Oposição buscará discussão política em depoimento de Moro no Senado

Parlamentares avaliam cenários para não deixar ministro confortavelmente sob os holofotes

Daniel Carvalho
Brasília

Enquanto aliados do presidente Jair Bolsonaro (PSL) no Senado tentarão conduzir um debate no campo jurídico, a oposição quer promover uma discussão política nesta quarta-feira (19) para tirar o ministro Sergio Moro (Justiça) de sua zona de conforto na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça).

O ex-juiz da Lava Jato irá prestar esclarecimentos na Casa sobre as trocas de mensagens entre ele e o procurador Deltan Dallagnol.

Para esfriar o clima para criação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), Moro ofereceu-se para ir voluntariamente ao Senado, ambiente relativamente mais controlado para ser interpelado.

Embora senadores digam acreditar que o PT não estará à vontade na sessão porque qualquer manifestação mais enfática poderá soar como bandeira contrária ao combate à corrupção, o líder da sigla no Senado, Humberto Costa (PT-PE), afirma pretender indagá-lo sobre razões de seu comportamento quando juiz federal.

“A discussão vai ser um pouco política: quais as consequências destas condutas que ele teve, o que trouxe para o Brasil?”, disse Costa.

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro Sergio Moro em evento no Planalto
O presidente Jair Bolsonaro e o ministro Sergio Moro em evento no Planalto - Adriano Machado/Reuters

Do lado governista, a intenção é não deixar Moro cair em provocações que o levem para o debate político, o que pode tirar o ex-juiz de sua zona de segurança.

“Se ele ficar no campo técnico-jurídico, briga duas horas sem botar o pé no chão, porque ele é professor. Duvido que ele vai cair para o campo político e se agastar com um bate-boca com senador dentro do Senado, não é o perfil dele. Achar que vai nocauteá-lo para a opinião pública, não vejo a menor possibilidade disso”, disse o líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP).

Nas conversas divulgadas pelo site The Intercept Brasil, o então juiz da Lava Jato troca colaborações com Deltan, coordenador da força-tarefa. Segundo o site, as mensagens foram enviadas à reportagem por fonte anônima e se referem ao período de 2015 a 2018.

Governistas, parlamentares que se declaram independentes e opositores concordam que a comissão pode se tornar um palanque para o ministro da Justiça. Como Moro ainda tem crédito de popularidade, alguns senadores indicam que dificilmente haverá uma arguição mais consistente.

Diante do receio de que Moro saia ileso e até fortalecido da reunião, integrantes da oposição dizem que vão reavaliar cenários. Parlamentares acham difícil fazer, por exemplo, com que o ministro não compareça, já que ele não foi convidado ou convocado pela comissão, mas se ofereceu para ir.

O que pode acontecer, dizem, é acelerar o ritmo da sessão para não deixá-lo confortavelmente sob os holofotes, caso esse clima favorável se confirme.


Líder da Minoria no Senado, Randolfe Rodrigues  (Rede-AP) pretende abordar contradições no discurso de Moro desde que os diálogos vieram a público.

“Ele tem que dizer algo além de ‘fui hackeado ilegalmente’. Ele primeiro confirmou a ocorrência daqueles diálogos. Se ele [agora] diz que são falsos, então, quais são os diálogos verdadeiros?”, indagou.

A oposição ainda espera a divulgação de novos diálogos para calibrar o tom que adotará na comissão.

Mais importante colegiado da Casa, a CCJ é composta por 54 senadores, 27 titulares e igual número de suplentes. No entanto, senadores que não são membros também podem fazer perguntas.

O clima para o início da sessão no colegiado, marcada para começar às 9h de quarta-feira, vai ficar mais evidente ao longo desta terça-feira (18), quando a maioria dos senadores retorna a Brasília e quando há uma reunião de líderes partidários com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).

Moro anunciou sua intenção de ir ao Senado na terça-feira (11) em uma carta assinada pelo líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), dois dias após a revelação das primeiras conversas.

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