Ex-PT, sindicalista bolsonarista é morto em meio a disputa por terra indígena no Pará

Carlos Cabral é o terceiro presidente de sindicato de Rio Maria morto desde os anos 1980

Fabiano Maisonnave
Rio Maria (PA)

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria (820 km ao sul de Belém), Carlos Cabral, 58, foi assassinado a tiros nesta terça-feira (11). 

A principal suspeita é que a morte esteja ligada a uma disputa fundiária na Terra Indígena Apyterewa, cuja ordem de retirada de homens brancos, dada em última instância pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em 2015, até hoje não foi cumprida pelo governo federal.

O crime ocorreu por volta das 16h. Cabral voltava para casa de moto quando foi abordado por dois homens em outra moto, a 30 metros da entrada. Um dos disparos, feitos com um revólver calibre 38, atravessou a sua cabeça.

 
Ele é o terceiro presidente do sindicato de Rio Maria a ser assassinado. Em 1985, seu genro na época, João Canuto, ocupava o cargo quando foi morto por pistoleiros. O segundo dirigente foi assassinado em 1991.

Cinco anos depois, três cunhados de Cabral foram sequestrados por policiais militares —apenas um sobreviveu. Em todos esse crimes, a motivação foi a disputa fundiária, alimentada pela ocupação desordenada da região a partir dos anos 1970, durante a ditadura militar.

O próprio Cabral já havia sido baleado na perna esquerda, em março de 1991, quando caminhava na cidade acompanhado do também sindicalista Roberto Neto da Silva, 61, o Robertinho. Ambos passaram a contar com proteção da Polícia Federal por cerca de dois anos, até 1993.

Sob a condição de anonimato, familiares e amigos relatam que Cabral liderava, nos últimos anos, um grupo de posseiros e invasores em Apyterewa, território de 770 mil hectares dos índios parakanãs homologado em 2007. As posses ficam a cerca de 425 km de Rio Maria, percorridos em ao menos 12 horas.

Segundo esses relatos, que constam nos depoimentos à Polícia Civil, o sindicalista teve dois incidentes violentos na terra indígena: em um deles, sofreu uma tentativa de assassinato. No segundo, um fazendeiro que disputa uma área com Cabral teria atirado para o alto após uma discussão. 

O delegado Antônio Mororó, da Deca (Delegacia de Conflitos Agrários), diz que os conflitos em Apyterewa é uma das linhas da investigação, mas que levará em conta rixas antigas. A Polícia Civil de Rio Maria também participa das investigações.

 

A recorrente violência fundiária na cidade foi tema do livro "Rio Maria --a Terra da Morte Anunciada", publicado em 1991 pelo jornalista Moacyr de Oliveira Filho. 

A capa traz uma foto de Cabral apontando para o tiro que sofreu na perna esquerda. A seu lado, a viúva de João Canuto, Geraldina, segura o retrato do marido assassinado. Hoje a imagem está pendurada na entrada do sindicato, ao lado de duas fotos de dirigentes também mortos a tiros.

Reprodução da capa do livro 'Rio Maria: A terra da morte anunciada', de Moacyr de Oliveira Filho, de 1991; Carlos Cabral, na imagem, foi assassinado agora em meio à disputa de terra
Reprodução da capa do livro 'Rio Maria: A terra da morte anunciada', de Moacyr de Oliveira Filho, de 1991; Carlos Cabral, na imagem, foi assassinado agora em meio à disputa de terra - João Roberto Ripper/Imagens da Terra

Cabral e um irmão estariam na posse de um terreno em Apyterewa desde 2000, quando fizeram uma permuta e obtiveram 1.452 hectares, em negócio sem titulação de terra. Ao chegarem ao local, conta um familiar, eles passaram a ser assediados por fazendeiros que entravam na região para roubar mogno. 
Por causa dessas ameaças, o sindicalista, que praticamente se mudou para a posse em 2016, evitava repetir a rotina e só viajava a Rio Maria em horários improváveis.

Conforme a Folha revelou em julho de 2018, o governo Michel Temer (MDB), pressionado por políticos, se recusou a retirar as cerca de 400 famílias não indígenas de Apyterewa, que conta com presença permanente da Força Nacional.

A desintrusão da Apyterewa é uma das condicionantes da licença ambiental para a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, inaugurada pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em maio de 2016, sob forte oposição de ambientalistas.

A promessa de Bolsonaro de paralisar e até reverter a demarcação de terras indígenas animou Cabral, conta Robertinho. "Internamente, no sindicato, eu sempre lutei contra, sempre tentei fazê-lo sair de lá", diz. "Mas ele, incentivado por outros interesses, insistiu nessa besteira. Tanto que ele chegou a mudar a visão dele como sindicalista."

Robertinho diz que Cabral agia em Apyterewa de forma independente do sindicato e que ele foi de encontro aos movimentos populares ao defender a eleição de Jair Bolsonaro (PSL), com a esperança de que legalizaria os não indígenas de Apyterewa. "Achava que ele ia reduzir a reserva."

Os dois militaram juntos no PT. Robertinho continua no partido de Lula, mas Cabral se desfiliou após perder uma eleição para vereador, em 2008. O sindicato de Rio Maria já foi filiado à CUT, mas agora é independente, explica ele.

Falando na condição de anonimato, um amigo de Cabral conta que, em julho do ano passado, comprou cerca de 200 alqueires (484 hectares) de sua atual mulher, em Apyterewa, pagando R$ 500 por alqueire. Seu objetivo é desmatar para criar gado e produzir cacau.

Ele afirma que o preço das terras inflacionou após a eleição de Bolsonaro. Agora, cada alqueire na terra indígena vale de R$ 1.500 a R$ 2.000. 

Entre 2017 e 2018, a Apyterewa foi a quarta terra indígena mais desmatada do país, com um perda de quase 2.000 hectares —alta de 351% em relação a 2016 e 2017. Os números são do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Ambientais) e contabilizam o desmate de agosto a julho do ano seguinte.

Filha de João Canuto e ex-mulher de Cabral, com quem tem duas filhas, Luzia Canuto diz que se sente mais insegura desde a eleição de Bolsonaro, que cumpre agenda nesta quinta-feira (13), em Belém.

"Pensar diferente, nessa região, começa a voltar a ser um problema de novo", diz a filha do primeiro presidente do sindicato de trabalhadores rurais da cidade, também filiado ao PC do B.

Ao seu lado, Robertinho concorda: "Com esses ares de que agora vale tudo, com esse apoio que o novo governo sinaliza pro agronegócio, a gente sente que vai recrudescer. O pessoal se sente empoderado pra ir pra cima do movimento sindical."

Na região, todos lembram a visita de Bolsonaro de julho do ano passado a Eldorado do Carajás, a 167 km ao norte de Rio Maria. Em discurso, ele elogiou os policiais condenados pela chacina de 19 trabalhadores rurais sem terra, em 1996. Quando era deputado, disse que os mortos eram "desocupados que estavam desrespeitando a lei".

Desde o início do ano, sete pessoas morreram ligadas a conflitos agrários no sul do Pará. Na jurisdição do delegado Mororó, que abrange 15 municípios, Cabral foi o primeiro.

"A sensação é que a região ainda é extremamente inflamada", afirma o delegado especializado em conflito agrário, que investigou oito homicídios em 2018.

Até o início da tarde, quando a reportagem deixou o local do velório, havia apenas uma coroa, onde se lia: "Tristes pela irreparável perda. Partido dos Trabalhadores". 

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