Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Mais discreto na internet, Flávio Bolsonaro atua nos bastidores do Senado

Investigado, primogênito do presidente é descrito até por opositores como afável

Daniel Carvalho
Brasília

Para marcar os seis meses deste ano legislativo, a Folha acompanhou a atuação parlamentar dos três filhos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) que mantêm cargo eletivo: o senador Flávio (PSL-RJ), o deputado federal Eduardo (PSL-SP) e o vereador Carlos (PSC-RJ) no Rio de Janeiro.

Enquanto na Câmara Municipal do Rio temas do governo federal ganham destaque com a presença de Carlos, em Brasília Eduardo se tornou uma espécie de guardião do pai nas comissões e no plenário da Câmara dos Deputados. Mais discreto, o primogênito Flávio se destaca pelas costuras políticas que realiza nos bastidores no Senado.

Quando pisou no plenário do Senado pela primeira vez após ser eleito para uma vaga na Casa, ainda em dezembro de 2018, Flávio Bolsonaro, 38, foi logo cercado pelos futuros colegas.

Já era visto como o canal direto do Senado com o gabinete do pai, o presidente Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto. Papel que, de fato, passou a desempenhar.

“Quer queira quer não, ele tem uma aproximação diferenciada com o mandatário do país e com a equipe dos ministros. Ele é um líder informal do governo. Não é oficialmente constituído, mas, pela facilidade de acesso, ajuda a todas as bancadas e senadores em situações em que pode encaminhar, interceder”, resume o líder do PSL no Senado, Major Olímpio (SP).

Dois dias depois da primeira visita de Flávio ao Senado, estourou a notícia de que um relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) apontava movimentação atípica de R$ 1,2 milhão em uma conta de Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro.

Atendendo a um pedido da defesa de Flávio, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, suspendeu todas as investigações baseadas em relatórios do Coaf com dados detalhados.

Colegas de Senado dizem que o filho mais velho de Bolsonaro destoa de outros membros da família ao adotar discrição nas redes sociais e nos discursos. Nas conversas pessoais, não é estridente. Mostra-se capaz de conversar inclusive com colegas da oposição.

“É uma pessoa de fácil relacionamento, muito aberto e cordial. Sempre se coloca à disposição para conquistar apoio para as matérias de interesse do governo”, afirma o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE).

Senadores próximos a Flávio dizem que ele não é vaidoso como os irmãos e que, de fato, tenta ajudar nos bastidores.

Um aliado cita como exemplo o dia em que o governo tentava evitar a derrubada do decreto que flexibiliza a posse e o porte de armas no Brasil. Flávio levou ao Executivo um acordo para que fosse aprovada só a posse, mas recebeu resposta negativa do Planalto.

Já opositores classificam Flávio como um colega afável, mas que, apesar de não ser tão estridente como outros membros da família, se omite em questões polêmicas e não tem um diálogo estabelecido com a oposição.

“Ele não participa [de ataques], mas podia ter um papel protagonista. Para mim, não basta ser apenas cordial”, afirma o líder da minoria no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

Em plenário, Flávio faz falas pontuais no dia a dia —o sistema do Senado contabiliza cinco pronunciamentos, embora não registre algumas manifestações que elevam essa estatística—, geralmente em defesa da agenda do governo.

“Vejo alguns senadores encherem o peito, os seus pulmões de ar, para falarem em democracia, como se o que está acontecendo neste momento com relação à legislação de armas fosse algum atentado à democracia, algum desrespeito a esta Casa. Muito pelo contrário: o presidente Bolsonaro, com coragem, mais uma vez demonstra o grande respeito e apreço que tem pela democracia”, discursou em 8 de maio, em defesa ao decreto das armas.

Em maio, quando Bolsonaro foi alvo de críticas de senadores que se revezaram na tribuna para indicar o descontentamento após o presidente compartilhar mensagem dizendo que o Brasil era “ingovernável” por causa de conchavos, Flávio foi um dos únicos a sair em defesa do pai.

“Sou muito procurado por vários colegas aqui de plenário, e a minha palavra é no sentido de falar que nunca recebi aqui no Senado nada que seja não republicano”, afirmou. “[Este] é um governo que está quebrando muitos paradigmas, que enfrenta resistências naturais, mudando formas de diálogo historicamente construídas, e obviamente o caminho está na política, não há outro.”

Pelo Salão Azul, no trajeto entre seu gabinete, no 17º andar, o plenário e as comissões, costuma andar com passos rápidos e nunca é visto sozinho.

Flávio integra a Mesa Diretora do Senado como terceiro secretário, posto que lhe dá o direito de indicar 13 cargos comissionados e cuja atribuição é fazer a chamada dos senadores, contar os votos, em verificação de votação, e auxiliar o presidente na apuração das eleições, anotando os nomes dos votados e organizando as listas respectivas.

Além disso, é titular em cinco comissões e integra outras duas como suplente.

Até o final de junho, havia apresentado 18 propostas. São projetos para reduzir a maioridade penal, flexibilizar a instalação de fábricas de armas e munições, proibir a extinção de punibilidade pela retratação no crime de falso testemunho, limitar a remuneração de empresas de equipamentos de fiscalização eletrônica de trânsito e para incluir na educação básica temas como empreendedorismo, matemática financeira e educação moral e cívica.

Também apresentou propostas para definir o crime de arrastão, para agravar pena por uso de armas de brinquedo e tratando sobre legítima defesa por agente de segurança pública.

Em seu gabinete, emprega 20 pessoas, sendo 17 cargos comissionados. Alguns destes já trabalhavam com Flávio na Assembleia Legislativa do Rio. Em seu escritório de apoio, tem outros quatro funcionários.

Desde que assumiu a cadeira de senador, seu gabinete gastou pouco mais de R$ 57 mil, sendo 44% deste valor com passagens aéreas.

Raio-x 

Raio-x 

01
Flávio Bolsonaro, 38

Senador eleito no ano passado pelo PSL-RJ, foi deputado estadual no Rio por quatro mandatos, de 2003 a 2018. É formado em direito

  • 18 propostas apresentadas na legislatura (até junho)
  • 5 pronunciamentos
  • 20 funcionários no gabinete
  • R$ 57 mil em gastos neste mandato, 44% com passagens aéreas

02
Carlos Bolsonaro, 36

Vereador no Rio pelo PSC, está no quinto mandato. Já foi filiado ao PTB e PP. É formado em ciências aeronáuticas

  • 1 projeto de lei apresentado na legislatura
  • 18 funcionários no gabinete

03
Eduardo Bolsonaro, 35

Deputado federal pelo PSL-SP, foi reeleito para um segundo mandato em 2018 com votação recorde de 1,8 milhão de votos. É formado em direito

  • 4 projetos de lei apresentados na legislatura
  • 8 pronunciamentos
  • 9 funcionários no gabinete
  • R$ 100 mil em gastos neste mandato

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