Porta-voz de Bolsonaro fica fora de promoção à elite do Exército e vai para a reserva

Após expurgo de militares, Alto-Comando não promove general Rêgo Barros

Igor Gielow
São Paulo

O Alto-Comando do Exército promoveu na tarde desta segunda (24) dois novos generais que poderão integrar o colegiado, deixando de fora o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros.

Com isso, a Força deu um sinal de independência em relação ao governo Jair Bolsonaro (PSL).

O porta-voz da Presidência, general-de-divisão Otávio do Rêgo Barros, no Planalto
O porta-voz da Presidência, general-de-divisão Otávio do Rêgo Barros, no Planalto - Evaristo Sá - 11.abr.2019/AFP

Rêgo Barros disputava duas vagas para receber a quarta estrela no ombro com outros dois generais-de-divisão, Valério Stumpf e Tomás Ribeiro Paiva. O primeiro é chefe de gabinete do general da reserva Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e o segundo, comandante da 5ª Divisão de Exército, em Curitiba.

Ribeiro Paiva, conhecido na força pelo prenome Tomás, foi chefe de gabinete do ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas e era visto como um nome certo para o Alto-Comando. Já Stumpf, que é da Cavalaria, surgia como concorrente direto de Rêgo Barros, oficial da mesma arma.

Os três são da turma de 1981 da Academia das Agulhas Negras. Nesta reunião do Alto-Comando, haveria uma vaga no topo da hierarquia militar a ser disputada por integrantes daquele grupo. Mas a ida do general Luiz Fernando Ramos para a Secretaria de Governo, que será efetivada no dia 3, antecipou a abertura da última cadeira destinada à turma.

Com isso, Rêgo Barros terá de ir para a reserva, conforme a praxe de renovação de turmas criada ainda na ditadura de 1964. Completado o quadro de quatro generais de quatro estrelas por turma, o Alto-Comando passa a analisar nomes do ano seguinte da academia.

São três encontros anuais, marcados antecipadamente, para completar as 16 vagas do colegiado mais importante a cúpula militar brasileira. Postos difíceis de alcançar: de cada 400 aspirantes a oficiais formados, apenas 4 chegam às quatro estrelas da elite. Em novembro haverá a abertura de uma nova vaga, que será destinada a iniciar o preenchimento das quatro vagas destinadas à turma seguinte.

Ainda que Stumpf e Tomás fossem vistos como candidatos mais fortes, a ida de Rêgo Barros ao coração do governo Bolsonaro no começo do ano o fortalecera politicamente. Isso até as crises recentes que antagonizaram o presidente às forças militares da ativa.

Na semana passada, houve a finalização desse rearranjo nas alas militares que compõem o governo do capitão reformado do Exército, e o resultado desagradou a ativa. O presidente rebaixou o general Floriano Peixoto para os Correios e ocupou sua vaga da Secretaria-Geral com um amigo pessoal.

Já o chefe dos Correios, general Juarez Cunha, foi para casa após ter sua demissão anunciada por Bolsonaro. Ele era um quatro estrelas da reserva e foi acusado de comportamento "sindicalista" pelo chefe.

Na semana retrasada, houve a demissão de Carlos Alberto dos Santos Cruz, o chefe da Secretaria de Governo que bateu de frente com o grupo influenciado pelo escritor Olavo de Carvalho no governo: os filhos de Bolsonaro Eduardo e Carlos, e os ministros da Educação e das Relações Exteriores.

O Alto-Comando do Exército não digeriu o tratamento dispensado a Santos Cruz, nome dos mais respeitados entre os militares, e a Cunha, um ex-integrante do colegiado. A compensação bolada por Bolsonaro no caso da Secretaria de Governo, a indicação do general quatro estrelas Luiz Eduardo Ramos, foi vista mais como o reforço de um círculo íntimo pelo presidente —o hoje comandante militar do Sudeste é seu amigo mais próximo na ativa.

Ramos permanece sendo da ativa, mas na condição de agregado a um cargo civil. O mesmo ocorria hoje com Stumpf, que provavelmente terá de sair do Planalto se quiser ocupar uma cadeira na cúpula.

Entre militares que observam a movimentação, a manutenção de Rêgo Barros com três estrelas rumo à reserva foi vista como uma forma de evitar a já enorme simbiose entre a as forças da ativa e as alas militares do governo.

Esses observadores também lembram que o nome escolhido para substituir Ramos no Comando do Sudeste, que concentra as tropas de São Paulo, é o de um general que passou cinco anos como segurança pessoal da presidente Dilma Rousseff (PT).

O general Marco Antônio Amaro dos Santos comandava a Casa Militar de Dilma, que sofreu impeachment em 2016. Era figura constante em viagens e nas pedaladas da presidente pelas manhãs.

Sua indicação pode ser lida como um sinal da ativa para o Planalto de que o Exército fornece quadros para servir ao Estado, não para governantes, já que uma das tônicas de Bolsonaro é criticar quaisquer associações entre membros de sua gestão com aquelas do PT.

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