Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Reduto da campanha de Bolsonaro vira palanque presidencial para Doria

Jantar em homenagem a tucano foi oferecido por suplente do senador Flavio Bolsonaro

Catia Seabra Talita Fernandes
Rio de Janeiro

O QG da campanha de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto foi convertido na noite desta sexta-feira (14) em cenário para homenagem a João Doria, governador de São Paulo e potencial adversário do presidente nas eleições de 2022.

O anfitrião do jantar oferecido a 400 pessoas foi Paulo Marinho, suplente do senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ), primogênito do presidente.

Entre os convidados estavam políticos, empresários, artistas e jornalistas, incluindo o ex-ministro de Bolsonaro Gustavo Bebianno, recém-chegado de uma temporada na Califórnia. 

Nos jardins da casa que abrigou a coordenação da campanha de Bolsonaro, Doria fez críticas veladas ao presidente. Disse, por exemplo, que não ficou à espera da aprovação da reforma da Previdência para agir.

A reforma da Previdência foi defendida por tucanos como Doria e o presidente nacional do PSDB, Bruno Araújo, como um projeto que conta com forte apoio do partido, sem referências ao governo.

Doria falou por 40 minutos em um palanque improvisado diante da academia da casa, que, convertida em estúdio durante as eleições, funcionou como produtora dos vídeos para TV de Bolsonaro.

No discurso, defendeu diálogo com a esquerda e a manutenção de programas sociais. Ao seu lado, a líder do governo no Congresso, deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), não escondeu o constrangimento ao ouvir André Marinho, filho do anfitrião, imitar o presidente.

Paulo Marinho está ao lado do governador João Dória, ao centro, e a deputada Joice Hasselmann, à direita da fotografia. Todos estão vestidos com a cor preta. Ao fundo vê-se plantas iluminadas por uma luz amarela.
O governador João Doria e a deputada Joice Hasselmann em jantar oferecido por Paulo Marinho, à esquerda. - Divulgação

"Eu acho que você está querendo roubar minha pauta para 2022", brincou André, numa simulação de diálogo entre Bolsonaro com Doria. 

"Soube que nas suas reuniões com secretários tem apito, tem reloginho e quem chegar atrasado paga 100, paga prêmio. É isso mesmo? Mas você sabe que eu só falo com o 02 para mandar três tuítes e tá tudo resolvido. Já foram dois que dançaram, estão entre o Santa e a Cruz", concluiu.

A menção a "02" é referência a um dos filhos de Bolsonaro, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) que, à frente das redes sociais do pai, disparou críticas que culminaram na queda de ao menos dois ministros: Bebianno e Carlos Alberto dos Santos Cruz, demitido esta semana da Secretaria de Governo.

João Doria (PSDB) e Joice Hasselmann (PSL), em São Paulo, na campanha eleitoral de 2018
João Doria (PSDB) e Joice Hasselmann (PSL), em São Paulo, na campanha eleitoral de 2018 - Marcus Leoni/Folhapress

Em seu discurso, na sequência, Joice disse estar "na patota do PSDB", mas lembrou ser do PSL e se apresentou como "a voz do governo Bolsonaro no Congresso". Ela fez questão de lembrar ter sido ela a articuladora do voto "Bolsodoria", dobradinha que pavimentou a eleição do tucano.

Antes de passar a palavra a Doria, Marinho pediu que dois vereadores tucanos entregassem ao governador uma placa de reconhecimento como "cidadão carioca".

Ele lembrou que este não foi o primeiro evento celebrado em sua casa em homenagem ao tucano.

"Prestamos homenagem há dois anos [a Doria], e ele foi eleito prefeito. Agora uma fazemos uma segunda homenagem como governador e espero que a próxima homenagem... eu vou deixar na imaginação dos convidados", disse, em sugestão a possível disputa de Doria à Presidência.

O tema foi retomado ao longo do jantar e, em clima de descontração, Marinho brincava com os convidados ao indagar se sua casa ajudaria a eleger um novo presidente.

Paulo Marinho, João Dória, Joice Hasselmann, Henrique Meirelles e Bruno Araújo em jantar oferecido por Paulo Marinho
Paulo Marinho, João Doria, Joice Hasselmann, Henrique Meirelles e Bruno Araújo em jantar oferecido por Paulo Marinho - Talita Fernandes/Folhapress

Frequentador assíduo da casa de Marinho durante a campanha, Bolsonaro quase não foi mencionado durante a conversa.

A memória mais clara de sua campanha é um painel usado nas gravações que traz "B17" impresso e, verde e amarelo, em referência à inicial do sobrenome do presidente e o número do PSL nas urnas.

Marinho promete remover em breve o painel numa simbologia de fim de ciclo. 

Em algumas rodas era possível ouvir alguns dos convidados comentar a demissão recente do general Santos Cruz, em tom de desaprovação. Foram feitas observações de que Bolsonaro costuma "rifar" aliados de primeira ordem depois de fritá-los publicamente. 

Um auxiliar de Bolsonaro foi lembrado por Doria em seu discurso, o ex-juiz da Lava Jato Sergio Moro, a quem o governador referiu-se como "herói".

A fala do tucano se deu em meio ao vazamento de trocas de mensagens do ministro da Justiça com o procurador da Lava Jato Deltan Dallagnol, o que levou a questionamentos sobre a lisura do então magistrado à frente de processos em Curitiba.

O governador paulista disse que o ex-juiz "não merece ser condenado por nada" por ter colocado muitos na cadeia. 

Doria reforçou que Moro será homenageado por ele na próxima semana com a "Ordem do Ipiranga". "Será homenageado e vai receber ordem do Ipiranga dia 20, entregue apenas a heróis que defendem o Brasil."

Prestes a deixar o PSL com destino ao PSDB, Bebianno foi chamado de “querido amigo” por Doria.

A socialite Narcisa Tamborindeguy, o advogado Sérgio Bermudes e até um integrante da banda mineira Skank circulavam entre os desertores do governo.

Aos convidados Bebbiano falava de projetos futuros, como o lançamento de um livro sobre a campanha de Bolsonaro à Presidência e os primeiros dias de seu governo.

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