Preso em Curitiba, Lula evita empolgação após vazamento de mensagens de Moro

Segundo pessoas que mantiveram contato com petista, ele evitou criar expectativas com divulgação de conversas de ex-juiz

Wálter Nunes
São Paulo

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva evitou se empolgar diante do vazamento de conversas entre os procuradores da Lava Jato e o ex-juiz federal Sergio Moro, que o condenou à prisão no caso do tríplex de Guarujá (SP).

Neste domingo (9), o site The Intercept Brasil publicou trocas de mensagens de integrantes da força-tarefa da Lava Jato com o então juiz responsável pela operação, que abandonou a magistratura para assumir o posto de ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro, em janeiro deste ano.

Nas conversas, segundo a reportagem, Moro orienta membros do Ministério Público em ações contra o ex-presidente da República. Pela legislação, o juiz deve se manter imparcial, sem beneficiar acusação ou defesa.   

Segundo duas pessoas que conversaram com Lula nesta segunda-feira (10), ele se manteve sereno, não mudou a rotina e disse que não criaria expectativas por causa do teor da reportagem. 

O petista está preso desde abril de 2018 em carceragem da Polícia Federal em Curitiba. 

Nesta terça-feira (11), ele se reunirá com Cristiano Zanin, seu advogado, para definir novas estratégias jurídicas. A defesa vai reforçar a tese de que Sergio Moro foi parcial durante os processos envolvendo o ex-presidente e que os procuradores tiveram motivação política na atuação contra integrantes do PT.

O ex-presidente Lula concede entrevista exclusiva à Folha e ao jornal El País, na sede da Polícia Federal, em Curitiba
O ex-presidente Lula concede entrevista exclusiva à Folha e ao jornal El País, na sede da Polícia Federal, em Curitiba - Marlene Bergamo /Folhapress

As mensagens, segundo especialistas, indicam a possibilidade de que casos da Lava Jato se enquadrem no artigo 254 do Código de Processo Penal, que aponta como suspeito o juiz que "tiver aconselhado qualquer das partes".

Esta não é a primeira vez que Lula adota cautela em um episódio que pode parecer favorável à sua defesa.

Em julho de 2018, quando o desembargador Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, decidiu pela liberdade do ex-presidente, ele chegou a arrumar as malas e ir para a frente do elevador. Mas antes mesmo de a porta se abrir Lula recebeu a notícia de que a decisão havia sido derrubada. 

Em dezembro, o ministro do STF Marco Aurélio Mello decidiu derrubar o entendimento sobre o cumprimento de pena após decisão em segunda instância. Mais uma vez se aventou a possibilidade de que a decisão poderia mandá-lo para casa. O petista, porém, não se animou. Disse aos agentes da PF que aquela decisão seria reformada no mesmo dia. Foi o aconteceu.

Lula tem dito a pessoas próximas que sua liberdade não depende apenas de um entendimento do Judiciário, mas sim de uma conjuntura do país, que passa pelo clima político. Hoje esse clima seria desfavorável a ele, segundo relatam aqueles com contato frequente com o ex-presidente.

A DIVULGAÇÃO

site The Intercept divulgou neste domingo uma troca de mensagens atribuídas a Moro e a Dallagnol em que eles aparecem compartilhando colaborações quando integravam a força-tarefa da Operação Lava Jato.

Após a publicação das reportagens, a equipe de procuradores da operação divulgou nota chamando a revelação de mensagens de "ataque criminoso à Lava Jato" e disse que o caso põe em risco a segurança de seus integrantes.

Para o ministro Marco Aurélio Mello, do STF, a troca de colaborações entre Moro e Dallagnol põe em xeque a equidistância da Justiça. "Apenas coloca em dúvida, principalmente ao olhar do leigo, a equidistância do órgão julgador, que tem de ser absoluta. Agora, as consequências, eu não sei. Temos que aguardar", afirmou o magistrado.

Nas conversas privadas, membros da força-tarefa fazem referências a casos como o processo que culminou com a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por causa do tríplex de Guarujá, no qual o petista é acusado de receber R$ 3,7 milhões de propina da empreiteira OAS em decorrência de contratos da empresa com a Petrobras.

O valor, apontou a acusação, se referia à cessão pela OAS do apartamento tríplex ao ex-presidente, a reformas feitas pela construtora nesse imóvel e ao transporte e armazenamento de seu acervo presidencial. Ele foi condenado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. 

Preso em decorrência da sentença de Moro, Lula foi impedido de concorrer à Presidência na eleição do ano passado. A sentença de Moro foi confirmada em segunda instância pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região e depois chancelada também pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça).

Segundo a reportagem do Intercept Brasil, Moro sugeriu ao Ministério Público Federal trocar a ordem de fases da Lava Jato, cobrou a realização de novas operações, deu conselhos e pistas e antecipou ao menos uma decisão judicial.

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