda, propõe um endurecimento do discurso contra a corrupção e de sanções contra membros envolvidos em escândalos. O texto, no entanto, preserva os principais caciques alvo de investigação.

Nesta quinta, Araújo saiu em defesa de Alckmin após as afirmações de Doria. "Cada caso é um caso. Geraldo Alckmin é um exemplo de retidão na vida pública. Tem nosso respeito e a confiança de todo o partido, além de milhões de brasileiros que conhecem sua história. Aparente opinião diferente dentro do partido considero fruto de claro mal-entendido", escreveu o ex-deputado no Twitter.

Em entrevista à Folha na semana passada, Alckmin contestou a decisão sobre o bloqueio de bens, mas disse confiar na Justiça. "Quem está na vida pública tem o dever de prestar contas. Às vezes, há, num primeiro momento, sentimento de injustiça, e para isso existe o Judiciário, para corrigir. Não vou criticar, confio nele", afirmou o ex-governador.

Ele disse ter como patrimônio um apartamento e um sítio em Pindamonhangaba. Relatou ter aberto mão de aposentadoria especial e viver "de R$ 5.000 do INSS". Alckmin também dá aulas em uma universidade privada de São Paulo. "Se há um cuidado que eu sempre tive é o ético. Agora, pode ter questionamento? Pode. É explicar."

Moro

No programa da BandNews TV, comandado pelo sociólogo Antônio Lavareda e pela jornalista Mônica Bergamo, colunista da Folha, Doria comentou ainda o escândalo das mensagens trocadas entre o ministro Sergio Moro, da Justiça, e os procuradores da Operação Lava Jato.

O governador se encontrou na terça (11) com o presidente Jair Bolsonaro, em SP. "Ele mostrou confiança no ministro Sergio Moro, diz que confia, acredita no ministro Sergio Moro, [disse] que ele é importante dentro da estrutura de governo e que reafirmava a sua confiança no ministro."

Após a reunião com Doria, Bolsonaro encerrou abruptamente uma entrevista coletiva ao ser indagado sobre a situação do ministro. O presidente se manteve em silêncio a respeito das revelações até esta quinta-feira (13).

Doria disse que preferia não fazer juízo sobre Moro e que tem "muito respeito pelo ministro". "Ele ajudou a construir uma nova etapa na Justiça brasileira, ao lado de procuradores e policiais federais, de pessoas que foram patriotas e construíram uma conduta correta, a meu ver, que ajudou o Brasil."

Sobre a reforma da Previdência, ele disse acreditar que ela será aprovada e que está sendo "otimista, mas realista". Doria foi um dos principais articuladores do movimento que pedia a manutenção de estados e municípios no texto do relator Samuel Moreira (PSDB) —ponto que acabou excluído.

O governador afirmou acreditar que a proposta passará pela Câmara até 15 de julho, antes do início do recesso, e pelo Senado em agosto.

Ele disse ainda que o Governo de São Paulo, estado que representa 32% da economia brasileira, não está esperando pela reforma para adotar políticas que combatam a crise econômica e gerem emprego.

"Começamos a governar desde o início", disse ele, afirmando que "até os adversários reconhecem que montamos um bom secretariado, sério, capacitado e experiente".

Segundo ele, em cinco meses foram criados 195 mil novos postos de trabalho no estado, ou "40% do que foi gerado no país". "Não ficamos esperando a reforma da Previdência. Nós agimos", afirmou.

Veja aqui o vídeo da entrevista. O trecho em que Doria fala de Alckmin começa aos 21m55s.

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