Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Bolsonaro diz que 'política mudou' e que não é preciso pacto no papel para governar

Em SP, presidente elogiou general da ativa que deixa Exército para assumir Secretaria de Governo

Joelmir Tavares
São Paulo

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) afirmou nesta quarta-feira (3) que “a política mudou”, criticou proposições populistas e disse que não é necessário “pacto assinado no papel” para que Executivo e Legislativo caminhem juntos.

As declarações foram dadas ao participar de evento do Exército em São Paulo que marcou a troca de chefia no Comando Militar do Sudeste. O general Luiz Eduardo Ramos sai do posto para assumir a Secretaria de Governo da Presidência, em substituição ao general Carlos Alberto dos Santos Cruz.

“Nós não precisamos de pacto assinado no papel. O pacto que nós precisamos, com o Poder Legislativo e com o Poder Executivo, é o nosso exemplo, de votarmos matérias, de apresentarmos proposições que fujam do populismo”, discursou Bolsonaro.

“Ajudaremos, e muito, a resgatar a credibilidade de nossas instituições”, disse o presidente, voltando-se para Ramos. Ele afirmou que o passado do general como assessor parlamentar do Exército será útil na tarefa dele de coordenar a articulação política do Planalto com o Congresso.

Bolsonaro, de terno, cumprimenta o general Ramos, fardado, em palco de cerimônia
Em cerimônia em São Paulo nesta quarta (3), Bolsonaro cumprimenta o general Luiz Eduardo Ramos, que será ministro do governo - Presidência da República/Divulgação

O pacto que o governo chegou a negociar com os Poderes Legislativo e Judiciário para melhorar a interlocução está travado, como mostrou a Folha.

O documento não foi assinado e, um mês depois de ser negociado, estacionou na prateleira dos projetos adiados.

Batizado de "Pacto pelo Brasil", ele foi discutido em uma reunião de Bolsonaro com os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, no dia 28 de maio.

A ideia era tratar de cinco temas prioritários: as reformas da Previdência e tributária, a revisão do pacto federativo, a desburocratização da administração pública e o aprimoramento de uma política nacional de segurança pública. 

O documento final com os compromissos assumidos pelo Executivo, Legislativo e Judiciário seria assinado em 10 de junho, mas acabou emperrando. 

Desde a primeira reunião para discutir o pacto, o Palácio do Planalto sofreu importantes derrotas no Congresso e no Supremo.

Nesta quarta, Bolsonaro disse que o povo é “muito mais importante que qualquer instituição nacional” e que só deve lealdade completa à população. 

“Vocês é que conduzem o nosso destino. E a vocês, povo brasileiro, somente a vocês, eu devo lealdade absoluta. Contem comigo, porque eu sei que conto com vocês”, afirmou.

“O que nós queremos e podemos fazer com a nossa união é um Brasil melhor para todos. Isso tem que sair do papel, tem que sair do discurso fácil de político”, disse o presidente na cerimônia.

“Nós temos que dar exemplo. Nós, Executivo e Legislativo. E daremos exemplo para o Brasil realmente chegar no local dos sonhos de todos nós”, acrescentou.

Diante da plateia de militares, Bolsonaro disse que “a política mudou". "Se eu jurei um dia dar a vida pela minha pátria, como vocês, o que seria um possível sacrifício do mandato pelo bem de todos nós?”

O futuro ministro Luiz Eduardo Ramos deixa a tropa considerada mais importante do Brasil, com cerca de 22 mil militares, e vai para o Planalto com a missão de apaziguar os ânimos entre os militares da ativa e os do governo.

O militar é próximo de Bolsonaro desde os anos 1970. Na cerimônia no Exército, ele se referiu ao presidente como “estimado amigo”. O novo chefe devolveu a gentileza: “Grande amigo que mora no meu coração”.

O presidente relatou que, “há 46 anos, um acompanha o outro” e falou que o general, agora como seu auxiliar, “terá um dos ministérios mais importantes”, por cuidar da relação do governo com o Parlamento.

Ramos, em seu discurso, disse que espera não decepcionar Bolsonaro. “Soldado não escolhe missão”, frisou, aludindo ao convite para o ministério, que chamou de convocação. “Onde a pátria me chamar, estou sempre pronto a cumprir qualquer missão.”

“Sei que sou um general muito impetuoso e agoniado. Mas assim sou. E não mudarei”, afirmou o novo responsável pelo diálogo do governo com deputados federais e senadores.

Para ele, a nova função é desafiadora e faz parte da busca de um Brasil “mais digno” para seus filhos e netos. “Oro a Deus que me conceda a sabedoria de Salomão e a capacidade de articulação de Josué do Egito.”

Ramos substitui Santos Cruz, que foi demitido do governo no dia 13 de junho, após atritos com filhos do presidente e com a ala do Planalto ligada ao escritor Olavo de Carvalho. O novo titular da pasta toma posse nesta quinta-feira (4).

À frente do Comando Militar do Sudeste ficará Marcos Antonio Amaro dos Santos, que é general desde março de 2018. No Exército desde 1974, ele já atuou na Presidência da República, como adjunto da Casa Militar e do Gabinete de Segurança Institucional, no governo Dilma Rousseff (PT).

Amaro foi segurança pessoal da presidente e acompanhava a petista em viagens e em passeios de bicicleta por Brasília.

O governador João Doria (PSDB) também compareceu ao evento no Comando Militar do Sudeste, no Paraíso (zona sul de São Paulo). No palco estavam políticos como o ex-presidenciável Levy Fidelix (PRTB), deputados do PSL e os apresentadores de TV José Luiz Datena e Otávio Mesquita —ambos cortejados por líderes do partido de direita para concorrer nas eleições de 2020.

Bolsonaro chegou acompanhado de Doria, do vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) e dos ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional), Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e Fernando Azevedo e Silva (Defesa).

O presidente e o governador se reencontraram após uma semana em que tiveram divergências relacionadas ao imbróglio sobre a possível saída da Fórmula 1 de São Paulo. A transferência do GP Brasil para o Rio, defendida por Bolsonaro, desagrada a Doria.

Uma semana atrás, o tucano reagiu com ironia à fala de Bolsonaro de que havia 99% de chances de a prova migrar para o Rio. Falou que "só a cavalo" é possível chegar a Deodoro, circuito que passaria a sediar a prova.

Em seu discurso nesta quarta, Bolsonaro disse a Doria que reconhece os desafios de governar um estado e o cumprimentou pelo desempenho, colocando-se como paulista: “Parabéns pela forma como conduz o meu, o nosso estado de São Paulo”.

No fim da solenidade, a banda do Exército tocou “Amigos para Sempre”, enquanto as comitivas deixavam o palco. Doria não discursou na cerimônia militar e foi embora do local antes do presidente.

Pessoas próximas ao tucano minimizaram o impacto da rusga dos últimos dias e disseram que o estresse entre os dois era momentâneo, por envolver uma disputa, a da F-1, na qual ambos estão empenhados. 

Como informou o Painel, o líder do PSDB foi aconselhado por aliados a evitar embates desnecessários com o presidente, sua equipe e seus filhos. Doria é desde já apontado como postulante ao Planalto em 2022, embora hoje negue em público a intenção. 

Nos últimos dias, Bolsonaro contribuiu para antecipar o calendário da sucessão. Ele afirmou não descartar disputar a reeleição e passou a dizer abertamente que vê Doria como candidato.

Na sexta-feira (28), o tucano afagou o ministro Sergio Moro (Justiça), ao entregar a ele a Ordem do Mérito, principal honraria do governo paulista, e exaltar o ex-juiz como símbolo do combate à corrupção e ao crime organizado.

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