Elo com Flávio alimenta fama e riscos a deputado que quebrou placa de Marielle

Deputado mais votado no Rio, Rodrigo Amorim almeja a prefeitura carioca

Anna Virginia Balloussier Catia Seabra
Rio de Janeiro

A lealdade ao primogênito do presidente Jair Bolsonaro (PSL) fez de Rodrigo Amorim (PSL-RJ) o deputado estadual mais votado no Rio de Janeiro e colocou uma candidatura à prefeitura carioca em seu visor.

Se sua vitória nas urnas se afiançou na relação com o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), agora é seu futuro político que pode estar ameaçado por ela.

O deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL) em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio
O deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL) em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio - Ricardo Borges/Folhapress

Quatro pontos fazem de Amorim um ator político em evidência no estado que é berço político do bolsonarismo:

1) Uma amizade com Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio, que virou um barril de pólvora para a família Bolsonaro após movimentação atípica de R$ 1,2 milhão, levando à quebra dos sigilos bancário e fiscal de 86 pessoas e 9 empresas;

2) A gratidão eterna a Flávio, filho do presidente, ex-patrão de Queiroz e de quem foi vice na candidatura derrotada à Prefeitura do Rio em 2016;

3) A disposição para ser ferrenho defensor do governador Wilson Witzel (PSC-RJ), outro amigo das antigas;

4) O orgulho por até hoje ser conhecido como “o cara que quebrou a placa da Marielle”, em referência à sua participação em um episódio dias antes do primeiro turno das eleições, quando uma placa de rua simbólica em homenagem à vereadora assassinada do PSOL foi retirada do centro do Rio e partida ao meio.

 
Placa em homenagem à Marielle Franco é rasgada por Rodrigo Amorim
Placa em homenagem à vereadora Marielle Franco é rasgada por Rodrigo Amorim (à direita), em outubro de 2018 - Reprodução/Inatagram

A última foto dele com Fabrício Queiroz que veio a público? “Foi no meu aniversário”, conta Amorim, 40.
Também trocou mensagens pelo WhatsApp (“mandou uma corrente política, ele tá ligado”) com Queiroz, pivô da investigação do Ministério Público do Rio que atingiu o filho mais velho do presidente Bolsonaro.

O deputado do PSL diz que todo mundo que conviveu com Queiroz sabe que ele foi muito mais do que um mero motorista para Flávio. Ele tinha voz efetiva em campanhas, “as pessoas respeitavam o que ele dizia”, afirma.

O ex-PM serviu inclusive como ponte entre Jair Bolsonaro e militares. Segundo Amorim, era uma espécie de “relações-públicas com as forças de segurança”.

A partir das apurações do caso Queiroz, a Promotoria diz haver indícios robustos de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa nos últimos três dos quatro mandatos de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio.

Onde muitos aliados do próprio Jair Bolsonaro veem fogo, Rodrigo enxerga só fumaça. Ele diz não acreditar no papo de que Flávio passou a ser tóxico e que manter uma distância saudável dele seria o mais recomendável para um homem que, em um ano, pode começar uma campanha para ser prefeito da segunda mais populosa capital brasileira.

“Meu gesto é de ode ao Flávio o tempo inteiro”, disse à Folha em maio, em seu gabinete. Minutos depois, ao lançar um livro sobre seus cem primeiros dias de mandato, agradeceu ao “irmão Flávio”.

Amorim conhece Flávio desde quando os dois estudavam no Palas, um dos colégios mais tradicionais da Tijuca (zona norte carioca). Se a amizade amadureceu durante peladas no bairro, com outro filho de Bolsonaro a relação é menos amistosa.

Nos bastidores, é sabido que o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) não cai de amores por uma candidatura de Amorim a prefeito. Carlos e Flávio seriam dois candidatos naturais, mas a Constituição proíbe parentes do presidente da República de concorrer ao Executivo. 

Amorim diz admirar Carlos e desconhecer qualquer animosidade do vereador com ele ou com Flávio. Em 2016, quando Carlos se reelegeu vereador, parte de seu material de campanha omitia o nome do irmão mais velho, que naquele ano concorreu a prefeito com Amorim de vice. “Não vejo espaço para picuinhas”, diz o deputado estadual. 

Amorim está em seu primeiro cargo eletivo, mas não é nenhum calouro na vida política. E, se falar mal de petistas e “esquerdopatas” lhe parece tão essencial quanto oxigênio, teve espaço na gestão de um deles, Godofredo Pinto (PT-RJ), como procurador do município de Niterói.

O parlamentar tem um histórico de acumular cargos comissionados. De 2011 a 2012, foi assessor na Secretaria de Saúde de Nova Iguaçu e na Secretaria de Esporte e Lazer de Teresópolis. A dobradinha se repetiu em 2015 e 2016, quando foi nomeado na Prefeitura de Mesquita e no gabinete do vereador carioca Jimmy Pereira (PRTB).

A passagem por Mesquita fez dele alvo de uma investigação interna, por suspeita de que tenha sido funcionário fantasma por lá.

O acúmulo de cargos foi apontado pelo Blog do Berta. Amorim vê ali o dedo de adversários, sobretudo os do PSOL, com quem rivaliza na Assembleia do Rio.

O deputado diz que eram cargos técnicos e compatíveis e que não haveria por que falar em irregularidade. Diz que “bastaria dar um Google” para saber de tudo isso. “Sempre as fiz [as funções] respeitando todos os limites éticos. Nunca foi nada escondido.”

Outra secretaria pela qual passou, desta vez como titular, foi a de Direitos Humanos em Nilópolis. Em agosto de 2018, quando coordenava voluntários para a campanha bolsonarista no Rio de Janeiro, contou à Folha que atuou “sem mimimi” e “sem passar a mão em vagabundo.” 

Quando o disque-denúncia trazia algo sobre abuso policial, “olhava com muitos olhos antes de tomar atitude”. “Ninguém combate criminalidade jogando flor”, disse.

Dois meses depois, Amorim postou uma foto sua segurando uma placa de rua com o nome da vereadora assassinada Marielle Franco. Na mesma semana, 140 mil votos fizeram dele o mais votado para a Assembleia Legislativa do Rio.

Daniel Silveira (à esquerda), Rodrigo Amorim (ao centro, com a placa quebrada) e Wilson Witzel (à direita) com placa em homenagem a Marielle Franco partida ao meio 
Daniel Silveira (à esquerda), Rodrigo Amorim (ao centro, com a placa quebrada) e Wilson Witzel (à direita) com placa em homenagem a Marielle Franco partida ao meio  - Reprodução

Metade da placa está lá na parede do seu gabinete, emoldurada ao lado de uma camisa do Flamengo. Também compõem a decoração bandeirinhas do Bope (grupo de elite da PM do Rio), um bonequinho do presidente do EUA, Donald Trump, o livro “Não, Sr. Comuna!” (de Evandro Sinotti) e quadros com as fotos oficiais do presidente Jair Bolsonaro e do governador Wilson Witzel, a quem considera um “amigo pessoal”.

O “linhadurismo” na segurança pública os aproxima. A proposta de homenagear os PMs que mataram 13 homens no morro do Fallet em fevereiro é tida como o “muro do Trump” de Amorim, que sempre soube de seu potencial explosivo. A ação policial é sombreada por relatos de execução, mutilação e tortura.

Amorim diz estar ciente de que, a partir de agora, estará sob constante escrutínio. Se almeja liderar a cidade, afinal, até uma dívida de IPTU que beira os R$ 24 mil ganha o holofote. “Minha vida sempre foi a de ser humano normal”, diz ele, que afirma ter parcelado o passivo tributário. “Qual o problema de dever no Brasil?”

Ele parafraseia Jair Bolsonaro e desafia: “Me chama de corrupto, porra”, diz, rememorando frase do então deputado federal ao ser chamado de fascista na Câmara durante discussão sobre o impeachment de Dilma Rousseff (PT).

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